Quando os primeiros resultados de 2027 chegarem à mesa, a gestão vai querer saber por que a empresa gastou mais ou menos do que planejou. Para responder, será preciso comparar os números com o orçamento que está sendo elaborado agora. A chegada da IFRS 18, norma internacional de contabilidade que reorganiza a apresentação da demonstração do resultado com categorias e sub totais padronizados para facilitar a análise do desempenho das empresas – acrescenta um ponto de atenção a esse trabalho: como fazer essa comparação se a apresentação do realizado mudar?

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Aplicável aos períodos anuais iniciados em ou após 1º de janeiro de 2027, a IFRS 18 estabelece novos requisitos de apresentação e divulgação das demonstrações financeiras. A norma não exige que o orçamento interno reproduza a DRE publicada. A empresa pode manter as classificações que utiliza na gestão, mas precisa definir como elas serão comparadas ao realizado.

Considere um exemplo hipotético. Uma empresa prevê R$ 10 milhões em despesas na rubrica “outros”. Na nova apresentação da demonstração do resultado do exercício (DRE), R$ 1 milhão permanece nessa linha e os R$ 9 milhões restantes são distribuídos entre rubricas mais específicas. Ao olhar apenas “outros”, a gestão encontra uma despesa 90% abaixo do orçamento. No total, porém, a empresa pode ter gasto exatamente o que previa.

A controladoria terá de localizar os valores distribuídos e reunir as informações para explicar a diferença. Se esse trabalho for feito em planilhas, com ajustes a cada fechamento, consumirá parte do tempo destinado à análise das despesas e à revisão das projeções.

O problema também aparece nas linhas que recebem os valores reclassificados. Elas podem indicar gastos acima do orçamento sem que tenha ocorrido aumento da despesa total. Antes de pedir explicações a uma área ou propor cortes, será necessário conferir quanto da diferença decorre dessa mudança.

No exemplo dos R$ 10 milhões, há duas possibilidades: distribuir também o orçamento entre as rubricas correspondentes ou reunir as despesas realizadas numa visão equivalente à previsão original. A escolha depende das análises que a empresa faz e do detalhamento de que precisa. Depois de definida, essa correspondência deve ser mantida nas revisões do orçamento e nas atualizações das projeções.

A participação de TI começa nessa definição. O ERP registra as transações, mas a classificação usada na DRE pode ser aplicada mais adiante, durante a consolidação. Uma despesa continua na mesma conta de origem e passa a aparecer em outra linha do relatório.

A área financeira define os critérios. Com base neles, TI avalia onde as regras serão configuradas e como as informações passarão de um sistema a outro. Nem toda mudança de apresentação exige alterar o ERP. Em alguns casos, o tratamento pode ser feito na consolidação; em outros, será necessário ajustar também o ambiente de planejamento. Essa avaliação evita que cada equipe resolva sua parte e deixe para o fechamento a tarefa de conciliar as diferenças.

A rastreabilidade é um dos pontos-chave nesse projeto. Quando a integração permite, o auditor ou usuário pode clicar em um subtotal da DRE reformulada, abrir sua composição e chegar aos registros transacionais de origem no ERP. É o drill-down, que permite investigar os valores sem procurar sucessivas versões de planilhas de reclassificação.

Para conferir o relatório, é preciso saber de onde veio o valor e por que ele foi apresentado naquela linha. O registro no ERP identifica sua origem, e a regra de reclassificação explica sua posição na DRE. As duas informações precisam estar disponíveis para quem faz essa conferência.

Se uma regra mudar entre fechamentos, a equipe também deverá conseguir identificar quando a alteração passou a valer e quais valores foram afetados. Do contrário, poderá atribuir à operação uma diferença produzida pela classificação.

Antes de concluir o orçamento, vale testar uma comparação com dados disponíveis. Contabilidade, planejamento financeiro e TI podem escolher uma rubrica relevante e verificar se conseguem explicar o previsto e o realizado, consultando os lançamentos e os critérios utilizados. Outra pessoa da equipe deve conseguir repetir a análise sem depender de quem configurou o processo.

Se o teste exigir reconstruir fórmulas, procurar arquivos ou chamar o único profissional que conhece determinado ajuste, haverá trabalho a fazer. Para a liderança de TI, isso permite dimensionar as alterações e reservar tempo para configuração, integração e validação dos relatórios.

Os comparativos de 2026 podem ser usados nesse exercício. Para empresas com exercício coincidente com o ano civil que iniciem a aplicação em 2027, a transição envolve a reapresentação das informações do ano anterior. Trabalhar com esses dados permite conferir o tratamento dos valores e observar como a nova DRE se relaciona com as informações usadas no planejamento.

Preparar essa comparação agora reduz o risco de cortar recursos por causa de um excesso de gasto que não ocorreu ou contar com uma economia que apenas mudou de linha no relatório.

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