Rio de Janeiro (RJ), 03/08/2026 – O Tribunal Regional Eleitoral apresenta a estrutura e demonstra testes da urna eletrônica para as Eleições de 2026. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

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A cerca de uma semana do primeiro turno, a disputa entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) segue sem favorito claro para o mercado. Diante de um cenário tratado pelo mercado como binário, a orientação mais consensual é não transformar a carteira em aposta eleitoral. Em vez disso, a recomendação é manter a renda fixa como base, dosar a exposição à Bolsa e aos prefixados, ter parte do patrimônio em dólar como proteção e fazer novos aportes de forma gradual.

Um levantamento do UBS com anos eleitorais anteriores não encontrou aumento consistente da volatilidade da Bolsa, do câmbio e da renda fixa nesses períodos. Para especialistas, o que muda é a intensidade das reações, já que cada nova pesquisa altera as apostas do mercado sobre a política fiscal dos próximos anos e pode provocar movimentos bruscos em poucos dias.

A Tivio Capital espera oscilação relevante no dia seguinte à votação, qualquer que seja o vencedor, enquanto o mercado aguarda sinais concretos de ajuste nas contas públicas. A dica, portanto, é não tomar decisões no calor das pesquisas. “A única coisa que você precisa evitar agora é fazer grandes apostas”, resume André Leite, CIO da TAG Investimentos.

Investir agora ou esperar? Entre aos poucos

Para quem tem dinheiro para aplicar, a resposta dos especialistas não é nem tudo agora nem tudo depois. Pedro Carneiro, gestor da Asset1, sugere dividir a entrada em três aportes até novembro, estratégia que, segundo a Franklin Templeton, vem sendo adotada pelo mercado.

Quem já investe em ações deve evitar grandes movimentações e esperar o resultado para rebalancear a carteira, avalia Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos. Já quem ainda não está na Bolsa pode começar a montar posição, desde que com horizonte de pelo menos cinco anos.

Renda fixa continua sendo a base

Na renda fixa, o pós-fixado, grupo que inclui o Tesouro Selic e os CDBs atrelados ao CDI, segue como porto seguro enquanto a eleição não se define. “O carrego do pós-fixado é a melhor poltrona de espera”, diz o planejador financeiro Jeff Patzlaff.

Ao lado dele, o Tesouro IPCA+ aparece como a principal recomendação do mês. O UBS classifica os títulos atrelados à inflação como muito atrativos e peça central das carteiras de longo prazo, e o gestor Luis Stuhlberger, do Verde, os prefere aos prefixados. A orientação mais frequente é evitar os vencimentos mais longos, que oscilam mais. A Ghia Multi Family Office, por exemplo, mira prazo médio em torno de seis anos e vê nos ETFs que replicam o índice IMA-B uma forma prática de o investidor seguir essa estratégia.

Os prefixados ganharam espaço com o ciclo de cortes da Selic, mas em doses menores. Um estudo da XP mostra que, historicamente, esses títulos batem o CDI na maior parte das vezes, mas por margem pequena. As vitórias mais expressivas vieram quando o investidor conseguiu travar taxas altas antes de o mercado precificar os cortes de juros.

O principal cuidado vale para os dois tipos de título. Quem precisar vender antes do vencimento fica sujeito à marcação a mercado, e uma alta inesperada dos juros pode gerar perdas de alguns pontos percentuais em papéis de cinco anos. Não por acaso, o estudo da XP considera títulos levados até o vencimento, e especialistas recomendam aplicar em prefixados e IPCA+ apenas o dinheiro que pode ficar parado até lá.

Três especialistas ouvidos pelo InfoMoney no início do mês sugeriram divisões diferentes para a renda fixa, conforme o perfil do investidor.

  • Mais conservadora (Patzlaff): 70% em Tesouro Selic, 20% em IPCA+ e 10% em prefixados
  • Equilibrada (Mendes, da Manchester): 30% em pós-fixados, 40% em IPCA+ e 30% em prefixados, metade com vencimento de até dois anos
  • Mais exposta a juros (Robson Casagrande, da GT Capital): 25% em Tesouro Selic, 45% em IPCA+ com vencimentos entre 2029 e 2032 e 30% em prefixados entre 2029 e 2031, comprados em duas ou três etapas

Crédito privado exige critério

No crédito privado, a palavra de ordem é seletividade. Os FIDCs, fundos que compram recebíveis de empresas, atraíram tantos investidores que as taxas caíram, e algumas cotas seniores já pagam em torno de CDI+2%, patamar que gestores consideram baixo diante do risco de inadimplência. Casagrande, da GT Capital, vê deterioração nas cotas subordinadas, que são as primeiras a absorver perdas.

“A taxa importa, mas a estrutura que protege essa taxa importa mais”, afirma Leandro Turaça, sócio-gestor da Ouro Preto Investimentos. Antes de investir, vale entender quem origina o crédito, quão pulverizada é a carteira e qual é o histórico de perdas do fundo.

