“Piiiii… ão…. todo tatuadaaaaado!” Esteja onde estiver, você certamente já escutou essa canção. Interpretada por Jeninho e Mariana Fagundes, Peão Todo Tatuado é o ápice de um estilo batizado como agrofunk – que mistura, claro, as batidas do funk com temas e letras do universo sertanejo. O tal peão é bom de números. Lançado em 6 de março, seis meses depois o batidão estava tocando cerca de 700 vezes por dia nas rádios do Brasil – com um pico de 736 execuções em 19 de setembro, de acordo com o relatório da Crowley, que afere a audiência das rádios. Isso, só nas rádios. Os números do Spotify e do YouTube são ainda mais impressionantes: entre 158 milhões de streams e 145 milhões de visualizações nas plataformas. E, no TikTok, estima-se que cerca de 177.000 vídeos estejam usando o áudio da música, seja fazendo um tutorial da coreografia, que simula desde o sujeito chegar na festa de caminhonete, botar o chapéu e rodar o chicote até aplicar o “perfume de mato”, como demonstra uma parte da letra. Há também vídeos de sertanejos vintage como Daniel, que canta Peão Todo Tatuado ao lado de Mariana Fagundes. O sucesso de Jeninho foi engendrado em casa. Filho de Jenner Melo, um produtor e compositor que tem sucessos gravados, entre outros, pelas duplas Zé Neto & Cristiano e Henrique & Juliano, além de pop stars como Gusttavo Lima e Wesley Safadão. A transformação do filho – que inicialmente queria ser jogador de futebol – para o sertanejo eletrônico chegou em forma de sonho. “O Jeninho estava tentando a carreira no funk, mas um dia sonhei com ele vestido de chapéu,” Jenner disse ao Brazil Journal. Jenner nota que o universo da bota e do chapelão estava tomado por intérpretes da chamada “sofrência”, onde o álcool e as melodias tristonhas davam o tom – ainda que os consumidores do gênero gostem de ir para a balada. Jenner então aportou o sertanejo ao funk do rebento. Nascia ali o “agrofunk”. O primeiro sucesso de Jeninho havia sido Maria Chapeluda, que chegou a ser citado por Ana Castela (para quem não conhece, a popstar sul mato grossense é adepta de um estilo que une sertanejo moderno, pop e o chamado R&B americano, vertente mais eletrônica da soul music). Sua maior aposta, contudo, foi Maria Barretão, uma ode às moçoilas que são a-pai-xo-na-das por frequentadores de rodeio. “Ela gosta de rodeio, ela gosta de peão/ Ela não quer ser modinha, ela gosta de modão/ O pod dela é paieiro, o sistema é sertanejo/ Ô, Maria Barretão”, diz a canção, que chegou à marca de 12 milhões de streams no Spotify. O lançamento de Maria Barretão incluiu uma ousada estratégia de marketing. Jenner e Jeninho passaram dias acampados em Barretos para trabalhar a música e seu estilo. Principal evento da música de bota e chapelão do país, Barretos é um lançador natural de talentos. Foi ali, por exemplo, que um menino chamado Luan Santana despontou para o sucesso, se apresentando num palco secundário do festival em 2010. A Festa do Peão, aliás, é a que paga os melhores cachês fora de datas comemorativas como Carnaval, São João e Reveillon. O plano de divulgação de Jeninho incluiu até apresentações em cima de uma caminhonete. “Cheguei em Barretos com uma barraca, uma música e um sonho,” disse Jenner. Deu certo. Este ano, Jeninho cantou no show de Gusttavo Lima em Barretos. O passo seguinte foi a gravação de um DVD. Abacaxi Pegou Preço (uma gíria local para dizer que determinado show ou canção está fazendo sucesso) custou R$ 50 mil – uma quantia módica para um universo cujo investimento inicial é de no mínimo R$ 1,5 milhão. Gravado na calçada de um bar em Goiânia, o projeto perigou até de não acontecer. No momento em que Mariana cantou “pi ãooo todo ta tu a do”, começou a chover no local. A equipe de filmagem teve que comprar um lote de guarda-chuvas para proteger as câmeras, e o show seguiu em frente. Peão Todo Tatuado foi divulgada inicialmente pelo TikTok através das imagens postadas por Jeninho do povo cantando a música. Inicialmente, ela se chamava Chicote Estrala (uma frase do refrão), mas mudou para o nome pelo qual é conhecida de tanto as pessoas batizarem seus playlists de sertanejo com o nome de  Peão Todo Tatuado. O público que consome a música, segundo Jenner, é natural do interior e gosta de ostentar – ou seja, se identifica com o padrão das letras de Jeninho, que falam de rodeios, baladas e peões. O sucesso da canção tem rendido dividendos para uma trupe que investiu na combinação de funk com sertão. Jeninho está fazendo cerca de 20 apresentações por mês. O agro funk dispensa bandas – o que encarece muito as performances dos sertanejos. A apresentação é franciscana, dentro de uma batida quase profana. Jeninho se faz acompanhar somente por um DJ e quatro bailarinas. O showbiz americano tem um nome para esse tipo de fenômeno – novelty songs, músicas que fazem sucesso por elementos que vão além da melodia. Don’t Worry Be Happy (1986), de Bobby McFerrin, é uma novelty song porque toda instrumentação é feita pelo aparelho fonador do cantor. Monster Mash, que Boris Bobby Pickett soltou em 1962, entra nessa categoria por conta da letra, sobre uma festa protagonizada por criaturas de filmes de terror. No Brasil, sucessos populares como Morango do Nordeste, de Lairton dos Teclados, e Tô Nem Aí, de Luka (com aqueles agudinhos que todo mundo gosta de reproduzir) ou as inacreditáveis Minha Mulher Não Deixa Não (Vou Não, Quero Não), de Reginho, e Caneta Azul, do inacreditável Manoel Gomes, certamente se enquadram nessa categoria. Peão Todo Tatuado seria então uma novelty song?  Pode até ser, mas não se pode culpar o MC de bota e chapéu por aproveitar o momento. Este ano, ele já tem participação garantida em dois festivais de música de grande porte, um deles internacional (os nomes ainda não podem ser divulgados). Nada mal para quem, como diz a música, tem “perfume de mato.”