Laura Constantini, fundadora da Nido | Foto: Divulgação

*Por Laura Constantini, fundadora da Nido

A inteligência artificial reconcentrou a criação de valor tecnológico. Depois de um período no qual parecia que a inovação se espalhava, os dados mostram o movimento contrário: a maior parte do valor e do capital de startups AI-native está nos Estados Unidos. O polo chinês, embora relevante, é em grande parte fechado para o capital privado internacional. Para o investidor brasileiro, isso implica duas decisões distintas: ir para onde o valor está sendo criado (EUA) e, dentro desse mercado, buscar gestores menores e mais especializados, onde o capital ainda é escasso. A janela para entrar nas empresas que vão capturar esse valor é agora.

Entre 2020 e 2024, tudo indicava que a geografia da tecnologia estava se espalhando. Trabalho remoto, capital barato e o amadurecimento de novos polos (São Paulo entre eles) sustentavam uma leitura que parecia óbvia: a inovação não aconteceria mais de forma concentrada e em poucos lugares.

Os números da Startup Genome confirmavam essa impressão. Nesse período, a fatia dos 20 maiores ecossistemas no valor total gerado por startups no mundo caiu de 75,4% para 69,7%. A dos 10 maiores, de 63,8% para 58%. O próprio Vale do Silício recuou de 27,3% para 24,5%. Esses dados constam do insight “The reemerging concentration problem” (Startup Genome, 7/out/2026).

Para o investidor brasileiro, essa leitura era confortável: sugeria que dava para capturar a próxima onda daqui, investindo apenas no que estava perto.

Porém, o relatório de 2026 da Startup Genome mostra o movimento contrário. Os 20 maiores ecossistemas voltaram a concentrar 75,4% do valor, exatamente o patamar de 2020. Os 10 maiores chegaram a 64,4%, acima do ponto de partida. E o Vale do Silício subiu para 28,3%, a maior fatia da série citada.

O motor dessa reversão é a inteligência artificial. O valor dos ecossistemas AI-native passou de US$1 trilhão em 2025, com alta de 507% desde 2020. Entre o segundo semestre de 2023 e 2025, a América do Norte recebeu 78% de todo o venture capital investido em startups AI-native no mundo. No mesmo período, de cada 100 startups AI-native criadas no mundo, 43 nasceram nos EUA. O Reino Unido, o país europeu mais próximo, respondeu por 9. Ou seja, os EUA criam quase metade das empresas e a região fica com quase todo o dinheiro.

A principal plataforma tecnológica desta década está sendo criada em pouquíssimos lugares, e quase todo o capital privado que a financia está num só.

E a China? O relatório da Startup Genome praticamente não fala do gigante país: Shenzhen aparece uma única vez, numa lista de polos que subiram no ranking. A China é hoje o outro grande polo de criação de IA no mundo, e esse silêncio não quer dizer que o movimento não esteja se fortificando por ali.

Segundo o AI Index 2026 de Stanford, a China produziu 30 modelos de IA relevantes no último ano, contra 15 no ano anterior (os EUA produziram 50). Em março de 2026, o melhor modelo chinês ficava apenas 2,7% atrás do melhor modelo americano no ranking de desempenho mais usado do setor. Em 2023, essa distância era de 17 a 31 pontos. A China lidera em volume de produção científica (23,2% das publicações mundiais em IA), em patentes de IA (69,7% dos pedidos) e em robótica industrial instalada (295 mil robôs, contra 34,2 mil nos EUA).

No quesito capital, os dois polos funcionam de formas completamente diferentes. Em 2025, o investimento privado em IA foi de US$285,9 bilhões nos EUA e de US$12,4 bilhões na China. O próprio relatório de Stanford avisa que esse número subestima o esforço chinês, porque boa parte dele passa por fundos estatais, que acumularam cerca de US$184 bilhões entre 2000 e 2023 e não aparecem nas bases de capital privado.

