O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores (PT), posa para uma selfie com um apoiador durante um comício de campanha antes do segundo turno das eleições, em Natal, Brasil, em 10 de outubro de 2026. REUTERS/Adriano Machado

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A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste domingo (25) garante ao presidente mais quatro anos no Palácio do Planalto, mas o novo mandato começará em condições políticas diferentes das encontradas em 2023.  

O Congresso que tomará posse em fevereiro terá uma presença ampliada da direita, enquanto o governo precisará enfrentar o crescimento da dívida pública e encontrar recursos para cumprir promessas anunciadas durante a campanha. 

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Lula defendeu a continuidade de sua política econômica, a ampliação dos programas sociais e uma atuação maior do governo federal na segurança pública. O presidente também prometeu avançar na redução da jornada de trabalho, ampliar o Pé-de-Meia para universitários e implementar medidas para aliviar o endividamento das famílias. 

A capacidade de executar essa agenda dependerá de negociações com partidos que não integram sua base tradicional e de decisões sobre o Orçamento. 

Congresso será o primeiro obstáculo 

O PL, partido de Flávio Bolsonaro, terá 121 deputados federais e 28 senadores na próxima legislatura. O PT contará com 70 deputados e nove senadores, enquanto sua federação com PCdoB e PV reunirá 88 cadeiras na Câmara. 

A nova composição ampliará a influência da oposição sobre votações importantes, especialmente as que exigem mudanças constitucionais. 

Com 28 senadores, o PL terá votos suficientes para impedir sozinho a aprovação de propostas de emenda à Constituição, que dependem de pelo menos 49 votos favoráveis na Casa. 

Lula precisará negociar com MDB, PSD, União Brasil, Republicanos e outras legendas para construir maiorias. As eleições para as presidências da Câmara e do Senado, previstas para fevereiro, também terão peso na definição de sua capacidade de articulação. 

O cientista político Murilo Medeiros, professor da Universidade de Brasília (UnB), avaliou que um quarto governo Lula terá uma agenda fortemente condicionada pelas negociações parlamentares. 

Na avaliação do especialista, a tendência é de continuidade das principais políticas do atual mandato, mas com maior dificuldade para aprovar propostas que enfrentem resistência no Congresso. 

A pressão por um ajuste fiscal 

A situação das contas públicas será uma das primeiras questões enfrentadas pelo presidente reeleito.  A dívida pública está próxima de 83% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto o crescimento das despesas obrigatórias reduz o espaço para novos investimentos. 

Durante a campanha, Lula defendeu a manutenção do arcabouço fiscal e uma redução gradual do déficit, com o objetivo de alcançar superávit primário de 1,3% do PIB até 2030. 

A estratégia também prevê crescimento econômico, investimentos públicos e ampliação da arrecadação por meio de uma tributação mais progressiva. 

Entretanto, economistas avaliam que o governo precisará discutir mudanças nas regras que determinam a expansão automática das despesas. 

Alessandra Ribeiro, economista da Tendências Consultoria, apontou que a política de valorização do salário mínimo, os gastos previdenciários, os mínimos constitucionais de saúde e educação e as emendas parlamentares representam desafios importantes para o equilíbrio fiscal. 

Segundo ela, mudanças na política de valorização do salário mínimo são pouco prováveis em um quarto mandato, devido à importância do tema para Lula e para o PT. 

A consultoria considera mais plausível que o governo discuta alterações nas vinculações de despesas de saúde e educação, além de medidas para conter outros gastos obrigatórios. Essas possibilidades são avaliações da economista e não compromissos anunciados pelo presidente. 

O problema político está na necessidade de negociar medidas de contenção de despesas depois de uma campanha marcada pela promessa de ampliar benefícios. 

O que pode mudar na economia? 

Lula pretende manter a estratégia de investimentos públicos e incentivos à indústria, com destaque para o Novo PAC e a Nova Indústria Brasil. 

O governo também deverá continuar a implantação da reforma tributária sobre o consumo, que entra em uma etapa decisiva em 2027, com a substituição de PIS e Cofins pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). 

