Lula em ato de campanha em Florianópolis (Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação)

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Do açougue onde trabalha ⁠próximo ao centro histórico de São Paulo, Kleyton Zacarioto diz que o movimento de clientes vem diminuindo há anos devido ⁠ao longo período de alta dos preços dos alimentos.

O aperto prolongado sobre os orçamentos das famílias fez o trabalhador de 39 anos rejeitar a tentativa do presidente ‌Luiz Inácio Lula da Silva de conquistar um quarto mandato na eleição que acontecerá no próximo mês.

Zacarioto diz que Lula é o único candidato em quem sabe que não votará, embora reconheça que o presidente “fez coisas boas” quando governou o país nos anos 2000.

“O cara que ganha um salário mínimo não tem como crescer na vida”, afirmou.

Lula, de 80 ‌anos, tem pedido paciência aos eleitores, ao mesmo tempo em que destaca o desemprego em nível historicamente baixo, a queda da desigualdade e a desaceleração da inflação nos últimos meses para sustentar que a economia está melhor do que parece.

Mas a frustração de Zacarioto reflete um desafio enfrentado por governantes ao redor do mundo desde a pandemia: convencer os eleitores de que melhores indicadores econômicos importam, mesmo quando muitos ainda se sentem pressionados por anos de preços mais altos.

“Eu sei que ainda não está bom, mas eu vou garantir: a inflação seguirá sob controle”, prometeu Lula em uma peça recente de campanha, afirmando saber o que é não conseguir fechar as contas no fim do mês.

Há meses, as pesquisas mostram uma disputa acirrada entre Lula e o senador ⁠Flávio Bolsonaro, ‌filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, impedido de concorrer após ser condenado por tentativa de golpe de Estado.

Levantamentos sugerem que a economia é uma das principais razões pelas quais Lula tem dificuldade ⁠para conter o avanço do senador.

Quase metade dos brasileiros afirma que a economia piorou no último ano, segundo pesquisa Quaest divulgada em setembro, ante apenas 19% que dizem que ela melhorou.

Flávio Bolsonaro transformou em um dos principais eixos de sua campanha a percepção de que os salários já não rendem como antes, frequentemente comparando os preços atuais dos supermercados aos do período em que seu pai ocupava a Presidência.

A campanha de Lula reagiu com um site chamado “Mercado da Mentira” para contestar essas afirmações. Também apresentou uma ação ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), acusando a campanha do senador de divulgar informações falsas sobre preços.

“Vibecession” chega ao Brasil

Especialistas afirmam que o debate sobre custo de vida reflete ​um descompasso entre indicadores favoráveis de mercado de trabalho e inflação e a realidade vivida diariamente por muitas famílias.

“Todos os grandes números dizem que este foi um bom governo”, afirmou o analista político Thomas Traumann. “O fato é que as pessoas comuns simplesmente não concordam com isso.”

Traumann traça paralelos com as dificuldades enfrentadas pelo então presidente dos Estados Unidos ​Joe Biden em 2024 para superar a desconexão entre dados macroeconômicos positivos e o sentimento negativo dos consumidores, fenômeno que a comentarista econômica Kyla Scanlon apelidou de “vibecession”, em referência à sensação de recessão ainda que dados econômicos não respaldem este quadro.

“O governo tem resultados para apresentar, mas encontra um eleitor que pergunta quanto desses resultados chegou à sua casa”, disse Felipe Nunes, fundador e CEO da Quaest. “O eleitor avalia a economia pela capacidade de pagar as contas, consumir e realizar seus planos.”

Os preços dos alimentos e o aumento do peso das dívidas ajudam a explicar por que muitas famílias perceberam pouca melhora em seu poder de compra desde a pandemia.

Embora a inflação dos alimentos tenha desacelerado fortemente nos últimos meses, e os ‌preços tenham até recuado entre junho e agosto, anos de aumentos expressivos continuam pressionando os orçamentos domésticos, com os preços ainda ​muito acima dos níveis pré-pandemia.

Ao mesmo tempo, o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas, excluindo financiamentos imobiliários, atingiu o recorde de 26,6% em junho, segundo dados do Banco Central.

Fintechs em rápida expansão oferecem crédito fácil a taxas elevadas, enquanto o boom das apostas online tem absorvido bilhões de reais da renda das famílias, empurrando muitas para situações de dificuldade financeira.

O peso foi agravado pela taxa básica de juros, atualmente ⁠em 13,75%, uma das mais elevadas do mundo em termos reais, que o ​Banco Central começou gradualmente a reduzir enquanto mantém ​vigilância sobre a inflação.

“Olhando os dados de mercado de trabalho, indicadores de pobreza, expansão da classe C, você vê um progresso grande nos últimos anos”, disse Marcelo Neri, economista da FGV. “Mas quando você considera inflação dos alimentos ⁠em anos, incorpora o efeito da taxa de juros e o efeito das bets, você tem ​um empate com muitos gols dos dois lados.”

Eleitores céticos

Lula tem tentado reagir.

A cerca de duas semanas do primeiro turno, anunciou medidas voltadas justamente a aumentar a renda disponível das famílias, incluindo um reajuste de 15% no Bolsa Família, que entrará em vigor antes do segundo turno, no fim de outubro. Na noite de sexta-feira (26), a nove dias do primeiro turno, o presidente também apresentou legislação para proibir cassinos online e ​um novo programa para limpar dívidas dos brasileiros.

As pesquisas, porém, sugerem que as iniciativas ainda não estão tendo impacto significativo sobre o humor do eleitorado.

No mercado de São Paulo onde funciona o açougue de Zacarioto, Carlos Alves da Silva trabalha há 15 anos na Barraca do Juca, banca de hortifruti cujas ​paredes são cobertas por cartazes de uma novela dos anos ⁠1990 gravada no local. Ele afirma que o negócio não sobreviverá até 2028 caso Lula seja reeleito.

“Eu não aguento, porque nós fazemos dívida em cima de dívida para pagar o mês que vem”, afirmou Alves, apoiador de Flávio Bolsonaro.

Os dois ⁠principais candidatos tentaram apresentar caminhos para lidar com os custos ainda elevados dos alimentos.

Flávio Bolsonaro defende reduzir o custo por meio de cortes de impostos, melhorias na infraestrutura de transporte, ampliação da capacidade de armazenagem de grãos e aumento da produção doméstica de fertilizantes. Lula aponta para o crescimento da produção agrícola, os estoques públicos de alimentos e a expansão do crédito rural.

Mas essas propostas ainda não parecem ter despertado grande entusiasmo entre muitos brasileiros.

Conceição Melquíades, que visitava o mercado vinda de Manaus e enfrenta dificuldades para acompanhar as altas nas contas de luz e nos preços dos alimentos, disse não ter visto nenhuma ‘proposta real’ sobre o tema.

“Eu ainda não defini um candidato,’ ela afirmou. ‘No final, as coisas não vão andar muito.”

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