Todos os institutos de pesquisa apontavam Flávio Bolsonaro como o vencedor da eleição de domingo.
Os
prediction markets eram ainda mais otimistas com o senador: plataformas como Polymarket e Kalshi chegaram a atribuir probabilidades superiores a 80% à sua vitória.
Deu no que deu.
O Presidente Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos – uma vantagem de 4,4 milhões de votos – e o resultado reacendeu uma discussão que já havia aparecido nas eleições de 2018 e 2022:
afinal, o que está acontecendo com as pesquisas?
Para Carlos Augusto Montenegro, o ex-presidente do Ibope, o problema começa na velocidade com que o eleitor muda de opinião.
“As pesquisas estão ficando velhas quando começam a ser feitas,” Montenegro disse ao
Brazil Journal.
O empresário lembra que um acontecimento de campanha não termina quando acaba um debate na televisão, por exemplo. Ele continua repercutindo nos dias seguintes, nas redes sociais e nas conversas com amigos e familiares, influenciando a decisão de eleitores que ainda não haviam definido seu voto.
Na visão de Montenegro, essa volatilidade ajuda a explicar por que praticamente todos os institutos foram surpreendidos em 2026, mesmo utilizando metodologias diferentes.
Mas o principal fenômeno que escapou às pesquisas foi a mobilização dos eleitores – e a queda brutal da abstenção, com 3 milhões de eleitores a mais comparecendo às urnas no segundo turno.
Clifford Young, o presidente de pesquisas da Ipsos, acredita que a vitória de Lula esteve muito mais relacionada a isso do que a uma transferência maciça de votos entre os dois candidatos.
É o que os americanos chamam de
differential turnout – quando a diferença de comparecimento entre os grupos de eleitores altera o resultado de uma eleição.

Young reconhece que a indústria de pesquisas provavelmente não conseguiu captar bem esse movimento.
“Será que nós temos outras maneiras de captar isso? É uma reflexão que precisamos fazer,” disse.
Uma das alternativas é aperfeiçoar os modelos de
likely voter, que tentam identificar não apenas em quem uma pessoa pretende votar, mas qual a probabilidade de ela efetivamente comparecer às urnas.
O desafio é que nem sempre a declaração do eleitor corresponde ao comportamento que terá no dia da eleição.
Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, acredita que a dificuldade vai além do comparecimento. Para ele, o próprio processo de decisão do eleitor mudou – e os institutos ainda precisam encontrar maneiras de acompanhar essa transformação.
Mas existe um outro fator importante: a mentira.
“Talvez eu seja o único dono de instituto de pesquisa que fala sem medo que as pessoas mentem. Eu minto, você mente, todo mundo mente – em diferentes graus,” disse.
Para Meirelles, isso significa que as perguntas tradicionais sobre intenção de voto precisam ser acompanhadas de outras informações, como o grau de satisfação com o candidato, a intensidade da preferência e a disposição de mudar de voto.
Uma das alternativas, segundo ele, seria combinar pesquisas qualitativas e quantitativas. Além disso, Meirelles defende o acompanhamento das mesmas pessoas ao longo da campanha para identificar como suas preferências mudam e quais acontecimentos provocam essas mudanças.
“Eu preciso de pesquisas mais contínuas para avaliar o movimento que está sendo feito,” disse Meirelles. “Isso nos dá a chance de conseguir ver como o filme está sendo formado.”
Montenegro também defende mudanças. Sua sugestão é combinar diferentes metodologias – entrevistas presenciais, por telefone e pela internet – em vez de depender de uma única forma de coleta.
O ex-Ibope acredita ainda que as eleições apertadas podem justificar o retorno de uma velha ferramenta: a pesquisa de boca de urna, que perdeu espaço com a velocidade da apuração do Tribunal Superior Eleitoral.
Mas diante da volatilidade do eleitorado, Montenegro acredita que uma fotografia feita no próprio domingo poderia voltar a fazer sentido.
Segundo os entrevistados, também há outro problema na mesa: a forma como os dados são interpretados.

O
chair da Ipsos questiona a obsessão por diferenças de um ou dois pontos percentuais, muitas vezes inferiores à margem de erro dos levantamentos.
Afinal, uma pesquisa que aponta 51% a 49%, com margem de erro de dois pontos, não está necessariamente dizendo que o primeiro candidato vencerá e sim que os dois estão tecnicamente empatados.
“O problema é que as pessoas cobram uma precisão de uma pesquisa que, muitas vezes, ela não consegue ter,” disse Young.
Meirelles também vê um problema na maneira como os levantamentos são consumidos, especialmente no mercado financeiro.
Segundo ele, muitos investidores buscam nas pesquisas a confirmação daquilo em que já acreditam, em vez de analisar os números mais friamente.
A experiência da Futura Inteligência ilustra esse problema.
O instituto foi o que mais se aproximou do resultado das urnas no segundo turno, apontando Flávio com cerca de 50% dos votos válidos e Lula com 49,9% – uma diferença que foi caindo durante a semana da eleição. Detalhe: a Futura havia colocado Flávio na frente de Lula um pouco antes da votação no primeiro turno.
Mas o levantamento enfrentou resistência entre os clientes do mercado financeiro. Segundo Paula Orrico, diretora técnica da Futura, alguns clientes chegaram a questionar os resultados porque suas próprias projeções indicavam um cenário diferente.
“Foi muito mais fácil entregar a pesquisa de primeiro turno para eles do que a de segundo. Nós falamos para os clientes que existia uma tendência do Lula virar a eleição,” disse Paula.
Para ela, o movimento de recuperação de Lula estava diante de todos, mas nem sempre havia disposição para enxergá-lo. “Para quem entende pesquisa, era um movimento muito claro de crescimento do Lula,” disse.
Para todos os entrevistados, as pesquisas eleitorais seguem muito relevantes para entender os pleitos.
Young lembra que a pesquisa é uma atividade científica, sujeita a revisões constantes, tanto quando acerta quanto quando erra. Mas a revisão, segundo ele, terá que ir além dos métodos.
“Nós temos que ser melhores em explicar os limites de nossas ferramentas,” disse Young.
Há ainda uma confusão entre probabilidade e certeza.
Para Young, uma chance de 70% de vitória significa que existe também uma possibilidade de 30% de derrota. E 30% está longe de ser algo desprezível.
“Eu adoraria ir para Las Vegas com uma probabilidade de 30% de ganhar,” disse.