29/06/2019
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Hong Kong — No início de 1945, os líderes dos Estados Unidos, da União Soviética e da Grã-Bretanha se reuniram na cidade de Yalta, na Crimeia, e firmaram um acordo secreto que prometia a Moscou direitos especiais na China em troca de sua entrada na guerra contra o Japão. Mas a China não estava à mesa.
“É uma lição histórica da política das grandes potências que a China jamais esquecerá”, afirmou Xin Qiang, especialista nas relações entre Estados Unidos e China da Universidade Fudan, em Xangai. “Tudo foi feito pelas costas da China e às custas dos interesses chineses.”
Mais de oito décadas depois, Pequim avalia sediar uma reunião trilateral entre o presidente Donald Trump, o presidente russo Vladimir Putin e Xi Jinping, líder da China.
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O encontro poderia reforçar a ambição da China de se consolidar como uma potência global indispensável, em igualdade de condições com os Estados Unidos. Mas também corre o risco de remeter ao tipo de negociação entre grandes potências que Pequim afirma repudiar.
A possibilidade de uma reunião desse tipo, levantada pelo Kremlin, despertou temores na Ucrânia de que Putin possa buscar um acordo com Trump para encerrar sua guerra e decidir o destino da Ucrânia — sem a participação de Kyiv.
A China confirmou na quarta-feira que mantém conversas com a Rússia e os Estados Unidos sobre uma reunião entre os líderes dos países, presumivelmente à margem da cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), na cidade chinesa de Shenzhen, no fim deste mês. Mas ainda não estava claro se o encontro de fato ocorreria.
Como a Ucrânia complica a decisão da China
A China reluta em oferecer uma plataforma para que Putin feche um acordo com Washington sobre a Ucrânia.
Fazer isso contraditaria a posição de Pequim de que as negociações de paz exigem a participação da Ucrânia e da Europa. Xi parece ter reforçado esse ponto ainda na semana passada.
O presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, que visitou Pequim, disse a uma emissora alemã que, quando se encontrou com Xi, o líder chinês deixou claro que não acreditava que Estados Unidos, Rússia e China discutiriam o destino da Ucrânia em Shenzhen.
“Era possível ver a irritação em seu rosto. Ele até perguntou de onde vinham esses rumores”, disse Steinmeier.
“Ele afirmou explicitamente que este é um conflito europeu e que os europeus precisam estar à mesa”, acrescentou.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, expressou reservas quanto às possíveis conversas. Na semana passada, ele disse: “Eu realmente não quero que isso se torne uma ‘Yalta 2, 3, 4’, com uma redistribuição de influência”, segundo a agência estatal ucraniana Ukrinform.
Na China, alguns veem o acordo secreto firmado na Conferência de Yalta, perto do fim da Segunda Guerra Mundial, como uma traição. O então governo nacionalista chinês foi pressionado a renunciar à sua reivindicação sobre o que hoje é a Mongólia e a conceder aos soviéticos direitos especiais navais, de transporte e comerciais na Manchúria, no nordeste da China.
Uma reunião contemporânea envolvendo os três países com os maiores arsenais nucleares do mundo seria desconfortável em relação à imagem que Pequim busca projetar de si mesma como defensora dos interesses de nações mais fracas. (Na prática, a China não hesita em demonstrar sua força contra países menores, como as Filipinas.)
“Independentemente do que Putin, Xi e Trump possam discutir, a imagem deles reunidos levantaria dúvidas sobre se isso implicaria algum tipo de condomínio entre grandes potências que desconsideraria os interesses de nações menores”, disse Joseph Torigian, historiador do Partido Comunista Chinês na American University, em Washington.
“Seria, de fato, irônico para os chineses se decidirem que uma reunião trilateral ainda assim vale a pena por algum motivo”, acrescentou.
Pequim não quer discutir armas nucleares
Trump disse que gostaria de usar uma reunião trilateral com Xi e Putin, em Shenzhen, para discutir a desnuclearização. O último tratado de controle de armas nucleares entre Estados Unidos e Rússia expirou em fevereiro, e a China está expandindo rapidamente seu arsenal nuclear.
Para Pequim, no entanto, esse tema está fora de cogitação. Sob Xi, a China abandonou sua estratégia de décadas de manter um arsenal capaz de proporcionar apenas uma “dissuasão mínima”. Em vez disso, vem acumulando um estoque que um dia poderá rivalizar com os de Washington e Moscou e tem resistido a impor limites ao desenvolvimento de armas nucleares.
Além disso, a China possui um número muito menor de ogivas — uma estimativa de 620 — em comparação às mais de 5.000 de Rússia e Estados Unidos, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo.
Questionada no mês passado se a China concordaria em discutir desnuclearização em Shenzhen com Estados Unidos e Rússia, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning, evitou responder diretamente. Ela afirmou que Washington tem a responsabilidade principal pelo desarmamento e acrescentou que pedir à China que participe de negociações sobre desarmamento nuclear não seria “justo, razoável nem realista”.
Ainda assim, analistas chineses sugerem que Pequim poderia concordar com algo mais restrito.
Zhao Long, especialista em segurança dos Institutos de Estudos Internacionais de Xangai, afirmou que a China talvez esteja aberta a conversas sobre a redução dos riscos de um conflito nuclear.
Isso poderia incluir a melhoria dos canais de comunicação durante crises e a garantia de que, mesmo na era da inteligência artificial, os países mantenham controle humano sobre as decisões nucleares — tema sobre o qual China e Estados Unidos chegaram a um acordo em 2024.
Os riscos de sediar o encontro
Apesar de todas as suas reservas, é improvável que Pequim recuse Trump e Putin, afirmou Ryan Hass, ex-diplomata de carreira e ex-funcionário de segurança nacional da Casa Branca, atualmente na Brookings Institution.
Hass viajou recentemente a Pequim e se reuniu com autoridades e acadêmicos chineses interessados em discutir o que Trump pretendia obter com uma reunião trilateral.
Ele ficou com a impressão de que Pequim queria colher os benefícios de um encontro histórico, mas tinha cautela quanto ao peso da responsabilidade de fazê-lo ser bem-sucedido.
“Xi normalmente evita assumir a responsabilidade por eventos diplomáticos de grande visibilidade e resultados incertos, portanto esse evento levará o lado chinês além de sua zona de conforto”, disse Hass.
Para muitas autoridades no Ocidente, a China desempenha um papel fundamental na influência sobre Moscou, porque a Rússia se tornou muito dependente de Pequim, tanto diplomática quanto economicamente. Em 2024, a Otan acusou a China de ser uma “facilitadora decisiva da guerra da Rússia contra a Ucrânia”, pedindo que interrompesse o envio de “componentes de armamentos” e de outras tecnologias de que a Rússia necessita para reconstruir suas forças militares.
Mas, para Pequim, a China tem pouco a ver com um conflito que não ajudou a iniciar e que não apoiou militarmente. Alguns analistas chineses sugerem que o máximo que Pequim poderia fazer seria acolher as conversas, ao mesmo tempo em que tenta se distanciar da ideia de que pode pressionar o Kremlin.
“Se os Estados Unidos e a Rússia quiserem conversar, a China não pode dizer a eles para não fazê-lo”, afirmou Song Guoyou, especialista em relações entre Estados Unidos e China da Universidade Fudan, em Xangai.
Se os três líderes se reunissem e o tema da Ucrânia estivesse na pauta, disse ele, a China seria apenas “uma facilitadora do diálogo, uma fornecedora da plataforma e uma testemunha neutra”.
Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.
c.2026 The New York Times Company
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