Bolsa está barata, mas pede dose certa

Há consenso de que as ações brasileiras estão baratas, negociando com desconto em relação ao próprio histórico e a pares da América Latina. Bancos estrangeiros como o JPMorgan veem espaço relevante de alta caso o cenário fiscal melhore. A leitura predominante é de assimetria, com mais potencial de ganho do que de perda, já que o investidor estrangeiro está pouco exposto ao país e parte do cenário de reeleição já estaria nos preços.

Ainda assim, a recomendação é não exagerar na dose. A XP está abaixo do neutro para ações brasileiras e sugere uma fatia pequena da carteira em Bolsa para o perfil moderado, sem sair do mercado.

Na escolha dos papéis, a preferência recai sobre as blue chips, as ações mais negociadas, e sobre empresas com caixa sólido e boas pagadoras de dividendos, em setores como energia, saneamento, commodities e bancos. A Kinea sugere dividir a carteira em duas frentes, uma com empresas que geram caixa em qualquer cenário e outra com setores que ganham mais se os juros caírem. Para as estatais, as mais expostas ao resultado das urnas, Carneiro, da Asset1, sugere limitar a fatia a cerca de 10% da carteira de ações.

Veja as ações que mais devem ganhar com:

Vitória de Lula

Com a disputa indefinida, bancos e casas de análise montaram carteiras para cada resultado. Numa vitória de Lula, vista como continuidade com juros altos por mais tempo, a preferência é por exportadoras e empresas defensivas, como Suzano (SUZB3), WEG (WEGE3), Embraer (EMBJ3) e seguradoras.

Vitória de Flávio

Numa vitória de Flávio, associada pelo mercado a um ajuste fiscal mais rápido, ganham destaque empresas ligadas à economia doméstica e sensíveis aos juros, como Cyrela (CYRE3), B3 (B3SA3) e XP (XPBR31). O setor financeiro aparece nos dois cenários, e o BTG Pactual (BPAC11) figura em carteiras para ambos os resultados.

Dividendos não são bote salva-vidas

Quem busca proteção em ações de dividendos precisa de cautela. Estudo da XP mostra que essas ações não sobem em momentos de juros altos. A vantagem aparece apenas porque elas caem menos que as empresas que distribuem pouco, e elas reagem aos juros tanto quanto o restante da Bolsa, ou até um pouco mais.

No caso das estatais, especialistas lembram que o dividend yield passado, isoladamente, é pouco confiável, porque pode refletir pagamentos extraordinários ou uma queda forte no preço da ação. A orientação é olhar a perspectiva de crescimento dos proventos e a saúde financeira da empresa, e montar posição de forma fracionada.

Dólar é seguro, não aposta

A alta dos juros nos Estados Unidos deixou a renda fixa americana mais atrativa, mas não o suficiente para bater o CDI. Pelas contas de Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, com o dólar estável o título de 10 anos do Tesouro americano rende bem menos que a renda fixa brasileira depois de impostos e custos de câmbio, e a moeda precisaria subir perto de 10% em 12 meses para empatar.

Por isso, dolarizar faz mais sentido como proteção contra um cenário ruim no Brasil do que como busca de rentabilidade. “O investidor não se protege do cenário médio, se protege do cenário ruim”, diz Trevisan, que sugere entre 15% e 20% do patrimônio em dólar para o perfil moderado. Outras casas vão além. A TAG recomenda ao menos 30% no exterior, Stuhlberger fala em 30% a 50%, e o UBS coloca a diversificação internacional no mesmo patamar de atratividade do IPCA+.

Para valores menores, a sugestão é abrir conta em uma corretora no exterior e comprar ETFs de títulos americanos, ou recorrer a BDRs de ETFs negociados na B3. O ponto de consenso é evitar produtos com proteção cambial, que anulam justamente o efeito da alta do dólar.

Os títulos americanos atrelados à inflação, os TIPS, que pagam o maior juro real em quase 18 anos, entram como complemento, e não substituto, do Tesouro IPCA+. Nenhum dos especialistas ouvidos recomenda trocar um pelo outro por causa da eleição.

O que evitar na reta final

Entre os movimentos que especialistas desaconselham neste momento estão os seguintes.

  • Investir em fundos multimercados, que receberam a pior recomendação do UBS para o período
  • Vender títulos IPCA+ para dolarizar só por causa da eleição
  • Comprar produtos de investimento no exterior com proteção cambial
  • Escolher FIDCs apenas pela taxa
  • Escolher ações só pelo dividend yield passado
  • Concentrar a carteira em um único cenário eleitoral

Depois da urna, olho nos sinais

Passada a votação, o que deve guiar os preços é menos o nome do vencedor e mais os primeiros passos do eleito. Levantamento do Goldman Sachs com eleições anteriores mostra que o câmbio reagiu mais a desdobramentos concretos, como a escolha de ministros e o avanço de reformas, do que ao resultado em si. Na mesma linha, a Tivio avalia que o investidor estrangeiro se importa mais com um sinal de ajuste fiscal logo após o pleito do que com quem vence.

Para quem prefere esperar antes de fazer movimentos maiores, Patzlaff avalia que vale mais entrar pagando um pouco mais caro depois de conhecido o novo comando da economia do que tentar adivinhar o resultado agora. Um eventual segundo turno está marcado para 25 de outubro.

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