Senhor Presidente, No último domingo o senhor foi reeleito para seu quarto mandato, com 51,78% dos votos válidos. Escrevo como cidadão, pai e avô, para cumprimentá-lo e também por estar preocupado com o clima de divisão que tomou conta do País. Não escrevo para comemorar nem para lamentar o resultado. Escrevo porque as urnas deixaram um recado que, nas últimas duas eleições, não foi ouvido. E acredito que agora ele precisa ser. Esta foi a terceira eleição presidencial seguida em que a rejeição foi a vencedora. Em 2018, o antipetismo levou Jair Bolsonaro à Presidência. Em 2022, o antibolsonarismo trouxe o senhor de volta, com 50,9% dos votos válidos. Agora, em 2026, a disputa terminou de novo apertada, com uma diferença de apenas 4,4 milhões de votos, em um universo de quase 160 milhões de eleitores. As pesquisas mostraram isso com clareza. No fim de setembro, o Datafolha registrava que 45% dos eleitores não votariam no senhor, exatamente a mesma proporção que rejeitava seu adversário. Na mesma época, 18% dos seus eleitores e 35% dos eleitores de Flávio Bolsonaro diziam votar principalmente para impedir a vitória do outro. Em outras palavras: muitos dos votos que o elegeram não foram um sim ao seu projeto. Foram um não ao projeto do adversário. Em 2018 e 2022, os vencedores não prestaram atenção a isso. Não entenderam que o voto decisivo não tinha sido dado a eles, mas contra o oponente. Leram a vitória somente como aprovação, quando ela era, em grande parte, fruto da rejeição ao adversário. Governaram para quem os apoiava e muitas vezes trataram a outra metade do País como adversária, quando não como inimiga. O resultado está aí: o Brasil estava, e continua, profundamente dividido. A cada eleição saímos mais divididos que entramos. Vi amigos de décadas deixarem de se falar por causa de uma eleição. Famílias se afastam, o debate público vira apenas troca de acusações, e a próxima disputa começa no dia seguinte à apuração. Nem mesmo o resultado das urnas é aceito por todos. Por isso, Presidente, o meu pedido é muito simples de dizer – e difícil de executar: governe também para os quase 60 milhões de brasileiros que votaram no outro candidato. Isso não significa abrir mão de suas convicções. Significa reconhecer que a maioria que o elegeu é estreita e, em boa parte, emprestada. Significa adotar um discurso e uma postura de estadista capazes de pacificar o País e de aglutinar uma grande parcela da sociedade que está mais ao centro, longe dos extremos polarizados. E significa trocar o “nós contra eles” por gestos concretos de reaproximação: ouvir de verdade quem pensa diferente, chamar para o governo pessoas que não são só do seu campo, aplicar a mesma régua aos erros dos adversários e aos dos aliados. Significa também cuidar das palavras. Quem ocupa a Presidência fala para todo o País, e eventuais frases dirigidas a um lado chegam ao outro como ataque. O tom do Presidente define, em boa medida, o tom do governo e da sociedade. Há também temas que não podem ser tratados como disputa de narrativa. O primeiro é a questão fiscal. Ela não é retórica eleitoral; é uma questão concreta. Em agosto, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB, o maior nível desde março de 2021, em plena pandemia. O crescimento real da dívida pública não consegue esconder o que eventuais ajustes contábeis tentam amenizar no déficit das contas federais. Educação, Saúde e Meio Ambiente são pautas realmente importantes e merecem prioridade. Mas é justamente por isso que o descontrole das contas públicas, a manutenção artificial de preços administrados e o crescimento real constante dos gastos as ameaçam. Sem equilíbrio fiscal, além dessas áreas, são as famílias, já bastante endividadas, que acabam pagando a conta do descontrole ao verem sua renda real cair, suas dívidas aumentarem por causa dos juros altos e o seu poder de compra ser reduzido pelo aumento da inflação. O segundo tema é a credibilidade das instituições. Será preciso resgatar a confiança da sociedade nos três Poderes. Essa desconfiança não pode ser atribuída apenas a discursos de oposição ou de campanha; ela é real e está disseminada. Decisões intempestivas e polêmicas nos três Poderes, qualquer que seja o mérito de cada uma, alimentam a suspeita de quem já desconfia e enfraquecem a autoridade das instituições justamente quando o País mais precisa delas. O senhor tem agora uma oportunidade que não foi aproveitada em 2018 nem em 2022: ser o primeiro a ler corretamente o recado da rejeição que veio das urnas. O maior legado que o senhor poderá deixar, neste seu quarto mandato, será agir de forma decisiva para pacificar a sociedade, dar real transparência aos atos e medidas do governo, e lutar pelo reequilíbrio das contas públicas e pela harmonia entre os Poderes prevista na Constituição. Seria um verdadeiro marco a ser lembrado na história do Brasil, maior do que qualquer vitória eleitoral. Com respeito e esperança de um País melhor e mais unido para as gerações dos meus filhos e netos, Guilherme Amaral Ferraz Guilherme Amaral Ferraz é empresário.