Um recorte do presidente dos EUA, Donald Trump, segurando um token de Bitcoin durante a conferência Bitcoin 2025 em Las Vegas. Fotógrafa: Bridget Bennett/Bloomberg
" data-large-file="https://www.infomoney.com.br/wp-content/uploads/2026/11/trump-cripto.jpg?fit=1280%2C853&quality=70&strip=all" />A fase de excepcional apoio político ao mercado de criptomoedas em Washington chegou a um fim abrupto. Com os democratas prestes a assumir o controle do Congresso após a vitória nas eleições de meio de mandato, o setor enfrenta a perspectiva de regras mais rígidas e maior fiscalização de seus vínculos com o presidente Donald Trump.
Durante dois anos, a indústria cripto desfrutou de uma posição privilegiada na capital americana. Tinha ao seu lado um presidente que transformou os ativos digitais em prioridade nacional, ao mesmo tempo que ampliava sua própria fortuna com negócios em criptomoedas, reguladores favoráveis à expansão do setor e um Congresso republicano alinhado a essa agenda.
Agora, o mercado enfrenta seu teste mais difícil para se consolidar como uma força permanente no sistema financeiro, justamente quando perde boa parte de sua influência política.
A vitória democrata no Congresso americano ameaça dificultar a aprovação de uma legislação abrangente nos termos desejados pela indústria e abre caminho para investigações parlamentares sobre os negócios de Trump com criptomoedas.
“Muitas figuras importantes do setor cripto se alinharam com a família Trump”, disse Austin Campbell, especialista em criptomoedas e ex-banqueiro que atualmente é professor adjunto da NYU Stern School of Business. “Essa aproximação provavelmente vai cobrar seu preço.”
Aproximação com Trump vira desafio para o setor cripto
Trump lançou seus próprios ativos digitais, recebeu executivos do setor na Casa Branca e incorporou as ambições da indústria à sua agenda política.
Em contrapartida, as principais conquistas das criptomoedas passaram a ficar intimamente associadas à sua Presidência. Os interesses financeiros pessoais do republicano, porém, também complicaram os esforços do setor para conquistar apoio político mais amplo.
Essa relação chegou a um ponto crítico em setembro, quando o Senado não conseguiu avançar com o Clarity Act, projeto de lei destinado a estabelecer regras mais claras para corretoras e outras empresas de ativos digitais.
Os negócios de Trump com criptomoedas se tornaram um dos principais focos de divergência. Desacordos sobre a remuneração de stablecoins, a proteção dos investidores e a concorrência com os bancos também contribuíram para o impasse.
A eleição agora deve mudar os rumos desse debate.
Os democratas sinalizaram que pretendem exigir regras éticas mais rigorosas, maior proteção aos consumidores e uma participação mais ampla da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC, na sigla em inglês) na supervisão dos ativos digitais.
Essas mudanças se distanciam do modelo defendido por muitas empresas de criptomoedas durante o controle republicano. Por outro lado, também podem abrir caminho para uma nova legislação, caso o setor consiga construir apoio entre os dois partidos.
“Haverá uma postura defensiva à medida que a indústria se reajusta a uma nova liderança, pelo menos inicialmente”, disse Adam Minehardt, diretor de políticas do Hyperliquid Policy Center.
Apostas políticas do mercado cripto podem ter consequências
As grandes apostas políticas da indústria de criptomoedas também podem trazer consequências.
Sherrod Brown, derrotado em 2024 após grupos de lobby do setor investirem milhões de dólares na campanha contra ele, venceu o senador republicano de Ohio, Jon Husted.
Segundo a consultoria Capstone, Brown poderá assumir uma posição de destaque no Comitê de Agricultura do Senado, responsável pela supervisão da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC, na sigla em inglês), um dos principais órgãos reguladores do mercado cripto.
A nova composição do Congresso também dará aos democratas mais instrumentos para investigar os interesses empresariais de Trump.