Há ainda uma barreira regulatória do lado americano. Desde janeiro de 2025, uma regra do Tesouro dos EUA proíbe investidores americanos de fazer certos investimentos em empresas chinesas de IA, semicondutores e computação quântica, e obriga a notificar outros. Em dezembro de 2025, o Congresso transformou essa regra em lei e ampliou seu alcance. Na prática, os gestores de venture capital americanos, que são o caminho natural do capital internacional para o early-stage, estão em grande parte impedidos de investir na IA chinesa.

O polo de inovação chinês é financiado pelo Estado e pelo capital doméstico, com pouca participação estrangeira e sob restrições geopolíticas dos dois lados. Em contrapartida, o polo americano é financiado por capital privado e está aberto a qualquer investidor que tenha acesso aos melhores gestores.

Há também um efeito indireto que vale acompanhar: a competição chinesa, sobretudo com modelos abertos e baratos, pressiona o custo da IA para baixo no mundo todo. Isso favorece as empresas que constroem aplicações sobre esses modelos, que é justamente a camada onde estão vários dos gestores com quem investimos.

A Startup Genome recorre ao trabalho de Josh Lerner, de Harvard, nos EUA, para explicar por que o valor das tecnologias de fronteira tende a ficar onde elas são criadas, e por que a concentração atual não deve se desfazer tão cedo. A pesquisa dele descreve três padrões das tecnologias de fronteira:

  • A criação começa concentrada – onde já estão o talento, o capital e os clientes que aceitam testar primeiro.
  • A adoção se espalha muito mais rápido do que a criação. Usar uma tecnologia é fácil de replicar em qualquer país. Saber construí-la, não.
  • Os polos pioneiros mantêm sua vantagem por 30 anos ou mais por que acumulam um conhecimento técnico que os outros demoram décadas para alcançar.

Esse padrão ajuda a entender três crises que acompanhei de perto, que não são iguais e que ensinam coisas diferentes.

A primeira é a bolha da internet, em 1999–2001. Foi a única das três que nasceu de exagero sobre uma tecnologia. A Nasdaq caiu cerca de 78% entre março de 2000 e outubro de 2002, as ações da Amazon perderam mais de 90% do valor e muita gente concluiu que a internet tinha sido exagero. Mas a adoção nunca parou. O valor de longo prazo da internet acabou concentrado num punhado de empresas americanas (Google, Amazon e, logo depois, Facebook), construídas exatamente no polo onde a tecnologia estava sendo criada. Conclusão: o tombo dos preços não foi um fracasso da tecnologia – e o valor ficou na origem.

As outras duas crises não foram causadas por tecnologia – e é por isso que ensinam outra coisa. Em 2008, o problema foi o crédito imobiliário. Em 2021–22, foi a alta dos juros, que derrubou os múltiplos das empresas de crescimento, as de software entre elas. Nos dois casos, investidores do mundo todo recuaram, inclusive as famílias brasileiras do venture capital por que passaram a perceber um risco maior.

Nos dois casos a onda seguinte estava nascendo nos EUA naquele exato momento. Airbnb (2008), Uber e WhatsApp (2009) foram fundados no meio da crise financeira e viraram a base da era do mobile. O ChatGPT foi lançado em novembro de 2022, no fundo da correção. A lição: a crise afasta o investidor justamente quando a próxima onda está sendo fundada, e ela é fundada na origem.

Hoje o mercado discute de novo se a IA é uma bolha. Essa é uma pergunta sobre preço. O dado da Startup Genome responde a outra pergunta, mais importante para quem investe com horizonte de dez anos: onde o valor está sendo criado. E a resposta é cada vez mais concentrada.

De acordo com a Startup Genome o risco não é deixar de adotar IA. É se tornar um “consumidor produtivo” de uma tecnologia cujos ativos valiosos pertencem a outros.

As empresas brasileiras vão aderir à IA, ganhar produtividade e  pagar por isso. Mas o equity das empresas que constroem essa tecnologia, que é onde o valor se acumula, está majoritariamente nos EUA. E o artigo acrescenta um ponto, citando o economista Daron Acemoglu: os ganhos da IA tendem a ir mais para o capital do que para o trabalho. Neste ciclo, ser dono do capital na origem pesa mais do que nos anteriores.

