A inteligência artificial (IA) deve concentrar os investimentos das áreas de tecnologia em 2027, mas a capacidade das empresas de sustentar essa expansão ainda preocupa seus líderes. Uma pesquisa do IT Forum Inteligência revela que 83% dos CIOs pretendem acelerar os investimentos em IA no próximo ano, enquanto 56% demonstram dúvidas sobre a capacidade da estrutura atual de TI de acompanhar essa transformação.

Os dados fazem parte da pesquisa Tendências de Investimento da TI 2027, apresentada por Louise Ramas, analista de Estudos e Inteligência do IT Forum, durante o IT Forum na Mata, realizado nesta quinta-feira (22), no Distrito Itaqui, na Grande São Paulo. O levantamento reúne respostas de 88 CIOs e analisa as prioridades orçamentárias, os desafios operacionais e as estratégias de investimento para o próximo ano.

O cenário evidencia uma pressão sobre as lideranças de tecnologia, que precisam ampliar o uso da IA sem necessariamente contar com recursos adicionais proporcionais à demanda.

“Temos uma definição muito clara das intenções de investimento e, ao mesmo tempo, preocupações muito grandes em transformar esse investimento em resultado real para o negócio”, afirmou Louise.

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Orçamento cresce, mas inovação disputa recursos

Segundo o levantamento, 68% dos CIOs esperam ampliar o orçamento de TI em 2027, enquanto os outros 32% pretendem manter ou reduzir os recursos disponíveis. Entre os executivos que não preveem crescimento orçamentário, 75% afirmam que, mesmo assim, vão acelerar os investimentos em inteligência artificial.

A expectativa de aumento de orçamento, entretanto, não significa necessariamente uma expansão equivalente da capacidade de inovação. Durante a apresentação, Louise destacou que o crescimento esperado dos recursos é relativamente limitado diante das despesas já existentes nas operações de tecnologia.

“Isso significa que, ainda que a IA seja uma grande potência, ela não está gerando orçamento. Ela segue competindo com o orçamento existente”, explicou.

A composição média do orçamento de TI previsto para 2027 mostra que manutenção e sustentação continuam absorvendo a maior parcela dos recursos, com 26,3%. Essa categoria reúne despesas necessárias para manter os sistemas e a infraestrutura tecnológica em funcionamento, incluindo serviços de nuvem, suporte e manutenção de aplicações já utilizadas pelas empresas.

Na sequência aparecem os investimentos em pessoas, que representam 22,2% do orçamento e abrangem os custos com profissionais de tecnologia, contratação, retenção de talentos e desenvolvimento de competências. A área enfrenta desafios como a escassez de especialistas e a necessidade de preparar equipes para novas demandas tecnológicas.

Já crescimento e inovação respondem por 19,4% dos recursos, parcela destinada ao desenvolvimento de novas soluções, projetos tecnológicos e iniciativas capazes de ampliar a competitividade das organizações, incluindo aplicações de inteligência artificial.

Outros 17,2% são direcionados à otimização e modernização, que envolvem a atualização de sistemas legados, modernização de ERPs, migração de plataformas e melhorias na eficiência da infraestrutura existente. São investimentos necessários para reduzir limitações tecnológicas e preparar as operações para novas aplicações.

Por fim, cibersegurança e compliance concentram 14,9% do orçamento, contemplando medidas de proteção de dados, prevenção de ataques, gestão de riscos e adequação às exigências regulatórias. A expansão da IA também acrescenta desafios a essa frente, diante da necessidade de proteger sistemas cada vez mais integrados e automatizados.

Na avaliação apresentada pelo IT Forum Inteligência, essa distribuição representa um desafio para as empresas que pretendem ampliar o uso de agentes de IA, já que boa parte dos recursos permanece comprometida com a continuidade das operações.

O levantamento também indica que, mesmo quando há crescimento orçamentário, as empresas tendem a ampliar os investimentos em pessoas sem alterar significativamente a parcela destinada à inovação.

