Adam McCue/The New York Times

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No início deste mês, uma startup de São Francisco publicou uma oferta de emprego inusitada: procurava pessoas para passear com cães-robô. Não era necessária experiência. Obviamente.

Passear com um cão-robô pagava praticamente a mesma remuneração por hora oferecida para passear com um cão de verdade, mas o robô exigia muito mais tempo caminhando pelas calçadas da cidade para cumprir sua função. Segundo o anúncio, eram necessárias de quatro a seis horas de circulação.

Pelo visto, os robôs ainda não estão tornando nossas vidas mais fáceis.

Pelo lado positivo, não era preciso recolher os dejetos do robô nem fingir que não viu o que ele deixou no jardim de alguém.

Pelo lado negativo, os robôs podiam ser tão teimosos quanto seus equivalentes vivos. Assim como um cachorro comum pode simplesmente sentar no meio de uma rua movimentada e se recusar a continuar, os cães-robô também podiam desistir da caminhada porque seus equipamentos superaqueceram. Nesses casos, os passeadores precisavam carregar os quadrúpedes mecânicos de volta ao escritório da startup. Os candidatos, advertia o anúncio, deveriam estar confortáveis em “manusear com segurança equipamentos de cerca de 15 quilos”.

O anúncio, que desde então foi removido, oferecia US$ 20 (cerca de R$ 100) por hora e foi publicado no grupo do Facebook “Bay Area Jobs” pela startup Dimensional, sediada, apropriadamente, em um bairro de São Francisco chamado Dogpatch. A vaga gerou apenas alguns comentários, nenhum deles questionando sua estranheza.

“Meu filho está interessado”, escreveu uma mãe. “Pode começar imediatamente.” (Ela contou depois que ele acabou não seguindo adiante com a candidatura.)

A Dimensional está desenvolvendo um sistema operacional de código aberto para robôs, segundo seu fundador, Stash Pomichter. Aos 26 anos, ele quer integrar agentes de inteligência artificial a robôs para que consumidores possam ordenar que realizem tarefas no mundo real, da mesma forma que as pessoas já dão comandos a serviços como o Muse, da Meta, para executar atividades online.

Pomichter acredita firmemente que robôs deveriam ser capazes de carregar caixas pesadas e transportar objetos.

“É honestamente bárbaro que seres humanos ainda estejam realizando essas tarefas físicas”, disse em entrevista.

Mas antes que um cão-robô possa nos poupar do trabalho e do constrangimento de carregar compras, a Dimensional precisa aprimorar a capacidade das máquinas de navegar de forma autônoma em ambientes urbanos. Daí a necessidade dos passeadores de cães-robô, que ajudam a criar o que Pomichter chama de “verdade de campo”, controlando e guiando os robôs enquanto câmeras e sensores registram todo o trajeto.

Um morador que viu um humano passeando com uma dessas máquinas de quatro patas, e enviou um vídeo ao The New York Times, declarou que São Francisco já era uma cidade estranha e está ficando ainda mais estranha.

A Dimensional não fabrica hardware. Segundo Pomichter, a empresa comprou mais de 100 cães-robô e 50 robôs humanoides de fabricantes dos Estados Unidos, China e Alemanha, e desenvolve sistemas operacionais capazes de se integrar a agentes de IA para tornar as máquinas mais independentes. Os “cães” de US$ 2 mil utilizados nos testes deste mês foram produzidos pela chinesa Unitree e podem ser controlados por controle remoto ou aplicativo móvel.

A empresa comparou o desempenho dos cães-robô sob controle humano com o desempenho quando operados por agentes de IA e concluiu que os sistemas autônomos ainda deixam a desejar.

“O que determinamos com nosso experimento de passear com cães é que os agentes ainda são muito ruins em controlar hardware”, afirmou Pomichter. “Os humanos continuam sendo necessários no processo.”

O objetivo é permitir que robôs trabalhem em fábricas, centros de dados, canteiros de obras e como seguranças. Uma versão disso já está em operação: um cão-robô patrulha um complexo residencial em Atlanta enquanto um operador humano, baseado nas Filipinas, acompanha tudo remotamente. Na prática, o robô funciona como uma câmera de segurança móvel para um observador humano.

Pomichter afirmou que programou um cão-robô para patrulhar o escritório da Dimensional durante a noite. Segundo ele, a instrução dada à máquina foi: “Você é o melhor cão de guarda do mundo”. O robô deve seguir qualquer pessoa que entre no prédio após a meia-noite. Caso detecte alguém, envia uma mensagem de texto para que ele verifique as câmeras e determine se se trata de um funcionário trabalhando até tarde ou de um invasor.

Nem todos se divertiram com os robôs circulando por Dogpatch. A Dimensional busca dar corpos físicos aos agentes de IA justamente em um momento em que cresce a preocupação de que sistemas mais avançados possam representar riscos à humanidade.

A estética de “O Exterminador do Futuro” alarmou um homem que foi até o escritório da empresa e depois enviou mensagens de texto ameaçadoras a um funcionário da startup, afirmando que os cães-robô seriam usados como armas.

“Divirtam-se ajudando a massacrar pessoas aleatórias, seus canalhas”, escreveu ele em uma das mensagens vistas pelo Times. A Dimensional denunciou o caso à polícia.

“Talvez tenhamos de lidar com mais situações assim”, disse Pomichter. “Nesse caso, talvez precisemos de mais cães de patrulha.”

c.2026 The New York Times Company

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