Há um número impressionante de pessoas inconsoláveis com o resultado das eleições.
Algumas parecem genuinamente deprimidas. Outras exibem um desalento que normalmente se reserva à perda de um ente querido. Há quem fale em deixar o País, quem tenha perdido a vontade de investir, e até quem pareça ter desistido de trabalhar.
Não pretendo minimizar a importância da política. Como advogado tributarista, passo a vida testemunhando as consequências, geralmente desastrosas, das decisões tomadas em Brasília. Seria particularmente incoerente sustentar que os governos não fazem diferença.
Fazem, e muita.
Mas talvez não tanta quanto gostamos de imaginar.
Há uma constatação, singela e fatalista, que parece escapar a quem está inconsolável: o Brasil é isso aí mesmo.
Não é a Suíça, não será a Suíça na segunda-feira, e provavelmente tampouco será a Suíça depois das próximas dez eleições. Haja o que houver, no Natal que se avizinha não vai nevar.
Numa fala memorável, anos atrás, Beto Sicupira já
chegou a essa conclusão quando afirmou: “Hoje estamos simplesmente vivendo o Brasil que eu sempre vivi. Trabalho há mais de 50 anos, e o Brasil é isso aí, não é diferente disso não (...). Se vocês estão achando que o Brasil é um negócio que vai virar Estados Unidos, vocês estão no lugar errado. Não vai virar Estados Unidos porque o Brasil é o País do coitadinho, é o País do direito sem obrigação, e é o País da impunidade. Isso é cultural! ‘Ah, mas vamo eleger não sei quem quem, que vai mudar!’ Não vai mudar!”
Teremos governos melhores e piores. Uns compreenderão a importância da responsabilidade fiscal, outros continuarão acreditando que o dinheiro público brota espontaneamente em alguma repartição do Ministério da Fazenda. Alguns respeitarão a iniciativa privada, outros a enxergarão como uma espécie de inconveniente necessário à arrecadação tributária.
Mas o Brasil continuará sendo isso aí.
Com sua burocracia sufocante, seu Estado dispendioso, insegurança jurídica, e sua extraordinária capacidade de complicar o que deveria ser simples. E também com um mercado imenso, oportunidades abundantes e empresários que aprenderam a produzir riqueza apesar das dificuldades que lhes são impostas.
É curioso: embora desconfiemos profundamente dos políticos, continuamos atribuindo a eles poderes quase sobrenaturais sobre nosso destino – mormente o Presidente da República, menosprezando o fato de que boa parte do orçamento é ordenado pelo Congresso, o que nos aproxima cada vez mais de um parlamentarismo sem
accountability.
Epicteto, o filósofo estoico que viveu há quase dois mil anos, ensinava que algumas coisas dependem de nós, enquanto outras escapam ao nosso controle. A serenidade, segundo ele, começa justamente pela capacidade de distinguir umas das outras.
Podemos melhorar nossas empresas, contratar profissionais competentes, investir em tecnologia, conquistar clientes e desenvolver novos negócios. Podemos trabalhar mais, estudar mais, inovar e corrigir nossos próprios erros.
Não podemos, individualmente, escolher o presidente da República, controlar o Congresso ou impedir que algum burocrata tenha uma ideia particularmente idiota numa terça-feira à tarde.
Por que, então, entregar nossa paz de espírito a essas variáveis?
Hoje, os que sofrem com o resultado da eleição o fazem porque sabem o que muito provavelmente nos espera: um ajuste fiscal mínimo (se acontecer), uma inflação mais alta, uma recessão contratada, demissões em massa – e mais uma oportunidade perdida de virar o rumo do País numa direção que ajude a quem produz.
Mas ainda que muitos não estejamos otimistas, temos que arregaçar as mangas e trabalhar para superar mais este momento – até porque o desespero coletivo não vai levar a nada.
Precisamos continuar no combate por responsabilidade fiscal, segurança jurídica, respeito aos contribuintes e limites à voracidade estatal. Participar do debate público é um direito e, em alguma medida, um dever.
Mas uma coisa é exercer a cidadania. Outra é transformar o noticiário político num eletrocardiograma emocional.
O Brasil já atravessou governos de orientações bastante diferentes. Em todos eles houve empresas que prosperaram, empreendedores que fracassaram, oportunidades aproveitadas e outras desperdiçadas.
Insisto: isso não significa que as políticas públicas sejam irrelevantes. Significa apenas que elas não esgotam as possibilidades de uma sociedade.
O empresário que passa o dia lamentando o resultado eleitoral deixa de dedicar tempo àquilo que efetivamente pode transformar sua vida e a de seus funcionários.
Na segunda-feira seguinte a qualquer eleição, milhões de brasileiros continuam acordando cedo, abrindo suas lojas, escritórios, fábricas e fazendas. Continuam enfrentando a burocracia, pagando impostos, contratando pessoas e tentando construir alguma coisa.
É esse Brasil que merece nossa energia. Não dá para passarmos quatro anos
apenas aguardando a próxima eleição.
O governo é o que é. O Brasil é o que é. A vida continua.
Vamos respirar fundo e seguir o conselho do velho Bituca, mantendo “essa estranha mania de ter fé na vida”.
Luiz Gustavo Bichara é advogado.