A Vereda, startup que conecta fabricantes de insumos agrícolas aos produtores rurais, captou R$ 30 milhões em uma rodada seed coliderada por Canary e Valor Capital Group. A rodada também contou com a participação do Speedrun, fundo da Andreessen Horowitz (a16z) dedicado a empresas em estágio inicial.
Fundada em 2025, a agtech atua como braço comercial das indústrias parceiras, levando o portfólio dos fabricantes diretamente aos produtores. O modelo parte de um diagnóstico do setor. “Existe um consenso de que o setor precisa de um novo modelo, mas não vemos ninguém fazendo algo estruturalmente diferente”, afirma João Pedro Aguiar de Souza, cofundador da Vereda, em nota.
A aposta ocorre em um momento de fragilidade financeira entre distribuidores de insumos agrícolas. Nos últimos meses, empresas do setor, como Sagra Insumos Agropecuários, Prime, Sefert e Soyagro, entraram com pedidos de recuperação judicial.
Para a Vereda, esses casos evidenciam os riscos de um modelo que concentra as operações de venda, estoque e financiamento ao produtor. O cenário é agravado pela restrição de crédito e por mais de quatro anos de juros elevados.
Revenda sob pressão
Historicamente, na avaliação da Vereda, as revendas de insumos agrícolas acumulam três funções: comercializam os produtos, mantêm estoques e financiam parte dos custos da safra. Como o produtor precisa comprar os insumos antes do plantio, mas só recebe pela produção após a colheita, cabe à revenda financiar esse intervalo, que pode durar de sete a oito meses. Para sustentar esse modelo, ela depende dos prazos de pagamento concedidos pelos fabricantes e de margens comerciais suficientes para cobrir os custos da operação e o risco de crédito.
Segundo a empresa, esse modelo perdeu sustentabilidade nos últimos anos. A concorrência mais acirrada entre fabricantes e o avanço dos produtos genéricos reduziram as margens das revendas. Ao mesmo tempo, o aumento do custo de capital e a deterioração financeira de parte do setor elevaram a inadimplência a níveis históricos, consumindo a margem que ainda restava à distribuição.
Venda por comissão
A Vereda é remunerada por comissão sobre as vendas, sem comprar nem manter estoque.
Para a camada comercial, a startup combina uma equipe de campo própria com uma rede de agentes comerciais autônomos, que podem oferecer produtos de várias indústrias e categorias. O formato lembra o dos assessores de investimento autônomos (AAIs) no mercado financeiro. De acordo com a empresa, o resultado é um acesso mais barato ao produtor para a indústria e uma operação mais leve para a agtech.
Para a indústria, o modelo dá acesso a uma base de produtores que hoje só alcança por intermediários, sem ampliar a própria estrutura comercial. Para liderar a área, a Vereda trouxe, no primeiro mês de atividade, João Vieira da Silva Filho como sócio e diretor comercial. Ele tem 25 anos de atuação no mercado de insumos agrícolas e foi gerente sênior regional de vendas da Nutrien, além de ter passado pelos distribuidores Grupo Tec Agro e BR Agro.
Financiamento fora da cadeia
O próximo passo da Vereda é retirar o financiamento da cadeia comercial. Na safrinha 2026/27, a startup conduz um projeto-piloto em que instituições financeiras, como tradings, bancos e fundos de crédito privado, pagam os fabricantes à vista e financiam as compras dos produtores. A companhia estrutura a operação e conecta as três partes, mas não concede crédito nem assume o risco financeiro. Com isso, a dívida do produtor passa a ser diretamente com a instituição financiadora.
“Hoje a indústria já financia o produtor, só que de forma indireta, por meio do prazo que concede à revenda. Como a revenda tem balanço limitado para absorver a inadimplência, o risco volta para o fabricante. A indústria não quer vender dinheiro, quer vender produto e tecnologia para o campo”, afirma João Pedro.
Segundo a agtech, o modelo beneficia os três lados da operação. Os fabricantes retiram o risco de crédito do balanço e recebem à vista, liberando capital de giro. Os produtores compram diretamente da indústria, sem a margem da revenda, o que pode reduzir o preço final em mais de 30%. Já as instituições financeiras ganham um canal de originação de crédito agrícola pulverizado, lastreado em operações reais de compra de insumos, sem precisar montar uma estrutura comercial no campo.
Ainda em pequena escala, os primeiros resultados indicam que a Vereda alcançou rentabilidade próxima à de uma distribuidora tradicional, mas sem precisar manter estoques ou assumir riscos de crédito. “Construímos um modelo mais sustentável do que o atual. Agora precisamos provar que ele funciona em escala”, diz João Pedro.
IA na operação
Toda a operação comercial roda em uma plataforma própria, integrada ao WhatsApp, canal que produtores e vendedores já usam no dia a dia. Quando o agricultor pede uma recomendação que exige conhecimento agronômico, a IA transforma a demanda, muitas vezes pouco estruturada, em uma indicação de produto com base nos materiais das indústrias parceiras. A plataforma também prepara propostas, organiza a documentação do financiamento e acompanha cada negociação até o fechamento.
A cada interação, o sistema acumula informações sobre o produtor, o que torna o atendimento mais preciso ao longo do tempo. A Vereda mantém ainda, desde o primeiro dia, um canal de vendas no WhatsApp conduzido por agentes de IA treinados para o contexto do agro, pelo qual o produtor faz toda a jornada de compra. Áreas internas como gestão financeira, backoffice e recursos humanos também são conduzidas por agentes de IA.
“Estamos construindo agentes de IA que trabalham ao lado dos nossos vendedores. Eles cuidam da parte operacional da venda para que o vendedor possa se dedicar ao que só ele faz, que é construir uma relação de confiança com o produtor”, diz o cofundador Pedro Galindo.
Próximos passos
No curto prazo, a prioridade é consolidar a operação em Goiás, onde a Vereda foi fundada, e ampliar a rede de indústrias parceiras e de produtores atendidos. A partir de 2027, a ambição é escalar o modelo de financiamento testado no piloto e levar o canal a outras regiões agrícolas.
Segundo a empresa, os R$ 30 milhões dão fôlego para construir o modelo com solidez e crescer num momento em que boa parte do setor está se retraindo.
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