A palestra de Gerson Júnior no IT Forum Na Mata HPE começou com uma constatação que ninguém na plateia contestaria: o mundo acelerou. Mensagens respondidas durante o almoço, trabalho que acompanha as férias, celular sempre à mão. O problema, para quem passa os fins de semana em um autódromo, é o que vem junto. “A velocidade potencializa tudo, inclusive os erros. A batida no trânsito é uma batida. A minha é diferente”, disse o diretor de tecnologia do BTG Pactual e piloto da Mercedes-AMG Cup Brasil.
Com passagens pelo Walmart e pelo Magalu, onde ficou 11 anos e acompanhou o nascimento do Luiza Labs, Gerson está no BTG desde 2022. Lá, responde por infraestrutura de cloud, SRE e áreas como core banking e prevenção a fraudes. Nas pistas, corre na AMG Cup, que, segundo ele, reúne cerca de 50 carros e tem o maior grid monomarca da Mercedes fora da Alemanha.
O primeiro alerta foi sobre a pressa em experimentar. Gerson citou levantamento do Gartner segundo o qual metade dos projetos de IA generativa é abandonada depois da prova de conceito. Os motivos se repetem: dado que não serve, premissa que não se sustenta, automação de processos que nem deveriam existir. O executivo resumiu o fenômeno com um trocadilho: muitos pilotos e pouco impacto.
A régua que defende vem dos tempos de Magalu. No Luiza Labs, experimentar era incentivado, desde que o projeto respondesse a uma pergunta antes de sair do papel: que dor isso resolve? “Precisamos inverter a lógica. Me conte o fim primeiro. Quando estiver pronto, o que vai resolver?”, afirmou. Em plena temporada de orçamento, a provocação ganhou peso. Para ele, será difícil justificar o gasto com tokens sem nenhum problema resolvido do outro lado.
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80 parâmetros, uma única pergunta
O dado foi o segundo eixo da apresentação. De acordo com os estudos do Gartner citados por Gerson, 63% das empresas não sabem se têm dados prontos para IA, só 4% se consideram preparadas e, em infraestrutura e operações, 38% das falhas estão ligadas a dados ruins ou indisponíveis. No BTG, contou, a pergunta “esse dado está certo?” aparece o tempo todo. Com o time, a regra é simples: alerta que não gera nenhuma ação em dois dias deve ser desligado.
Na pista, a lógica é a mesma. O Mercedes A45 que ele pilota monitora mais de 80 parâmetros, lidos dez vezes por segundo, mas o objetivo continua sendo um só: andar mais rápido que os outros 49 carros. Por isso, a análise se concentra em poucos sinais, como velocidade, acelerador, freio, rotação, marcha e temperatura dos pneus.
O exemplo mais eloquente veio de um prejuízo real. Depois de um toque em outro carro, um sensor de temperatura na grade dianteira quebrou. Desconectado, ele não acusava falha. Informava zero grau. Com 50 graus na sombra, a central passou a ajustar a mistura de combustível como se o carro estivesse no frio, e o desempenho desapareceu. A equipe levou dias para descobrir a causa: uma peça de R$ 100. Em outra corrida, Gerson perdeu o segundo lugar por um fusível de R$ 2. “É um esporte muito caro que derruba você por R$ 2”, disse. A lição, segundo ele, é recortar o escopo e preferir dois projetos menores, com dados que conversam entre si, a um projeto gigante que nunca fica pronto.
A Fórmula 1 serviu de contraponto. Gerson lembrou a imagem de Ayrton Senna consultando tempos de volta anotados em papel e comparou com o cenário atual: cerca de 300 sensores por carro e 1,1 milhão de pontos de telemetria por segundo na parceria da AWS com a categoria, além dos bilhões de simulações por corrida feitas pela Oracle na Red Bull. No caso da HPE com a Mercedes, são 50 TB semanais de dados aerodinâmicos, e a simulação de pré-corrida caiu de três dias para um. Na prática, a equipe chega à pista com um acerto já próximo do ideal, enquanto os rivais ainda testam. “Isso vira competitividade na veia”, afirmou.
Para quem cuida de infraestrutura, porém, o reconhecimento raramente vem. Segundo o Gartner, só 28% dos projetos de IA em infraestrutura e operações atingem o retorno esperado, e 45% dos investimentos em IA vão para infraestrutura. Gerson comparou a área à água do chuveiro: ninguém liga para a Sabesp para elogiar o banho, mas todo mundo percebe quando a água não sai. “Se queremos fotos e aplausos, precisamos mudar de área. Nossa satisfação tem de ser o sistema funcionando.”
A tecnologia muda, a responsabilidade não
A parte final da palestra tratou de pessoas. Gerson citou pesquisa da Microsoft segundo a qual 80% dos profissionais dizem não ter tempo nem energia para produzir mais, enquanto 82% dos líderes pretendem ampliar a capacidade das equipes com agentes digitais. A tentação de cortar pessoal é grande, sobretudo no Brasil, onde salário, benefícios e impostos pesam no balanço. Ele lembrou, no entanto, a previsão do Gartner de que 30% dos profissionais substituídos por IA serão recontratados até 2029. “A pessoa leva contexto, leva história. Medir o benefício da IA pelo número de cabeças cortadas não me parece o melhor caminho.”
O efeito sobre o aprendizado também entrou na conta. Em um estudo do MIT, três grupos escreveram textos sem ajuda, com buscadores e com IA. A qualidade final foi parecida, mas 89% de quem não usou ferramentas conseguia lembrar e citar o que havia escrito, contra 17% de quem usou IA. Para Gerson, a diferença está no uso. Delegar a tarefa empobrece o aprendizado. Usar a IA como tutor pode acelerá-lo.
Ao comentar dados sobre a queda de desempenho de gerações mais jovens, pediu que a plateia não transformasse os números em piada sobre a geração Z. “Ou aprendemos a lidar com quem pensa diferente, ou vamos contratar só os mais velhos?”, provocou, lembrando que dinheiro sozinho já não motiva quem prefere sair no horário para passear com o cachorro.
O fio condutor foi a responsabilidade. Alguém, no fim, vai sentar atrás do volante e executar tudo o que foi previsto. “IA é ferramenta. Qual é a sua estratégia do ano? IA? Não. A estratégia é usar IA para acelerar alguma coisa.”
De volta ao box, Gerson lembrou que, preso ao banco e ao HANS, de capacete, não consegue sequer afivelar o próprio cinto. Depende da equipe para combustível, pneus e acerto. O carro mais rápido, disse, não ganha corrida sozinho. Na pista, a vitória depende de máquina, dado, equipe, estratégia e piloto. Na empresa, de tecnologia, dado, infraestrutura, gente e liderança. “Velocidade não basta. Precisamos de direção”, concluiu. É ela, segundo o executivo, que transforma tecnologia em vantagem competitiva, seja na pista, seja na reunião de segunda-feira.
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