Em maio, a brasileira Enter virou o unicórnio de IA da vez ao levantar US$ 100 milhões com o Founders Fund, avaliada em US$ 1,2 bilhão. Cinco meses depois, o posto mudou de dono. A Tractian anunciou nesta quinta-feira (22) uma Série D de US$ 130 milhões que avalia a companhia em US$ 1,4 bilhão e a coloca como a startup de IA mais valiosa da América Latina.
A Sapphire Ventures, que já havia liderado a Série C, volta a liderar a rodada, agora em coliderança com a Catalyst, divisão de growth equity da britânica M&G. Entre novos e antigos investidores, também participam N47, General Catalyst, Bosch Ventures, 53 Stations, Monashees, Endeavor Catalyst, Norte Ventures e Y Combinator.
O salto no valuation é grande: mais do que dobrou em menos de dois anos. Em dezembro de 2024, a Série C de US$ 120 milhões avaliou a Tractian em R$ 4 bilhões, pouco mais de US$ 650 milhões no câmbio da época. No meio do caminho, em agosto, a empresa ainda fechou seu primeiro financiamento público: R$ 120,1 milhões do BNDES para desenvolver assistentes robóticos de inspeção industrial.
Use of proceeds
O dinheiro novo vai para escalar a tese de IA física, aquela que opera no mundo das máquinas, e não só no das telas. A empresa vai aplicar os US$ 130 milhões em pesquisa e desenvolvimento ao longo dos próximos cinco anos. Parte do capital vai para o treinamento de grandes modelos de linguagem e para a compra de processadores da Nvidia.
A plataforma da Tractian combina sensores de vibração, ultrassom e outras modalidades para montar um retrato contínuo da condição de cada equipamento. Uma camada de agentes, treinada no que a empresa diz ser uma das maiores bases de dados de falhas industriais do mundo, transforma esse retrato em diagnóstico, aponta a causa raiz e sugere o plano de ação. A ambição é deixar de apenas prever quebras e passar a cuidar da saúde completa de cada ativo crítico.
“Esta rodada vai nos permitir escalar ainda mais a plataforma, levando a fabricantes, operadores de data centers, empresas de defesa e utilities insights estratégicos para otimizar a saúde das máquinas, fechar a lacuna entre o alerta e a ação e eliminar paradas não planejadas”, afirma Igor Marinelli, CEO e cofundador.
Segundo o executivo, o ganho de escala deve ampliar a receita anualizada da deep tech, hoje perto de US$ 100 milhões, metade dela vinda dos Estados Unidos. Com esse avanço, Igor espera que a empresa passe a gerar caixa antes do fim do ano que vem.
Para a Sapphire, a corrida da IA só reforça a aposta. “O boom da IA está impulsionando uma enorme construção de infraestrutura física, e as empresas que constroem e operam essa infraestrutura não podem se dar ao luxo de ter falhas em equipamentos”, diz Anders Ranum, sócio do fundo. “Quando lideramos a Série C, acreditávamos que combinar hardware, dados e IA daria uma vantagem real à empresa. Desde então, a tese só se fortaleceu.”
Fundada em 2019 por Igor e Gabriel Lima, hoje COO, a Tractian tem sede em Atlanta e escritórios em São Paulo, Monterrey e na Polônia. A unidade polonesa foi aberta este ano para atender clientes na União Europeia. No total, a empresa tem mais de 700 funcionários.
Quanto a clientes, mais de 2 mil instalações críticas usam a tecnologia da Tractian, incluindo operações de Eli Lilly, McKesson, Whirlpool, Coca-Cola, Cummins e Embraer, além de data centers e estruturas de governo que a empresa não identifica. No Brasil, a carteira inclui indústrias de diferentes setores, como Suzano, Dexco, EMS e Thyssenkrupp.
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