*Por Rapha Avellar, CEO e fundador do Creator Ads
Durante décadas, nos acostumamos a olhar para os Estados Unidos como o lugar onde nascem as grandes transformações da publicidade e da tecnologia. As plataformas são criadas lá, os modelos de negócio são desenvolvidos lá e, algum tempo depois, essas inovações chegam ao Brasil.
Na Creator Economy, acredito que estamos diante de uma oportunidade de inverter essa lógica. O Brasil tem condições de se tornar um dos principais polos globais de inovação em uma indústria que está redesenhando a relação entre marcas, conteúdo e consumidores.
E não apenas porque somos um país com muito consumo e produção de influenciadores. Nossa vantagem está na combinação entre uma cultura profundamente conectada, um mercado publicitário sofisticado e a capacidade de desenvolver soluções para desafios que outros países ainda estão começando a enfrentar.
Segundo o relatório Digital 2026, da DataReportal, o Brasil reúne 150 milhões de identidades ativas nas redes sociais, o equivalente a mais de 70% da população. O alcance publicitário do Instagram chega a 147 milhões de usuários. Estamos falando de um mercado em que a influência digital se tornou parte da maneira como as pessoas descobrem produtos, consomem informações e tomam decisões.
Mas tamanho de audiência, por si só, não produz inovação. O que torna o Brasil especialmente interessante é o que aconteceu a partir dessa escala.
Em um país de enorme diversidade cultural, regional e socioeconômica, marcas descobriram que não existe uma única linguagem capaz de alcançar milhões de consumidores com a mesma relevância. A resposta passou a estar em milhares de criadores, comunidades e narrativas diferentes. Essa complexidade criou um laboratório fértil para o desenvolvimento de novas formas de identificar talentos, produzir conteúdo, distribuir investimentos e medir resultados.
É justamente nessa transição que vejo nossa maior oportunidade. Durante muito tempo, o avanço da Creator Economy foi medido pelo crescimento do número de influenciadores e pelo tamanho de suas audiências. Agora, o desafio é transformar essa criatividade distribuída em uma estrutura de mídia capaz de operar com eficiência, previsibilidade e escala.
O Goldman Sachs estimou que a Creator Economy global poderá movimentar US$ 480 bilhões até 2027. Nos Estados Unidos, o Interactive Advertising Bureau estimou investimentos publicitários de US$ 37 bilhões em creators em 2025, crescimento de 26% em relação ao ano anterior.
Com mais dinheiro entrando nesse mercado, aumenta também a pressão por profissionalização, mensuração e tecnologia. Não basta encontrar bons criadores. É necessário entender quais conteúdos funcionam, para quais públicos e com quais resultados. É preciso integrar criatividade e mídia paga, garantir segurança para as marcas e fazer tudo isso sem eliminar a autenticidade que torna os creators relevantes.
O Brasil tem uma vantagem importante nessa corrida: muitos desses desafios já fazem parte da realidade das nossas empresas há anos. A necessidade de trabalhar com grandes volumes de criadores, diferentes audiências e operações complexas estimulou o desenvolvimento de soluções baseadas em dados, inteligência artificial e automação.
Essa percepção ficou ainda mais clara para mim ao acompanhar nossa expansão para os Estados Unidos e o México. Parte desse movimento nasceu de conversas com clientes multinacionais que buscavam levar a outros mercados o mesmo nível de tecnologia e capacidade operacional que encontravam no Brasil. Foi uma inversão interessante de perspectiva: em vez de importar soluções desenvolvidas fora, passamos a encontrar demanda internacional por capacidades construídas aqui.
É evidente que os Estados Unidos continuam liderando boa parte do desenvolvimento das plataformas e concentram investimentos expressivos em tecnologia. Mas a próxima fase da Creator Economy não será definida apenas por quem controla as redes sociais. Também será definida por quem conseguir construir a infraestrutura necessária para transformar essas plataformas em canais de negócio mais eficientes.
Para assumir esse protagonismo, precisamos mudar a maneira como enxergamos nossa própria indústria. Temos o hábito de celebrar o alcance dos criadores brasileiros e sua capacidade de mobilizar comunidades. Tudo isso é importante, mas representa apenas uma parte da oportunidade econômica.
O próximo passo é reconhecer que podemos exportar muito mais do que conteúdo e talentos. Podemos exportar tecnologia, inteligência e novos modelos de operação para uma indústria que ainda está definindo seus padrões globais.
O Brasil já provou que sabe criar uma das culturas digitais mais vibrantes do mundo. Agora, temos a oportunidade de mostrar que também sabemos desenvolver a tecnologia que vai sustentar seu futuro.
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