É exatamente a distorção que me levou a criar a Nido – gestora de Venture Capital estratégica que conecta as famílias brasileiras à economia de inovação. Em 2023, fui entender por que as famílias que acompanho há quase duas décadas tinham mais de 90% da sua alocação em venture capital em ativos brasileiros e zero exposição ao early-stage americano. A razão não era convicção, era acesso.

O custo dessa distorção cresce a cada ciclo. As plataformas tecnológicas costumam chegar ao Brasil de três a cinco anos depois dos EUA. Quem espera por elas aqui investe na adoção, não na criação. Pela nossa estimativa, baseada na comparação histórica entre o valor capturado por quem cria as plataformas e o valor capturado por quem as adota, a parcela do valor que fica com quem cria foi de cerca de 55% no ciclo de SaaS, cloud e mobile. No ciclo da IA, deve chegar a 75%. Na convergência de plataformas que vem a seguir, pode passar de 85%.

Investir só no Brasil é olhar o futuro pelo retrovisor: o investidor captura o eco da criação de valor, nunca a fonte.

Se os polos pioneiros mantêm a vantagem por décadas, alguém poderia concluir que não há pressa. É o raciocínio inverso. A vantagem do polo é duradoura, mas a janela de entrada nas empresas que vão capturar esse valor é curta, porque elas estão sendo fundadas agora. Depois que se tornam consenso, chegam ao investidor brasileiro via fundos gigantes ou já na bolsa, com o preço já refletindo boa parte da criação de valor. A própria Startup Genome conclui que a janela para capturar uma parte relevante da criação de IA “pode ser mais curta do que se imagina”.

A vantagem estrutural do polo dura décadas, mas o preço de entrada nas empresas que vão materializar essa vantagem sobe rapidamente assim que elas deixam de ser early-stage e passam a ser consenso. 

Até aqui, o argumento foi seguir a concentração e ir para onde o valor da IA está sendo criado. Dentro do venture americano, no entanto, a lógica se inverte. O capital dos investidores está se concentrando num punhado de gestoras gigantes, e é justamente aí que o retorno tende a ser menor. Para o investidor, a vantagem está no lado escasso dessa equação.

No primeiro semestre de 2026, três gestoras (a16z, Thrive e Founders Fund) captaram 48,1% de todo o capital de venture levantado nos EUA. Em 2024, eram necessárias nove gestoras para chegar a metade. Ao mesmo tempo, o lançamento de fundos de primeira geração caminha para o menor nível desde 2016.

Só que o retorno não acompanha o capital. O estudo do Colibrí Institute, com 2.471 fundos americanos (safras de 2000 a 2024), mostra que gestores emergentes superam os demais em 7,2 pontos percentuais de TIR ao ano, vantagem que sobe para cerca de 14 pontos quando vários critérios de emergência se combinam. Eles estão em 72% dos fundos de quartil superior e recebem só 16% do capital.

Por isso, para a família brasileira, há duas decisões separadas, que seguem lógicas opostas:

  1. Onde investir: seguir a concentração. Nos EUA, porque é lá que o valor da IA está sendo criado.
  2. Com quem investir: ir para onde o capital é escasso. Com gestores menores, de tese e originação diferenciadas, que disputam menos capital e por isso negociam melhores condições de entrada e têm maior probabilidade de estar no quartil superior de retorno.

Nada disso significa virar as costas para o Brasil. Pela lógica de Lerner, a adoção se espalha rápido, e a onda de IA vai chegar às empresas brasileiras. Haverá boas oportunidades aqui. A questão é saber reconhecê-las.

Os gestores com quem investimos repetem lições que ainda não chegaram ao mercado brasileiro. A Mighty Capital diz que software deixou de ser defensável por si só: com IA, construir ficou mais rápido e mais barato, e a proteção do negócio passa a vir de dados proprietários, efeitos de rede e credibilidade. A Chamaeleon diz que boa parte do que o mercado chama de “startup de IA” é uma interface sobre o ChatGPT e que o valor está nas camadas técnicas difíceis de construir e copiar. Quem acompanha essas conversas enxerga o que acontece no Brasil com um filtro calibrado e sabe diferenciar quem está construindo algo de quem está só “vestindo a roupa da IA” ou “embrulhando para presente”.

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