A União Internacional de Telecomunicações (UIT) e a Organização Mundial de Meteorologia (OMM) divulgaram um chamado para reguladores, governos e serviços meteorológicos garantirem espectro de rede para prevenção de desastres, gestão de recursos hídricos, mudanças e alertas climáticos.
Uma das principais preocupações das entidades ligadas à ONU ocorre pela pressão comercial de operadoras e vendors para obterem essas faixas em prol de lançamentos comerciais de 5G e, futuramente, de 6G.
Para UIT e OMM, os líderes do mercado de telecomunicações visam o uso dessas frequências de serviços meteorológicos em banda larga sem fio satelital e comunicação sem fio.
Interferência e frequências, segundo UIT e OMM
Outro receio diz respeito ao risco de interferência de rádio em serviços do gênero, uma vez que equipamentos comerciais nas frequências de 23,8 GHz e 50 GHz podem vazar sinal e contaminar medidores de emissão atmosférica — que passariam a apresentar sinal fraco e dados imprecisos.
Junto ao pedido, um guia técnico foi elaborado com orientações operacionais e regulatórias para apoiar decisões de concessão ou retenção de espectro vitais para a observação do clima no planeta. Estão incluídos sensores passivos de micro-ondas para observação espacial, radares meteorológicos terrestres para detecção de tempestades e chuvas, radiossondas para auxílios meteorológicos e satélites meteorológicos.
Entre as frequências que os dois órgãos pedem proteção estão:
- 400 MHz a 1.427 MHz para medir umidade dos solos e salinidade dos oceanos;
- 23,6 GHz a 24 GHz para medir a quantidade de vapor d’água no ar;
- 31,3 GHz a 31,8 GHz para medir o conteúdo de água líquida nas nuvens;
- 50,2 GHz a 58,6 GHz para obter perfis verticais de temperatura da atmosfera, da superfície até a estratosfera;
- 86 GHz a 92 GHz, 150 GHz e 183 GHz para medição de gelo nas nuvens, precipitação forte e perfil de umidade;
- 5,6 GHz a 5,65 GHz para monitoramento contínuo de precipitação e tempestades severas, usado principalmente na Europa;
- 2,7 GHz a 2,9 GHz para medição de chuva em regiões com precipitações intensas, como áreas tropicais;
- 9,3 GHz a 9,5 GHz para radares de curto alcance, monitoramento urbano, aeroportos e radares móveis;
- 400,15 MHz a 406 MHz e 1.668 MHz a 1.700 MHz destinados ao envio de dados telemétricos de radiossondas para estações em solo;
- 670 MHz a 1.710 MHz para transmissão primária de dados de satélites geoestacionários para receptores em solo;
- 7,75 GHz a 7,9 GHz e 25,5 GHz a 27 GHz usadas para descarregar grande volume de dados de alta resolução de satélites meteorológicos polares.
Visão do Brasil
A Anatel foi procurada logo após a divulgação do material. Em nota, o regulador informou que o guia técnico publicado pela UIT e pela OMM é uma importante referência para meteorologistas, reguladores e formuladores de políticas públicas sobre como os sistemas de radiocomunicações auxiliam em aplicações de previsão do tempo, monitoramento climático e alertas de desastres.
“Um dos pontos destacados no documento é a importância de conhecer as características técnicas e operacionais desses sistemas para orientar a gestão do espectro. Essa abordagem já integra a atuação da Anatel, que considera as necessidades dos diferentes serviços e as recomendações internacionais em seus estudos e posicionamentos sobre o uso do espectro no Brasil, sempre observando o interesse público”, disse a agência em nota. “Nesse contexto, o documento contribui como referência técnica para os aspectos de uso e convivência nas faixas utilizadas por essas aplicações, sem implicar, por si só, refarming ou desocupação de faixas”, completou.
A Anatel lembra ainda que, em parceria com o INPE, participou do desenvolvimento do documento sobre uso do radioespectro para meteorologia no âmbito do Grupo de Estudos 7 (Serviços Científicos), da entidade internacional, estando presente também em sua aprovação e cerimônia de publicação. Recorda ainda que o material foi aprovado na última reunião do Grupo de Estudos 7, em 25 de setembro deste ano, e formalmente publicado por Doreen Bogdan-Martin, secretária-geral da UIT, durante a abertura do seminário WMO-ITU “Spectrum use for meteorology: challenges, opportunities and evolving requirements”, que trata do tema.

