Junho de 1940. A França desmorona em poucas semanas sob a blitzkrieg alemã. O governo capitula, o armistício é assinado, e o país parece afundar definitivamente no desespero e na desonra. É nesse cenário de colapso absoluto que um general quase desconhecido do público, recém-nomeado subsecretário de Estado, toma um avião rumo a Londres. Sozinho, sem tropas, sem partido, sem dinheiro e sem legitimidade institucional reconhecida, Charles de Gaulle decide recusar a derrota. Em 18 de junho, pelos microfones da BBC, lança um apelo que mudaria o curso da história: “a chama da resistência francesa não deve se apagar e não se apagará”. Semanas depois, cartazes espalhados por Londres resumiriam sua convicção numa frase que ficou célebre: “a França perdeu uma batalha, mas não perdeu a guerra”. É essa história extraordinária que Antonin Baudry conta em A França Livre, um díptico de mais de cinco horas e um dos maiores orçamentos da história do cinema francês, com mais de cinco milhões de ingressos vendidos na França. O filme chegou ao Brasil no Festival de Cinema Francês, em mais de 50 cidades. A França Livre não é apenas uma cinebiografia de época: é um soco no estômago do nosso presente. O filme relata a luta titânica desse homem para se impor como a voz legítima da República perante os Aliados, em especial diante de um Roosevelt desconfiado, que teria preferido um interlocutor mais dócil aos interesses americanos, e de um Winston Churchill muitas vezes ambíguo, dividido entre a aliança estratégica e os interesses britânicos. Mostra também seu esforço para ser reconhecido pela Resistência que lutava, dentro da França, contra a ocupação nazista. No imaginário global, a resistência contra o Eixo costuma se resumir à figura colossal de Churchill. Mas a façanha de Charles de Gaulle tem uma dimensão ainda mais vertiginosa e romântica. Churchill liderava uma ilha intacta, respaldada por um império mundial; de Gaulle precisava reconstruir um Estado vencido, ocupado e colaboracionista. O que torna de Gaulle uma figura singular é essa combinação de realismo e romantismo. Romântico o suficiente para acreditar numa França que já não existia concretamente, e realista o suficiente para compreender que, para fazê-la voltar a existir, seria preciso enfrentar os fatos, negociar, convencer, resistir e, muitas vezes, suportar a solidão. Ele convenceu o mundo de que a França continuava soberana, operando o milagre político de tirar o país derrotado em 1940 do campo dos vencidos para colocá-lo, em 1945, entre os vencedores: presente na capitulação alemã e com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Sua força residia numa retidão moral incorruptível e na recusa absoluta da vassalagem.  Isso não foi obra de um único homem. Foi também o resultado da Resistência, dos combatentes da França Livre, dos soldados aliados e de milhares de homens e mulheres que recusaram a submissão. Mas de Gaulle teve a visão e a obstinação de transformar a resistência num projeto político nacional. Assistir a essa obra hoje provoca uma reflexão melancólica e urgente. É impossível não medir a distância entre líderes da têmpera de um de Gaulle ou Churchill e tantos dirigentes contemporâneos, presos ao curto prazo das disputas eleitorais. Falta-lhes muitas vezes a coragem de desagradar para construir, a audácia de olhar longe e a capacidade de inspirar uma ambição coletiva. De Gaulle não era um homem sem contradições, e sua visão política não deve ser aceita sem questionamento. Mas sua história nos lembra que uma nação depende, às vezes, da obstinação de uma única consciência quando tudo parece perdido. Por isso vale a pena assistir a este filme. Não apenas para conhecer melhor um dos personagens mais extraordinários do século XX, mas para redescobrir o que é a política quando ela se eleva à altura da tragédia humana. A França Livre é, no fundo, um filme sobre isso. E talvez seja justamente por isso que sua história ultrapassa as fronteiras da França e fala a todos os países que ainda procuram uma visão capaz de transformar a memória do passado em ambição para o futuro. Olivier Colas é empresário.