Em 2022, o Brasil somava 14,4 milhões de pessoas com deficiência (PCDs). Os dados são do último informativo sobre PCDs, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na última sexta-feira (18). O levantamento inclui pessoas com dificuldades para enxergar, caminhar, pegar pequenos objetos, ouvir e com deficiências associadas a funções mentais. O número representa aproximadamente 7% da população brasileira daquele ano.
Ainda assim, segurança, empregabilidade e sociabilidade são desafios para estas pessoas, com apenas 29% delas possuindo uma ocupação e sua taxa de analfabetismo chegando a 12% (vs. 1% em pessoas sem deficiência). Os valores não se devem apenas aos quadros de deficiência em si, mas à falta de ferramentas que ajudem na adaptação e inserção delas no mundo. Neste sentido, a tecnologia tem se mostrado aliada da inclusão.
Em agosto deste ano, por exemplo, a Fundação Unimed, em parceria com a startup WorkAI, apresentou a primeira fase do projeto ExtensIA, desenvolvido para ampliar a autonomia profissional de pessoas com limitações motoras severas por meio de inteligência artificial (IA), rastreamento ocular e avatares digitais. A proposta envolve a criação de um avatar virtual, pelo qual os usuários poderiam se comunicar, dar palestras e até atender clientes, independentemente da profissão.
A ideia surgiu a partir da própria modelo-teste do piloto, a psiquiatra Maria Inês Quintana. Diagnosticada com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) no final de 2023, a coordenadora do curso de pós-graduação em Saúde Mental da Faculdade Unimed, teve sua rotina transformada desde então, perdendo completamente os movimentos de todos os seus membros, incluindo os faciais. A mudança fez com que a pesquisadora passasse a utilizar tecnologias assistivas baseadas em rastreamento ocular para manter a comunicação e a testar o uso de IA para seguir trabalhando.
Foi quando recebeu a proposta de um amigo e colega da área para transformar suas experiências em um projeto de pesquisa. “Quando a Maria me contou que estava fazendo estes experimentos, logo conectei com o que a WorkAI faz e pensei que poderíamos criar para ela um sistema menos caseiro, e que pudesse, eventualmente, ser escalado para outras pessoas”, conta o professor Dr. Fábio Gastal, psiquiatra e diretor acadêmico da Faculdade Unimed.
Para atender à Maria Inês, o ExtensIA foi estruturado em três frentes. A primeira delas, apresentada em 2026, é um avatar digital capaz de reproduzir aulas e palestras em diferentes idiomas, além de um sistema multiagente voltado ao suporte acadêmico e educacional. Para construí-lo, a WorkAI contou uma base de áudios e imagens antigas da pesquisadora para criar uma espécie de clone virtual, que se comunicasse com mais facilidade.
Além disso, a startup criou um banco de dados com antigas pesquisas da coordenadora e uma nova interface na qual ela pudesse criar palestras e aulas por meio de diferentes telas ao invés de digitar letra a letra em seu teclado virtual. “Diferente de um processo normal de desenvolvimento, fomos testando e ajustando conforme ela nos indicava o que seria melhor. Foi quando descobrimos que as letras precisavam ser maiores e a interface por tela fazia mais sentido”, comenta Eduardo Barros, CEO da WorkAI.
Desde a entrega da primeira etapa, a iniciativa avança em uma segunda frente: o desenvolvimento de um agente clínico treinado a partir do acervo intelectual e científico da psiquiatra. A proposta é ampliar o alcance do conhecimento de Maria Inês, oferecendo suporte especializado a profissionais de saúde no diagnóstico e manejo do transtorno de personalidade borderline.
Nesta fase, um dos principais desafios técnicos está em garantir respostas rápidas e sincronizadas do avatar. A previsão é que o projeto-piloto seja concluído em 2027. Até lá, a iniciativa deverá receber cerca de R$ 5 milhões em investimentos.
Escala e acessibilidade
De acordo com Gastal, a ideia é que a tecnologia desenvolvida para Inês possa ser envelopada e chegar ao SUS e à Associação Brasileira de Esclerose Lateral Amiotrófica (ABrELA), mas o projeto ainda encontra dificuldades em questão de custo. “O valor maior não está na nossa hora trabalhada, mas na hospedagem e uso dessa tecnologia. Por isso, depois que consolidarmos o pacote tecnológico, precisaremos justá-lo para que se torne acessível. Hoje, se não fosse pelo projeto, nem a própria Inês poderia custeá-lo como pessoa física”.