IA lidera prioridades para 2027

Entre as categorias avaliadas, IA generativa e agentes se destacam como a principal aposta dos CIOs. Além dos 83% que pretendem acelerar os investimentos, 18% dos respondentes classificaram essa frente como a principal aposta para 2027.

A distância em relação às demais categorias é significativa. Dados e analytics aparecem na segunda posição, com 47% dos executivos planejando acelerar investimentos, seguidos por modernização de legado, com 32%.

A pesquisa também identificou uma possível mudança no direcionamento dos recursos destinados à automação. Enquanto agentes de IA ganham espaço, ferramentas tradicionais de automação robótica de processos (RPA) apresentam a maior intenção de redução de investimentos entre as categorias analisadas, com 10%.

Para Louise, o movimento indica que as empresas começam a reconsiderar a utilização de tecnologias existentes diante das novas possibilidades oferecidas pelos agentes.

“Uma coisa para se observar é que a RPA já tem a maior intenção de diminuição de investimento. Isso quer dizer que os agentes estão entrando na função do RPA”, destaca.

A mudança pode representar uma reorganização das prioridades tecnológicas, especialmente nas empresas que já utilizam automação para executar atividades repetitivas e processos operacionais.

Estrutura de TI preocupa executivos

Apesar da intenção de acelerar investimentos, o levantamento mostra que as organizações ainda enfrentam obstáculos para incorporar a inteligência artificial de maneira mais ampla.

Entre os principais fatores que preocupam os CIOs, 61% apontam o risco de não entregar a velocidade exigida pelas áreas de negócio. Outros 56% mencionam a capacidade da estrutura de TI de responder aos desafios da IA, enquanto 32% temem não acertar as apostas relacionadas à tecnologia.

A pesquisa também revela diferenças entre o interesse por novos casos de uso e a disposição para promover mudanças organizacionais. Enquanto 76% dos CIOs mencionam IA entre os projetos ou desafios de 2027, apenas 6% indicam planos de redesenhar o modelo operacional.

Outros 20% citam espontaneamente agentes de IA, enquanto somente 10% incluem governança entre os projetos previstos.

Essa diferença sugere que parte das empresas ainda concentra seus esforços na implementação de ferramentas, sem necessariamente avançar na revisão das estruturas responsáveis por utilizá-las.

Durante a apresentação, Louise destaca a importância de desenvolver mecanismos de governança e preparar as operações antes de ampliar a adoção de agentes.

“Não adianta colocar a IA nas empresas. Temos que redefinir todo o modelo operacional para aproveitar as oportunidades que essas ferramentas oferecem”, disse, ao apresentar uma reflexão de um dos respondentes da pesquisa.

Três movimentos para os CIOs em 2027

A partir dos resultados, o IT Forum Inteligência identificou três movimentos considerados prioritários para as lideranças de tecnologia no próximo ano, que são liberar orçamento, fortalecer a governança e redesenhar a operação.

O primeiro envolve revisar despesas operacionais, contratos e investimentos de sustentação para abrir espaço a novas iniciativas. O segundo consiste em estabelecer políticas, responsabilidades, métricas de valor e mecanismos de controle antes de ampliar o número de agentes de IA em funcionamento.

Por fim, o redesenho operacional considera mudanças nas responsabilidades das equipes, nos processos e na interação entre profissionais e sistemas autônomos.

“Se não liberarmos o orçamento, não teremos como financiar as iniciativas de inovação. Se não houver governança, quando isso escalar, ficará fora de controle, sem a responsabilização necessária e sem os dados para comprovar o retorno sobre o investimento”, afrimou Louise.

Na avaliação apresentada durante o evento, a capacidade de transformar investimentos em resultados dependerá menos da quantidade de projetos de IA iniciados e mais da preparação das empresas para incorporar a tecnologia às operações.

O desafio para os CIOs será equilibrar a manutenção dos sistemas existentes com a necessidade de financiar novas iniciativas, estabelecer mecanismos de controle e adaptar a estrutura organizacional a um cenário de maior autonomia tecnológica.

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