Forma de usuários interagirem com o app do banco está mudando | Imagem: Canva

*Por Bruno Loiola, co-fundador da Pluggy

A Money20/20 é um dos principais eventos de tecnologia financeira do mundo. Sua edição do Oriente Médio, em Riad, na Arábia Saudita, é a de maior público, com quase 40 mil pessoas de 40 países. Estive ali como convidado em dois painéis há alguns dias. Quando identificavam um brasileiro, a conversa rumava para Pix e Open Finance. Com 80 bilhões de transações no sistema de pagamentos em 2025 e mais de 100 milhões de clientes conectados via compartilhamento de dados, o Brasil virou case. O mais interessante, porém, é sobre o que precisamos evoluir. E aí são quatro movimentos.

O primeiro deles é que, em Riad, ficou evidente como o aplicativo do banco tem perdido valor de destino. O termo Embedded Finance, a integração de serviços financeiros em diferentes plataformas, não é novidade. Um dos autores mais reconhecidos em finanças digitais, Brett King antecipou a tendência em 2018, em livro cujo título significa algo como “Banco em todo lugar, nunca no banco”.     

Hoje, a empresa que controla a experiência não precisa ser a que mantém a custódia dos recursos. Assim, quem melhor dialoga com o cliente tende a capturar mais valor do que quem guarda dinheiro. No Brasil, a Magie, banco no Whatsapp, foi pioneira nisso e a iniciação de pagamentos se tornou possível em diversas plataformas e canais.

Se o app do banco deixa de ser destino, alguém ocupa seu lugar. No caso, o agente, que compara taxas, serviços e facilidades 24 horas por dia e apresenta alternativas ao cliente. Parte relevante do lucro em serviços financeiros sempre veio de atrito. Agora, decisões que podiam levar meses podem ser tomadas em horas, sem fricção. A questão que surge, todavia, é: quem responde pelas transações quando executadas autonomamente pelos agentes? No Brasil, ainda falta uma resposta jurídica adequada.

O segundo movimento é aquele no qual a identidade digital passa a incluir autorização. Com agentes de IA capazes de executar ações em nosso nome, essa identidade está ganhando uma nova função. Além de comprovar quem somos, precisa demonstrar o que esses agentes estão autorizados a fazer, em nome de quem e até que limite. Países como Índia e Singapura já construíram identidades digitais amplamente utilizadas.

O Brasil tem o gov.br, com 175 milhões de usuários, que funciona para comprovar quem somos no acesso a serviços. Ainda não é uma carteira digital que permita ao usuário apresentar credenciais verificáveis a diferentes instituições. E nisso é necessário evoluirmos, enquanto cada instituição financeira continua com processos próprios de identificação do cliente (KYC).

Há, porém, uma vantagem: revogar consentimentos para uso de dados, um dos desafios dos protocolos globais para agentes, faz parte do Open Finance brasileiro desde o dia 1.

O terceiro movimento sugere que mais dados ampliam, mas também podem complicar o crédito. A Índia digitalizou e expandiu o empréstimo com garantia de ouro. No Brasil, o Crédito do Trabalhador destravou R$ 117 bilhões em um ano. Só que ampliar a disponibilidade de dados não basta. Estudo da associação de empresas de tecnologia e serviços financeiros Zetta mostrou que 61,5% das consultas de Open Finance no Brasil são desperdício.

Isso porque, no modelo atual, as instituições receptoras de dados precisam consultar periodicamente as transmissoras para descobrir se os dados do cliente foram atualizados. Como só sabem se houve mudança depois da consulta, em 61,5% das vezes recebem as mesmas informações que já tinham. Essa ineficiência na circulação é apenas parte do problema, também é preciso medir o resultado.

A Índia publica quanto crédito nasceu do compartilhamento. Nós, com mais consentimentos, não medimos esse indicador. Além disso, quando o modelo considera dezenas de variáveis, uma pessoa passa a ter maior dificuldade de entender e contestar uma decisão automática de inelegibilidade ao crédito.

O quarto movimento tem a ver com ciclo de consulta pública brasileiro, que está ultrapassado.O SAMA, banco central saudita, criou incentivos para atrair fintechs e aproximar tecnologia e regulador. No Brasil, o Banco Central firmou cooperação com a Federação Nacional de Associações dos Servidores do Banco Central (Fenasbac) para viabilizar o Laboratório de Inovações Financeiras e Tecnológicas (LIFT) e se aproximar do mercado na velocidade que o ritmo do governo não proporciona.

Nosso instrumento, porém, continua sendo o ciclo de consulta pública, análise e norma, desenhado para um mundo em que regra e produto mudavam em anos. E se a política pública financeira tivesse loops mais curtos de feedback, com métrica pública e revisão programada? Não é menos rigor, mas usar com maior agilidade evidências sobre o que funciona e o que precisa ser ajustado. Voltei de Riad com a impressão de que tecnologia virou commodity. Qualquer um contrata a mesma nuvem e o mesmo modelo. A disputa é que mudou de lugar, migrando para algumas questões: quem controla a experiência quando o produto financeiro chega via diferentes canais? Quem define permissões quando quem age não é humano? Quem responde quando o sistema erra? No Brasil, temos trilho, consentimento, revogação e escala. Quando a experiência se separa da custódia, porém, quem lidera a corrida define as regras para quem chega depois.

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