O problema enfrentado pelo ExtensIA já é conhecido para aqueles que integram o mundo das tecnologias assistivas, principalmente quando se trata de hardware. Atualmente, o uso de tecnologias como Tobii Dynavox, por exemplo, que desenvolve computadores portáteis, aplicativos e aparelhos geradores de fala pode custar entre R$ 15 mil a R$ 60 mil, reduzindo o número de pessoas que têm acesso à tecnologia e, portanto, diminuindo o acesso à comunicação de PCDs com o mundo exterior.
E foi a prerrogativa do custo que exclui que motivou a criação da Iris Flow, startup de tecnologia criada por três alunos do ensino médio da FECAP. O projeto, criado por Gabriel Almeida Santos Zambe, Giulia Calioni e Marcus Vinícius Farias, possui premissas parecidas com a ExtensIA, ao utilizar IA para permitir que a voz dos pacientes possa ser reproduzida em seu timbre original e utilizando rastreamento ocular para acessar uma interface de blocos de conhecimento personalizadas pelo paciente. O programa, no entanto, trouxe a tecnologia para dentro de um aplicativo, permitindo que esta seja utilizada a partir de qualquer webcam, inclusive de smartphones. “Nossa ideia é conseguir baratear o custo dessa tecnologia e tornar ela mais acessível, principalmente para quem tem ELA”, indica Zambe.
Para Filipe di Pace, neurologista especialista em Doenças Neuromusculares, assistente do grupo de Doenças Neuromusculares do Hospital das Clínicas da USP e mentor do projeto, a iniciativa promete trazer não só mais acesso aos pacientes, como uma melhora na saúde mental dos mesmos. Ao longo dos últimos anos, o especialista afirma ter encontrado uma diferença significativa no estado emocional daqueles que conseguiam voltar a se comunicar.
“Sabemos que em algum momento da evolução da doença, a parte da comunicação será uma questão. E aqueles que não conseguem se comunicar, eles mudam, enfrentam graus mais profundos de depressão. Existe uma clara virada de chave quando o paciente consegue adquirir algum dispositivo de comunicação efetivo”, explica.
Filipe se lembra, inclusive, de quando uma de suas pacientes conseguiu uma doação do Tobii e pôde voltar a trocar mensagens com a família. A diferença em seu estado de saúde fez com que ela escrevesse uma carta relatando o ocorrido. “Antes, eu não tinha vida social, agora é só alegria, posso voltar a interagir com meus netos”, escreveu.

Imagem: divulgação
Ainda em fase beta, o Iris Flow já começou a ser testado com alguns pacientes de ELA. Após a validação do aplicativo, os jovens desejam avançar ainda mais uma etapa e criar um assistente virtual que permita que o trabalho dos usuários flua de forma mais fluída. “Já estamos bem avançados na acurácia da nossa solução, mas nossa pesquisa de mercado mostrou que quando os usuários puderem otimizar suas tarefas e de forma rápida, sem digitar letra por letra, vai facilitar muito vida dele”, assinala Giulia.
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Uma chavinha da segurança
Para além de possibilitar uma volta ao trabalho, dispositivos inclusivos permitem também uma segurança maior para PCDs. De acordo com o Atlas da Violência 2025, em 2023 mais de 20 mil casos de violência contra esta parte da população foram registrados no Brasil.
Como pai de uma criança autista não-verbal, Eduardo Guilhon, CTO da h.ai afirma que esta é uma de suas maiores preocupações. Ocupando a cadeira de especialista de tecnologia, o executivo está sempre em busca de inovações na área.
Soluções como relógios com funções de GPS e gravação, e cães-robôs, estão entre os mais buscados pelo executivo. “Estes dispositivos permitem que nós possamos acompanhar melhor o que está acontecendo. Porque, as vezes, a criança nem entende que sofreu uma violência”, afirma.
