Um levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), com dados do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), mostrou que os afastamentos por transtornos mentais cresceram 79% entre 2023 e 2025. No mesmo período, os casos de burnout praticamente triplicaram no Brasil, saltando de 1,7 mil para 6,9 mil ocorrências mapeadas. Os números mostram que o adoecimento mental já é um problema concreto no mundo do trabalho. E, ao mesmo tempo em que esse cenário se agrava, a inteligência artificial passa a ocupar cada vez mais espaço na rotina das empresas.

A tecnologia promete fazer mais em menos tempo, automatizar tarefas, reduzir esforços e aumentar a produtividade. Mas essa transformação também exige um olhar atento para o que acontece com as pessoas quando a busca por eficiência passa a ser o principal parâmetro para organizar o trabalho.

A questão não é tratar a inteligência artificial como vilã ou estabelecer uma relação automática entre tecnologia e adoecimento. A IA pode, de fato, reduzir tarefas repetitivas, apoiar profissionais e liberar tempo para atividades mais estratégicas. O problema surge quando a tecnologia é utilizada apenas para acelerar entregas, aumentar o volume de trabalho ou ampliar o controle sobre os trabalhadores, sem que as empresas revejam as condições em que esse trabalho acontece.

Isso porque a presença ostensiva da IA amplia os desafios na gestão ocupacional, com destaque para a vigilância excessiva, a perda de autonomia do indivíduo em ecossistemas digitalizados e a coleta intensiva de dados sem a devida transparência.

Essa discussão ganha ainda mais importância diante das mudanças no modo de trabalhar. O ambiente corporativo já vinha passando por transformações relacionadas ao trabalho remoto, híbrido e presencial. Agora, com a incorporação de ferramentas de inteligência artificial, também muda a maneira como os profissionais se relacionam entre si ao promover um trabalho mais individualizado.

O próprio Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) reconhece o isolamento como um dos fatores de risco psicossocial estrutural, que abrange tanto a estrutura organizacional quanto o desenho do trabalho e as práticas de gestão relacionadas à organização. E esse risco pode ganhar novas formas quando pequenas interações do cotidiano são substituídas por ferramentas automatizadas.

Uma conversa rápida com um colega, uma troca de ideias antes de uma reunião ou até aquele momento em que alguém pede ajuda para resolver um problema fazem parte da experiência de trabalho. São interações que ajudam a criar vínculos, compartilhar conhecimento e construir uma sensação de pertencimento. Quando tudo passa a ser resolvido individualmente com uma ferramenta de IA, podemos ganhar velocidade, mas também perder espaços importantes de convivência.

Alguns dados ajudam a dimensionar essa mudança. Levantamentos recentes da Workday, realizados com funcionários de grandes empresas de diversos setores em todo o mundo, mostram que 37% dos trabalhadores preferem realizar sessões de brainstorming com ferramentas de inteligência artificial a interagir com colegas humanos por medo de julgamentos, e 44% escolhem frequentemente a IA pela rapidez e pelo fato de ela não questionar suas ideias, o que reflete a tendência da IA bajuladora com seu comportamento de concordar com o usuário e elogiar suas ideias, em vez de contrapor, questionar ou mesmo construir hipóteses.

O fenômeno merece atenção não porque conversar com uma IA seja necessariamente negativo, mas porque revela uma mudança na forma como pensamos, trabalhamos e interagimos dentro das organizações.

A questão também passa pela maneira como as empresas estão definindo suas prioridades. Uma pesquisa da Universidade Duke em parceria com os bancos da Reserva Federal de Richmond e Atlanta, conduzida com mais de 700 executivos, confirmou que o aumento de produtividade é o principal vetor dos investimentos em IA. Mas produtividade não pode ser medida apenas pelo quanto uma pessoa consegue entregar em determinado período. Também precisamos perguntar em que condições essa entrega acontece.

Criar uma política interna dizendo o que pode ou não ser feito com uma ferramenta de inteligência artificial é importante, mas não suficiente. É preciso preparar lideranças para compreender como essas tecnologias alteram as relações de trabalho e quais riscos podem surgir dessa mudança.

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No contexto do Setembro Amarelo, essa discussão ganha um significado ainda maior. A saúde mental não pode ser tratada apenas por meio de campanhas, palestras ou ações pontuais enquanto a própria organização do trabalho continua produzindo sobrecarga, isolamento ou pressão excessiva. O mesmo vale para a adoção de novas tecnologias. A escolha por uma ferramenta precisa considerar os impactos que haverá sobre as pessoas e sobre a forma como o trabalho será realizado.

Antes e depois da implementação de uma tecnologia, as empresas precisam observar se houve aumento da carga de trabalho, redução da autonomia, intensificação do monitoramento, perda de interação entre equipes ou criação de novas formas de pressão. Essa análise deve fazer parte da gestão dos riscos psicossociais e das estratégias de saúde e segurança do trabalho.

A atualização da NR-01 reforça justamente a necessidade de que as organizações olhem para os fatores psicossociais presentes na organização do trabalho. A tecnologia não pode ser analisada separadamente desse contexto. Quando a forma de trabalhar muda, também precisa ser alterado o modo como as pessoas se relacionam com o trabalho. Se a tecnologia libera tempo, esse ganho precisa também ser convertido em melhores condições de trabalho, o que envolve mais autonomia, aprendizado, criatividade e relações humanas de qualidade.

O desafio, portanto, não será escolher entre tecnologia ou pessoas. Será aprender a combinar as duas coisas sem transformar a busca por produtividade em uma nova fonte de adoecimento. A transformação digital precisa ir além do ganho de produtividade e considerar o ambiente de trabalho que está sendo construído e os impactos dessa mudança sobre as pessoas. Afinal, uma mudança tecnológica só será verdadeiramente sustentável quando aumentar a eficiência sem comprometer quem faz o trabalho acontecer.

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