A sede do Ueno Bank é vista após o presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo, apresentar sua renúncia em meio a um processo de resolução contra a instituição financeira digital Ueno — situação que levou clientes a se reunirem em frente a agências fechadas em busca de acesso aos seus recursos —, em Assunção, Paraguai, 3 de novembro de 2026. REUTERS/Cesar Olmedo

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A crise de um dos principais bancos digitais do Paraguai provocou a renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, e abriu uma nova frente de desgaste para o governo de Santiago Peña.

O Ueno Bank, que tem cerca de 3 milhões de clientes e administra aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, foi colocado sob intervenção após autoridades identificarem problemas graves em suas contas.

O caso ganhou dimensão política por causa das relações entre a instituição financeira e integrantes do governo. Carvallo presidiu o próprio Ueno antes de assumir o Banco Central, em 2023. Peña, por sua vez, manteve participação societária no grupo empresarial controlador do banco até 2025.

A crise também atingiu investidores e correntistas. Clientes encontraram agências fechadas e ficaram temporariamente sem acesso aos recursos, enquanto o Ministério Público abriu uma investigação criminal que resultou na detenção de oito pessoas ligadas à administração da instituição.

O que aconteceu com o Ueno Bank?

A situação financeira do Ueno se deteriorou após ajustes realizados em seus balanços durante um processo de fiscalização.

Segundo o Banco Central do Paraguai, o índice de solvência da instituição, indicador que mede sua capacidade de absorver perdas e cumprir exigências de capital, caiu para menos da metade do mínimo regulatório.

Diante do resultado, a autoridade monetária decidiu, por unanimidade, iniciar em 2 de novembro um procedimento de resolução bancária. A medida busca organizar a destinação dos ativos e passivos, proteger os depositantes e evitar que os problemas se espalhem pelo sistema financeiro.

As suspeitas sobre o Ueno já vinham sendo acompanhadas pelos reguladores. Uma das frentes de apuração envolve possíveis operações de crédito com empresas relacionadas ao Grupo Vázquez, controlador do banco, e o financiamento indireto de transações entre companhias do mesmo conglomerado.

A instituição havia negado irregularidades nas operações questionadas.

A crise atingiu um banco que cresceu rapidamente nos últimos anos. O Ueno tornou-se o maior emissor de cartões de crédito do Paraguai e ampliou sua base para aproximadamente 3 milhões de clientes, em um país com população de pouco mais de 7 milhões de habitantes.

Por que o presidente do Banco Central renunciou?

A renúncia de Carlos Carvallo foi solicitada diretamente por Santiago Peña na terça-feira (3), em meio aos questionamentos sobre a fiscalização da instituição.

O dirigente esteve à frente da antiga Financiera Ueno até 2023, antes de assumir o comando do Banco Central. Essa ligação passou a ser questionada por parlamentares, que cobraram explicações sobre a supervisão do banco durante sua gestão.

Carvallo afirmou que sua saída permitiria ao órgão regulador conduzir os procedimentos sem a pressão das disputas políticas.

Após a renúncia, a economista Liana Caballero, integrante da diretoria do Banco Central, foi escolhida para exercer interinamente a presidência da autoridade monetária.

Como a crise atingiu Santiago Peña?

O presidente paraguaio também enfrenta questionamentos sobre sua relação com o Grupo Vázquez, do qual foi sócio até 2025.

Durante seu governo, os depósitos de instituições públicas no Ueno cresceram significativamente. Entre os recursos mantidos no banco estão investimentos do Instituto de Previdência Social (IPS), responsável pelo pagamento de aposentadorias e por serviços de saúde no país.

Segundo a agência Reuters, o banco administrava cerca de US$ 850 milhões em dinheiro público. Uma parte relevante pertence ao sistema previdenciário.

A concentração desses recursos passou a ser questionada pela oposição, que cobra esclarecimentos sobre os critérios utilizados para escolher a instituição e eventuais conflitos de interesse.

Nesta quarta-feira (4), parlamentares oposicionistas anunciaram a intenção de apresentar pedidos de impeachment contra Peña e o vice-presidente Pedro Alliana. O avanço das iniciativas dependerá de apoio adicional no Congresso, onde o Partido Colorado, do presidente, mantém influência.

Peña afirmou que os responsáveis por eventuais irregularidades deverão responder à Justiça. Também procurou afastar o risco de uma crise bancária generalizada.

Para o governo Peña, além de garantir a devolução dos depósitos, o desafio será esclarecer por que uma instituição com forte presença de recursos públicos chegou a uma situação de insuficiência de capital sem que os problemas fossem resolvidos anteriormente.

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