Além disso, Guilhon acredita que dispositivos utilizáveis poderiam ser fonte de informações importantes que integram o emocional ao biológico, como indicadores de frequência cardíaca e pressão que podem antever uma crise, por exemplo, ou até informar possíveis quedas.
O executivo vê também o uso de tecnologia de realidade virtual (RV) como forma de dar previsibilidade aos portadores da síndrome. “Em terapias com pessoas autistas, você conta para elas por meio de imagens, o que acontecerá na vida delas, para que, quando aquilo acontecer, elas saibam como se comportar. Nesse sentido, a RV pode ajudar muito”, declara.
Pace concorda. Para ele, no futuro, o uso de realidade virtual será direcionado não só para terapias, mas também para a recreação, integrando ainda mais portadores de deficiência ao mundo. “Principalmente em pacientes que perderam algumas experiências, será possível revisitar lugares, viver algumas experiências novamente. É um campo bem interessante para se trabalhar”, diz.
Quando o entretenimento e a inclusão se unem
Independentemente da realidade virtual, a tecnologia já é utilizada como forma de integração social há algum tempo. Fabrício Ferreira, por exemplo, tinha três anos quando ganhou seu primeiro videogame, um presente do pai que desejava proporcionar ao filho uma atividade divertida, mesmo que dentro de casa. Nascido com Atrofia Muscular Espinhal (AME) tipo 2, uma doença degenerativa que causa fraqueza e perda de massa muscular, o jovem já possuía dificuldades de locomoção e precisou atravessar determinados preconceitos para se inserir socialmente. Por sorte, os games foram uma porta de entrada para tal.
“Eu não era uma criança de ficar brincando na rua, e mesmo quando saía para tentar brincar, os outros se afastavam. Na época, eu não entendia o porquê, não sabia que as pessoas me enxergavam diferente. Mas quando comecei a jogar, percebi que os games eram um assunto em comum com outras crianças e fui me inserindo nas conversas. Foi uma virada de chave para começarem a me incluir”, diz.
O hobbie seguiu na vida de Ferreira até se tornar trabalho. Atualmente, ele atua como influenciador de games, em parceria com marcas como Xbox, Ubisoft, Logitech e Lenovo, além de ser membro fundador da Ablegamers Brasil, primeira ONG voltada para pessoas com deficiência (PCDs) em games do País. O intuito da instituição é promover a inclusão de PCDs por meio do videogame.
No País desde 2017, a organização trabalha de três formas: criando e doando controles adaptados, treinando desenvolvedores para construírem jogos acessíveis e, por fim, conscientizando o público geral por meio de eventos e lives. Desta forma, segundo Christian Bernauer, atual diretor-presidente da organização, é possível apoiar tanto na acessibilidade dos hardwares quanto dos softwares.
“O videogame é uma ferramenta de socialização. Não só por causa dos jogos online, mas também pelas conversas, comunidades e eventos que ele gera. Atuando desta forma conseguimos ajudar PCDs a chegarem e ficarem nestes ambientes”, explica.
Desde o começo do ano, a organização já atendeu cerca de 70 pessoas, mas desde o início de sua atuação foram mais de 150 controles doados. Ao completar dez anos de atuação no Brasil, a ONG lançará os resultados de sua primeira pesquisa de noção de satisfação de controles, criada para metrificar o impacto da entrega na vida dos atendidos.
“No final do ano passado nos unimos ao psicólogo Euzébio Lucena, que também tem deficiência, para montar a pesquisa com base em protocolos da Organização Mundial de Saúde, que medem aspectos relacionados à autonomia, felicidade e relacionamento com outras. A pessoa que recebe a doação responde à pesquisa 30 e 60 dias após ter o controle”, conta Bernauer
O resultado, no entanto, já se mede em histórias como a de Ferreira, que hoje não só vive do videogame, como também experienciou coisas que, em algum momento, pareciam impossíveis. “Os games me proporcionaram desde amizades e trabalho até a minha primeira viagem de avião. Inclusive, eu tinha o sonho de ser um piloto de corrida reconhecido, e hoje sou, mas pelo Forza Horizon”, conta. “O maior ponto de inclusão é quando a deficiência vira uma característica da pessoa, mas não mais a define”, finaliza Bernauer.
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