A divisão de Internet das Coisas é a que mais cresce dentro da Qualcomm na América Latina. De acordo com Luiz Tonisi, presidente da companhia na região, a unidade de negócios de IoT registra um faturamento que dobra ano a ano.
Durante o Movecomm 2026, evento organizado por Mobile Time e Teletime na última quinta-feira, 5, o executivo explicou que esse crescimento é impulsionado principalmente pela demanda por:
- Sensores;
- Soluções de rastreamento;
- Câmeras com visão computacional;
- Maquininhas de cartão (POS) que passam a ser inteligentes com mais software embarcado.
Em automóveis, Tonisi explicou que a América Latina tem potencial para expandir a oferta de tecnologias como conectividade e cockpit digital, devido ao grande volume de veículos antigos que ainda não contam com sistemas de conectividade embarcados.
Também vê avanço em frotas leves e pesadas de caminhões e ônibus, assim como novos tipos de veículos, como drones, equipamentos de defesa e eVTOLs, sendo que este último tratado com alta prioridade pela fornecedora. Reforça que a visão de sua companhia é atuar como uma empresa de IA híbrida, ao levar o processamento de inteligência artificial de ponta a ponta.
Vale lembrar que, em seu relatório financeiro do terceiro trimestre de 2026, a Qualcomm apresentou bons resultados com IoT e automóveis em um período abalado pela falta de memórias e recuo nas vendas dos celulares.
Data centers e Qualcomm LatAm
Sobre a mais recente aposta da empresa, os data centers, Tonisi explicou que a estratégia para a América Latina é atuar em um modelo de parceria com operadores de centros de dados locais. Ou seja, a Qualcomm quer ajudar os parceiros a construírem e operarem sua infraestrutura localmente. A companhia pretende atuar em inferência, ou seja, quando o consumidor utiliza uma aplicação já treinada.
Lançada neste ano e batizada como Dragonfly, a divisão de data centers atua com chips, CPUs e racks próprios customizados para grandes hyperscalers com baixo consumo de energia para entregar um custo total de propriedade (TCO) atraente e garantir o menor “custo por token por watt por dólar”, como explicou Tonisi. Os primeiros clientes dessas soluções são Meta e Amazon.
Lembrou também que a Qualcomm adquiriu recentemente a Modula para criar uma camada de software aberta para permitir que desenvolvedores façam softwares de IA em qualquer plataforma de hardware, inclusive de rivais como NVIDIA, Intel e AMD.
Assim como faz em outros mercados, a Qualcomm mira criar polos a partir dos data centers de parceiros, de modo que o centro de dados funcione como um sandbox ou polo local de testes para empresas desenvolverem e escalarem aplicações de IA.
Data centers no Brasil
Sobre o mercado brasileiro, Maximiliano Martinhão, diretor de relações governamentais da empresa, disse que a proposta de obrigações de criação de nós de data centers no possível leilão do 6 GHz da Anatel é bastante interessante.
Contudo, ponderou que a reguladora precisará equacionar os argumentos dos agentes de mercados, como o impacto competitivo ao impor a obrigação de investimento em centro de dados em áreas onde alguns players já colocaram capital próprio.
Mas Martinhão acredita que essa e outras questões estão sendo bem conduzidas pela agência, em seus processos de audiência pública, como a etapa recente em São Paulo e a próxima em Fortaleza/CE para ouvir a opinião do setor de data centers (e não apenas do setor de telecom) para ajustar as exigências.
Satélites

Maximiliano Martinhão, diretor sênior de relações governamentais, Qualcomm (crédito: Galeria Marcos Mesquita/ Mobile Time/ Teletime)
Outra iniciativa recém-lançada pela Qualcomm, o desenvolvimento de ERBs para a Starlink atuar com D2D nos Estados Unidos, Tonisi afirmou que este é um modelo inovador no setor, no qual a empresa de semicondutores fornece a camada a baseband (L1) e a operadora de satélite fará as camadas de software (L2 e Le) para operar em frequências terrestres que adquiriu.
Porém, embora a parceira com a Starlink seja vista como um passo importante, o presidente da Qualcomm na América Latina afirmou que sua empresa tem interesse em avançar com outras operadoras, ao apresentar esse primeiro caso como um chamado para o setor adotar o novo modelo de rede. Ele entende como uma arquitetura evolutiva, pois cada nó de rede poderá se tornar um nó de IA com capacidade de processar tokens e servir de preparação para o 6G.
Celulares
Embora celulares sejam a parte mais relevante dos ganhos da Qualcomm, Tonisi explicou que a indústria sofre com uma forte pressão puxada pelos preços de memória, decorrente da demanda vinda dos data centers de IA.
Tonisi chama o atual momento de “pandemia da memória” e descarta um alívio até 2027. Como principais impactos cita:
- O fim da ideia do celular 5G de US$ 200;
- Impacto direto nos custos de fabricação;
- Pressão para a continuidade de celulares de entrada até intermediário, pois o custo total do aparelho saltou 50% com o aumento das memórias;
- Handsets da gama de preço intermediária para alta e premium tem mais resiliência e capacidade de manter as vendas.
Uma alternativa para as OEMs seria a utilização de algoritmos ou migrar parte do processamento do device para a nuvem, mas essa mudança esbarra nos custos cobrados em dólar e a alta desvalorização cambial. Outra opção é a criação de políticas públicas com os governos para mitigar esse impacto na sociedade.
Futuro
Em paralelo à crise, o presidente local da Qualcomm explicou que a companhia vem procurando diversificar sua receita, como visto nos crescimentos de IoT e automóveis e no lançamento da divisão de data centers. Esse plano envolve uma meta clara de receita alcançado três partes iguais:
- Um terço da receita vinda do mobile;
- Um terço, de data centers;
- Um terço, de automotivo, IoT e robótica.

