Quase 42% das empresas brasileiras não têm políticas de governança para agentes de inteligência artificial (IA) e 55% operam sem uma camada centralizada de controle sobre o uso da tecnologia. Os dados são do Panorama da IA no Brasil 2026, levantamento da Zappts, empresa de tecnologia especializada em transformação agêntica para grandes corporações.

A pesquisa ouviu 167 executivos de tecnologia, inovação e negócios em cargos de liderança. O retrato que ela produz é o de um mercado em que a maior parte das organizações que já colocou agentes em operação não construiu a base normativa nem a infraestrutura técnica necessárias para rastrear o que esses agentes estão fazendo.

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Governança fica para trás

Os dados detalhados mostram que 41,9% das organizações não possuem políticas, frameworks ou regras estabelecidas para governança, segurança e ética em agentes de IA. Outras 29,3% declaram ter iniciativas em desenvolvimento e apenas 26,9% se dizem totalmente estruturadas.

A série histórica do estudo indica avanço, mas em ritmo insuficiente. Em 2024, 76,5% do mercado operava sem qualquer política formal. O percentual caiu para 51,6% em 2025 e chegou a 41,9% em 2026. Na outra ponta, o grupo com frameworks consolidados saiu de 17,7% para 26,9% no mesmo período.

O problema está no ritmo comparado. Enquanto a governança avançou cerca de dez pontos percentuais em um ano, a adoção de agentes se disseminou por toda a estrutura das empresas. O levantamento mostra que 59,9% dos respondentes que lidam com IA ocupam cargos fora do C-Level e das diretorias de tecnologia, o que indica que o uso já ultrapassou a alta liderança e as áreas técnicas.

Essa lacuna normativa produz um fenômeno conhecido como Shadow AI; o uso de ferramentas de IA por colaboradores sem conhecimento, autorização ou supervisão formal da empresa.

O diretor-presidente da Zappts, Pablo Augusto, diz que o principal risco não está na velocidade de adoção em si. “O maior risco hoje não é a empresa adotar IA rápido demais. É a adoção avançar mais rápido do que a capacidade da organização de governá-la, e isso já estamos vendo acontecer com certa frequência em grandes organizações”, afirma. Para Augusto, a pergunta que a liderança precisa responder mudou; “A questão para a liderança deixa de ser ‘como impedir o uso?’ e passa a ser ‘como permitir que ele aconteça dentro de limites seguros, auditáveis e economicamente sustentáveis?’. Governança de IA precisa sair do documento e entrar no modelo de gestão da empresa.”

Ausência de AI Gateway

Incluída pela primeira vez nesta edição do estudo, a pergunta sobre infraestrutura de controle revela outra lacuna. Questionadas sobre o uso de uma solução de AI Gateway, 27,9% das empresas responderam não possuir e não estar procurando; outras 27,3% declararam não saber o que é nem para que serve. Somados, 55,2% do mercado opera sem essa camada.

Um AI Gateway funciona como ponto único de passagem entre os agentes da empresa e os modelos de linguagem que eles consultam. É nessa infraestrutura que se bloqueia conteúdo sensível, se registra cada chamada para auditoria posterior, se remove dado pessoal antes do envio a interfaces de programação de terceiros e se mede o consumo por agente.

O diretor de tecnologia da Zappts, Rodrigo Bornholdt, explica que a ausência dessa camada transforma a governança em documento sem efeito prático. “Governança nunca foi apenas política, sempre envolveu processo, controle e responsabilidade definida. O que muda com agentes autônomos é que parte desse controle precisa ser executável em tempo de operação”, diz. “A empresa precisa conseguir definir o que cada agente pode acessar, quais ações pode executar, quais dados pode compartilhar e manter rastreabilidade dessas decisões. Quanto maior a autonomia, maior precisa ser a capacidade de controle e observabilidade.”

Revisão humana e custo de escala

Na ausência de estruturas técnicas de controle, as empresas recorreram à revisão manual. O estudo mostra que 36,5% das organizações exigem que um profissional revise e aprove 100% das ações geradas pelos agentes. Outras 32,9% permitem execução autônoma apenas em tarefas rotineiras. Apenas 3,6% autorizam um agente a concluir um processo crítico de ponta a ponta.

O arranjo tem dois custos. O primeiro é de escala; 32,1% das empresas declaram ter agentes autônomos em teste, mas só 13,8% chegaram ao uso regular. O segundo é de alcance; a revisão humana não substitui controles técnicos nem impede que dado sensível já tenha sido enviado a um modelo externo antes da validação.

A ausência de controle por agente também compromete a mensuração de resultados. Sem separar o custo de infraestrutura do ganho de eficiência gerado por cada projeto, 55,1% das organizações não têm mapeamento estruturado de retorno sobre investimento (ROI) em IA; o percentual quase dobrou frente aos 30,6% registrados em 2025.

Setores mais e menos preparados

O recorte setorial mostra concentração de preparo em duas verticais. Em finanças e seguros, 45,4% das organizações se declaram totalmente estruturadas em governança e 40,9% já têm um AI Gateway implementado. Em tecnologia da informação (TI), os percentuais são de 42,6% e 27,7%, com outras 14,9% em busca da solução. Somando empresas com políticas em desenvolvimento, a cobertura chega a cerca de 77% no setor financeiro e 76% em TI.

Fora dessas verticais, o quadro se inverte. A ausência de políticas de governança atinge 72,7% das empresas de educação, 66,7% do governo, 61,5% da saúde, 60% do agronegócio e 57,1% da indústria. No campo da infraestrutura de controle, 66,7% das organizações de energia e 46,2% da saúde declaram não saber o que é um AI Gateway. No varejo, 36,4% não sabem e outros 36,4% não estão procurando.

Entre as necessidades técnicas apontadas para o futuro próximo, governança centralizada e combate ao Shadow AI lideram com 21,1% das menções, seguidas por cibersegurança unificada e guardrails (15,5%) e otimização de custos com agentes (10,6%). Outros 21,5% das empresas respondem que ainda não chegaram a essa fase e seguem focados em colocar o primeiro agente em produção.

Para Augusto, a próxima etapa da adoção não está no volume de agentes, mas na estrutura que os sustenta. “Será construir a capacidade de dar autonomia a esses agentes sem perder controle, segurança, rastreabilidade e apresentando claramente o valor gerado para o negócio”, diz o executivo.

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