Em outubro de 2019, o Itaú pagou R$ 500 milhões por uma startup de tecnologia chamada Zup. O objetivo: acelerar a transformação digital do maior banco da América Latina. Agora, sete anos depois, o banco está repetindo o mesmo roteiro – mas com um cheque e um desafio bem maiores.  Desta vez, o alvo é a NeoSpace, uma startup brasileira que desenvolve modelos fundacionais de inteligência artificial, e pela qual o Itaú pagou quase R$ 3 bilhões.  O plano é potencializar os investimentos de AI do banco, buscando transformar o Itaú numa espécie de “ChatGPT financeiro,” o CIO Ricardo Guerra disse ao Brazil Journal. Além da estratégia semelhante, há outra coincidência curiosa: as duas startups foram fundadas pelo mesmo empreendedor, o mineiro Bruno Pierobon, um programador autodidata que começou a programar aos 13 anos para ajudar na empresa do pai – uma provedora de internet regional adquirida pela Algar.  Pierobon fundou a NeoSpace em 2023 junto com Felipe Almeida e Gustavo Debs, depois de passar alguns anos trabalhando no Itaú após a venda da Zup. “Quando fundamos a NeoSpace, o que motivava a gente não era trabalhar com prompt, com engineer. Era construir um modelo funcional, entender a matemática do modelo e entender como construir o cérebro dele,” o empreendedor disse ao Brazil Journal. “Estamos há mais de três anos trabalhando nisso, com um time de 80 pesquisadores hiperespecializados em AI.”  Em janeiro de 2025, o Itaú já havia feito um investimento minoritário na NeoSpace, de US$ 15 milhões, a um valuation de cerca de US$ 100 milhões. O valuation agora foi cerca de 6x maior que o dessa última captação, e saiu a um múltiplo de cerca de 10x receita, considerando a estimativa de faturamento da NeoSpace para este ano, de R$ 300 milhões.  A lógica por trás do investimento, no entanto, não tem a ver com os resultados da empresa – e sim com o valor estratégico para o Itaú de ter um modelo de AI avançado dentro de casa, e a capacidade de capturar talentos. Guerra disse que, com o crescimento da AI, as pessoas estão começando a usar modelos generalistas como o ChatGPT e Gemini para ter conversas sobre finanças, tirando dúvidas sobre como investir e gerir melhor seu dinheiro.  “Achamos que o Itaú poderia ser esse ChatGPT financeiro. Não na amplitude do GPT, é claro, mas aqui no banco temos muito mais informações dos hábitos financeiros das pessoas do que esses motores genéricos,” disse ele. “Sabemos o que as pessoas compram, como gastam, como investem, seus planejamentos financeiros, e o que pegam de empréstimo. Temos 100 anos de conhecimento sobre o funcionamento de produtos financeiros. Temos essa especialidade muito maior do que as informações na internet que alimentam os modelos genéricos.” O plano do banco é usar a tecnologia da NeoSpace para produzir interações cada vez melhores e mais assertivas com seus clientes.  “Em breve, acho que não vai fazer sentido mais usar um app de celular com o menuzinho. As pessoas vão querer interagir conversando com o banco, e precisamos ter um modelo que consiga entregar isso.” Em junho, o Itaú já lançou o ia.i, um motor de interação que funciona como um chat dentro do app e permite que os clientes tirem dúvidas sobre seu dinheiro. Mas esse motor ainda é jovem e não conhece todos os produtos do banco, nem tem todas as informações dos clientes, segundo Guerra.  “Estamos populando ele com informações, mas isso não é simples porque muitas vezes o conhecimento está na cabeça dos funcionários. Temos que entrevistar as pessoas, compilar o conhecimento e transformar em digital. Ele também vai aprendendo com a interação com os clientes.” O CIO disse ainda que a NeoSpace entra justamente para ajudar nisso, já que a startup está na “vanguarda mundial” na construção de modelos de rede neurais, e também para ajudar o banco a melhorar sua modelagem de crédito e na prevenção de fraudes. O Itaú já vinha trabalhando há dois anos com a NeoSpace como cliente, mas decidiu comprar o negócio inteiro “quando percebemos que dominar essa tecnologia vai passar a ser core para o nosso trabalho.” “Se o cenário que narrei virar realidade, essa pode se tornar a principal forma de relação do banco com seus clientes. Então isso tem que ser um conhecimento estratégico para a empresa, que a gente domine. Não podemos depender de terceiros.” Antes de fechar a venda para o Itaú, a NeoSpace vinha negociando uma rodada com fundos internacionais de US$ 250 milhões – e a um valuation significativamente superior ao da transação de hoje. Pierobon, o fundador, disse que optou pelo caminho da venda porque já conhece bem o Itaú e porque poucas empresas no mundo investem em tecnologia de fronteira igual ao banco. “Dentro do Itaú, entendo que conseguimos liderar o tema de pesquisa de AI, impactando milhões de pessoas, e sem o impacto que uma expansão internacional traria para a minha vida pessoal,” disse o fundador. “Vou conseguir fazer o que gosto de fazer, no ambiente que gosto de trabalhar.”  A NeoSpace tinha quatro investidores-anjo no cap table: Martín Escobari, da General Atlantic; Micky Malka, da Ribbit Capital; Nigel Morris, da QED; e Hans Morris, da NYCA Partners.