Há mais de vinte anos converso diariamente com investidores internacionais sobre o Brasil. Entre os clientes da Arko Advice estão sete dos dez maiores fundos do mundo em ativos sob gestão. Só na semana desta eleição, falei com centenas de gestores em eventos organizados pela Arko e por instituições financeiras, como o Bank of America e o Banco Safra. Essa rotina me convenceu de que o País conversa mal com quem pode investir aqui. O Brasil divulga indicadores e publica relatórios sobre a dívida. Mais difícil é acompanhar as oportunidades de investimento e as mudanças regulatórias. Também falta clareza sobre como as decisões são tomadas, o que está por vir e sobre o que ainda está pendente. Reunir essas informações encarece a análise de um projeto e pode adiar uma decisão de investimento. Na disputa por capital em setores como infraestrutura, data centers e minerais críticos, em que o Brasil concorre com México e Índia, isso pesa. O português também dificulta o acompanhamento cotidiano do País por parte do investidor estrangeiro. Traduzir documentos ajuda, mas é preciso selecionar o que interessa a esse público e fazer a informação chegar até ele. O Brasil depende de intermediários, como consultorias e bancos brasileiros com presença internacional. Escrevo como um deles, e parte do que proponho adiante reduziria essa dependência. A imprensa internacional cumpre um papel importante, mas sua pauta privilegia os grandes acontecimentos e as crises. Não cabe ao jornal acompanhar cada mudança regulatória. Muitos temas menores, relevantes para quem investe no País, ficam sem cobertura. Costumo dizer que, visto de fora, o Brasil parece um jogo da Série C. Só vira notícia quando o alambrado cai, ou quando um cachorro invade o gramado. Há iniciativas do governo para preencher parte desse espaço. A Apex promove investimentos e o BNDES divulga projetos e concessões. O Itamaraty, por sua vez, mantém setores comerciais nas embaixadas. Na minha experiência com investidores, porém, essas iniciativas ainda chegam de forma dispersa. Falta coordenação para que informações relevantes circulem com regularidade, acompanhadas de explicações sobre o que muda para quem pretende investir. O caso mais recente é o do Redata, o regime tributário especial para data centers sancionado em setembro. Recebi mais de uma dezena de pedidos de conversa de fundos soberanos, fundos de pensão e gestoras querendo entender a medida. A lei remete à regulamentação das condições de habilitação e os detalhes das contrapartidas. Uma comunicação melhor não elimina essa indefinição, mas pode explicar o que já está decidido, o que falta decidir, quem responde por isso e qual é o calendário previsto. É este acompanhamento que deveria chegar ao investidor sem que ele precisasse ir atrás. O Brasil tem um ativo para fazer esse trabalho: uma diplomacia sofisticada e uma ampla rede de embaixadas e consulados. Os setores de promoção comercial e investimentos já prestam assistência a empresas estrangeiras. Essa rede poderia ser mais usada para manter contato regular com os gestores que decidem a alocação de capital em infraestrutura e energia. Deixo quatro sugestões ao próximo Presidente. Uma central de informação no Planalto. Cada ministério enviaria as novidades de interesse do investidor, como um leilão ou uma mudança regulatória. Uma pequena equipe editorial reuniria esse material em um boletim semanal, o What's Happening in Brazil, inicialmente em inglês, com versões em outros idiomas conforme o público. Leis e decretos relevantes ganhariam nota técnica em inglês em até 48 horas. Haveria também relatórios setoriais bimestrais, em séries como What's Happening in Brazil Infrastructure ou Energy and Renewables. Eles trariam oportunidades, prazos e pendências, porque o investidor desconta propaganda com facilidade. Um portal único. O Investing in Brazil reuniria o que hoje está espalhado pelos canais do BNDES, dos ministérios e dos estados: leilões, concessões, projetos e mudanças regulatórias em discussão no Executivo e no Congresso. Cada oportunidade teria informações padronizadas, estágio de aprovação e um contato responsável. Um painel desatualizado faz mais mal do que bem, e por isso o portal precisa de dono e de rotina de atualização. Seria um portal único de informação, atualizações e oportunidades de investimentos no Brasil. Uma rede de distribuição. Embaixadas e consulados manteriam contato com empresas e gestoras interessadas no Brasil e enviariam informações conforme o setor e o perfil de cada investidor. O material também chegaria às embaixadas estrangeiras em Brasília e às câmaras de comércio bilaterais. O trabalho seria avaliado pelas dúvidas respondidas e pelos contatos que avançassem para a análise de projetos. Mandar e-mail para uma lista enorme, por si só, diz pouco. Precisa ter frequência, padronização e espaço para que as dúvidas sejam respondidas. Canais de conversa. A Fazenda manteria um canal permanente para responder a investidores estrangeiros e faria, a cada dois meses, encontros com os ministérios responsáveis pelos temas em pauta, no formato de uma teleconferência de resultados. A cada seis meses, as representações brasileiras em centros como Nova York, Londres, Abu Dhabi e Singapura organizariam eventos presenciais com a Apex, reguladores, bancos e governos estaduais. Investidores interessados no Brasil seriam convidados. Os eventos podem ser macro ou temáticos, dependendo da circunstância do momento. Analistas independentes fariam a avaliação política e econômica. As perguntas dos investidores orientariam os boletins e relatórios seguintes. A coordenação ficaria com alguém no Planalto com experiência na relação com o setor produtivo, apoiado pelo Itamaraty e pela Apex. Essa pessoa cobraria respostas dos ministérios e garantiria que as representações no exterior recebessem as informações a tempo de usá-las. O Reino Unido oferece uma referência com o Office for Investment, que reúne órgãos do governo para atrair investimentos e ajudar a remover obstáculos à sua realização. Informação não substitui fundamentos fiscais nem instituições. Ajuda, porém, a evitar que o investidor descarte uma oportunidade por não conseguir entendê-la. É algo que já vi acontecer muitas vezes nos últimos anos. O trabalho pode começar no primeiro mês do próximo mandato, reunindo os canais que já existem e definindo quem responde por cada assunto. Lucas de Aragão é mestre em Ciência Política e sócio da Arko Advice.