Parlamentares já haviam solicitado informações sobre empreendimentos ligados ao presidente e à sua família. Trump, por sua vez, tem negado reiteradamente que seus negócios privados representem conflitos de interesse com as responsabilidades do cargo.
A deputada democrata Maxine Waters, da Califórnia, crítica dos vínculos de Trump com criptomoedas, deverá ganhar influência no Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos Representantes.
Já a senadora Elizabeth Warren, de Massachusetts, deve assumir a presidência do Comitê Bancário do Senado.
“Teremos uma agenda efetiva de fiscalização, com presidentes de comissões dotados de mais poderes”, afirmou Minehardt.
“Já estamos vendo sinais disso vindos dos gabinetes de diferentes parlamentares. Eles vão recorrer a todos os instrumentos à disposição para investigar até onde essas conexões chegam.”
Congresso poderá ampliar fiscalização sobre empresas cripto
Apesar da mudança política, muitas das conquistas regulatórias do setor serão difíceis de reverter.
A legislação federal sobre stablecoins, por exemplo, só poderá ser revogada por meio de uma nova lei.
Enquanto isso, a SEC e a CFTC continuam desenvolvendo normas que podem ampliar a integração dos ativos digitais aos mercados financeiros tradicionais.
Esse trabalho poderá avançar durante o governo Trump independentemente do resultado das eleições, embora futuras administrações possam rever decisões tomadas pelas agências.
O Congresso, por sua vez, dispõe de instrumentos para influenciar a atuação dos reguladores, incluindo o controle sobre a destinação de recursos orçamentários, explicou Tyler Gellasch, diretor executivo da Healthy Markets Association.
Segundo ele, os parlamentares podem tentar impedir que as agências utilizem recursos em determinadas iniciativas regulatórias das quais discordem.
Gellasch lembrou que os republicanos recorreram durante anos a esse mecanismo para impedir que a SEC adotasse regras de divulgação de gastos políticos.
O Congresso também pode investigar decisões das agências reguladoras e suas relações com empresas consideradas politicamente favorecidas.
Bitcoin enfrenta desafios além da política americana
O mercado de criptomoedas, porém, apresenta desafios que vão além da mudança de poder em Washington.
O histórico do Bitcoin, marcado por ciclos intensos de valorização e queda sob governos de ambos os partidos, dificulta qualquer tentativa de relacionar suas perspectivas de preço diretamente ao cenário político americano.
A criptomoeda continua bem abaixo de suas máximas anteriores, apesar da flexibilização regulatória e do apoio político durante o governo Trump, fatores que haviam alimentado expectativas de uma nova era de ouro para os ativos digitais.
O recente ataque hacker à Binance, que resultou no roubo de US$ 6,3 bilhões, evidenciou outro desafio importante: a segurança.
Desde então, a exchange conseguiu recompor praticamente todos os criptoativos roubados, utilizando uma combinação de recursos próprios e dois fundos de seguro.
“A indústria cripto precisa tirar esses ataques das manchetes”, disse Peter Atwater, professor adjunto de economia na William & Mary.
“A repetição desses episódios importa. Será interessante observar se isso levará os democratas a fazer o pêndulo regulatório se mover novamente, com maior ênfase na segurança e na solidez do setor.”
Setor cripto busca apoio além de Trump
Apesar dos obstáculos, as perspectivas das criptomoedas vão muito além da aliança construída com Trump.
Os ativos digitais já estão presentes em fundos de investimento, sistemas de pagamento com stablecoins e infraestruturas financeiras que envolvem instituições cujos interesses se estendem para além de qualquer mandato presidencial.
Para uma indústria que busca atrair clientes de diferentes posições políticas, uma identidade menos associada a um partido pode, no longo prazo, representar uma vantagem, e não necessariamente um retrocesso.
Representantes do setor já começaram a enfatizar essa disposição de trabalhar com democratas e republicanos.
“Os ativos digitais sempre foram bipartidários, e estamos prontos para trabalhar tanto com os novos parlamentares quanto com os que retornam, de ambos os lados do espectro político”, afirmou Ji Kim, diretor executivo do Crypto Council for Innovation.
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