Na tributação da renda, o presidente defende ampliar a progressividade, com maior participação das faixas de renda mais elevadas no financiamento do Estado. 

Outra prioridade será enfrentar o endividamento das famílias. Durante o segundo turno, Lula prometeu uma nova rodada de renegociação de dívidas e medidas específicas para microempreendedores individuais. 

O custo dessas iniciativas e a forma de financiamento serão fatores importantes para avaliar a viabilidade das propostas. 

Programas sociais e educação 

A ampliação de benefícios deverá ocupar espaço relevante na agenda do quarto mandato.  Entre os compromissos anunciados durante a campanha está a criação do Pé-de-Meia Universitário, destinado a estudantes do ensino superior. 

A proposta prevê pagamentos de R$ 700 mensais durante dez meses por ano, além de depósitos anuais de R$ 2.500 em uma poupança liberada ao final da graduação. 

A expansão exigirá novos recursos orçamentários e definição dos critérios de acesso. 

Lula também pretende manter o Bolsa Família, ampliar o Minha Casa, Minha Vida e preservar a política de reajuste real do salário mínimo. 

Na saúde, o governo promete dar continuidade ao programa Agora Tem Especialistas, ampliar o atendimento especializado e reduzir as filas por consultas, exames e cirurgias no Sistema Único de Saúde (SUS). 

Jornada de trabalho e segurança pública 

A regulamentação da redução da jornada de trabalho será uma das primeiras tarefas do novo governo.  A mudança constitucional aprovada em outubro estabelece a transição para uma semana de 40 horas, sem redução salarial, com dois dias de descanso. 

O Executivo ainda terá de lidar com questões de implementação e com eventuais medidas de adaptação para determinados setores da economia. 

Na segurança pública, Lula pretende ampliar a participação da União no combate ao crime organizado e criar um ministério exclusivo para a área. 

A proposta está associada à PEC da Segurança Pública, que busca reorganizar a cooperação entre o governo federal, os estados e os municípios. 

A tramitação dependerá de acordos com governadores e parlamentares, especialmente sobre a divisão de competências entre os entes federativos. 

A relação com o Congresso poderá dificultar avanços em outras propostas que envolvam mudanças constitucionais ou ampliação de despesas. 

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Relação com o STF e oposição fortalecida 

O novo governo também terá de administrar uma oposição com maior capacidade de atuação no Senado.  A bancada ampliada do PL poderá influenciar votações sobre indicações ao Supremo Tribunal Federal, investigações parlamentares e propostas relacionadas ao funcionamento do Judiciário. 

O cientista político Jorge Chaloub, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), avaliou que Lula poderá buscar apoio dos partidos de centro por meio de negociações políticas e da distribuição de espaços no governo. 

Essa estratégia, entretanto, exigirá concessões a legendas que nem sempre compartilham das prioridades econômicas e sociais do PT. 

O fortalecimento do Congresso também amplia o poder de negociação dos presidentes da Câmara e do Senado, especialmente nas discussões sobre emendas parlamentares e execução do Orçamento. 

O que esperar dos primeiros meses? 

As primeiras decisões do quarto mandato deverão mostrar como Lula pretende responder à pressão fiscal e administrar uma base parlamentar minoritária. 

O presidente terá de definir prioridades entre novas despesas sociais, investimentos públicos e medidas de contenção de gastos. 

O cenário também exigirá capacidade de negociação para evitar que disputas com o Congresso comprometam o andamento de sua agenda. 

Na avaliação dos especialistas ouvidos pelo Mapa de Risco, a continuidade das políticas econômicas e sociais não elimina a necessidade de ajustes. 

Lula começará o novo mandato com experiência na administração federal e relações estabelecidas com dirigentes partidários, mas enfrentará uma oposição parlamentar mais numerosa e cobranças sobre a trajetória das contas públicas. 

A formação da equipe econômica, os acordos para o comando do Congresso e as primeiras propostas orçamentárias deverão indicar o espaço que o presidente terá para executar os compromissos apresentados durante a campanha. 

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