No Bad Memories, do The Avalanches, é um dos melhores discos de 2026 | Foto: reprodução

A gente gosta de pensar na tecnologia como algo sempre em movimento, em que a próxima e mais avançada novidade sempre vai ser melhor. Nesse caminho, na maioria das vezes a gente esquece toda a inovação que ficou para trás, como se o obsoleto perdesse o valor e virasse, basicamente, lixo. Em seu novo álbum, No Bad Memories, o The Avalanches usa a sua música para colocar essa noção em xeque.

Olhando de forma objetiva, a gente sabe que tecnologias passadas não têm o mesmo valor. Nunca que a Sony Cybershot de 5 megapixels que você tinha em 2007 vai ter a mesma qualidade de foto que o seu celular tem hoje. Entretanto, essa câmera pode ter sido a testemunha ocular de alguns dos momentos mais importantes da sua vida. Você pode ter se esquecido disso, mas essa tecnologia hoje “inútil” também carrega emoções – no caso, as suas, em um determinado momento.

É com essa ideia que No Bad Memories trabalha. Usando seu talento já conhecido para cortar e recortar samples e transformá-los em faixas às vezes contemplativas, às vezes extremamente dançantes, o The Avalanches apela para a nostalgia de momentos passados da nossa vida, filtrada pelos circuitos hoje enferrujados das tecnologias que não usamos mais.

Antes de seguir, vale trazer aqui um pouco de contexto: para quem não conhece, o The Avalanches é uma dupla australiana de DJs com mais de 25 anos de carreira, que fez fama ao construir músicas basicamente em cima de pilhas e pilhas de samples obscuros. Em média, seus discos têm mais de mil samples.

Em No Bad Memories, não é diferente: são ruídos de modem discado, sons de sistemas operacionais que não são mais atualizados, vinhetas televisivas de 25 anos atrás e muito mais, orquestrados ao lado de samples de soul music, samba, house, hip-hop e outros gêneros, ao longo de 52 minutos e 31 faixas, algumas com menos de 1 minuto. É algo que, em uma audição mais distraída, pode parecer uma tremenda de uma colcha de retalhos, mas que, com a atenção devida, pode ser mais revelador do que você imagina.

Assim como o The Avalanches já fez em outros álbuns, como Since I Left You (uma obra-prima composta com base em 3,5 mil samples), a música eletrônica aqui é menos um instrumento para evocar somente uma resposta física (no caso, dançar) do que para despertar sentimentos.

Em muitas faixas de No Bad Memories, a ideia é fazer as duas coisas ao mesmo tempo, mesmo que você não perceba. Uma das melhores do disco, “Blue Shadows” (com os vocais de Karen O, dos Yeah Yeah Yeahs), é um exemplo disso: uma batida sutil, mas que envolve como um abraço, combinada a um refrão soul de arrepiar. É pra dançar miudinho de olhos fechados, arrepiado.

“All the Time in the World”, cantada pelo vocalista do Weezer, Rivers Cuomo, tem uma batida house mais proeminente, com uma cama de sintetizadores etéreos que dão uma pegada quase psicodélica à faixa. Em sua segunda metade, ela ainda reserva um momento de rara beleza, ao combinar uma virada melódica com o sample de “Pra Que Chorar”, composição de Baden Powell e Vinicius de Moraes, na voz do grupo Os Cariocas. É de encher os olhos d’água.

Contudo, a nostalgia à qual No Bad Memories convida o ouvinte não é só a de tecnologias não tão antigas, como o PC ou o iPod, como sugere a fofinha capa do álbum. Samples de programas televisivos remetem à infância, àqueles tempos simples em que ficávamos na frente da TV de tubo vendo desenho animado sem muita preocupação com a vida. Pode ser um sentimento mais millennial da minha parte, mas foi impossível não me emocionar com essa proposta na dobradinha de “Watch Out! It’s Cloudy” com “Highfield”, com os vocais de Panda Bear.

Sei que tô falando demais sobre como No Bad Memories te faz sentir, mas, se a sua dúvida é se dá para dançar, sugiro apenas dar o play na PEDRADA “Vida”, com a participação do rapper Eric the Architect. É uma mistura maluca de samba – com um sample de um naipe de sopros furioso e os apitos de Mestre Jorjão – com um baixão funk suingado e uns tecladinhos safados. É o tipo de combinação com a cara do The Avalanches, que bate nas ancas e deixa o ouvinte sem defesa.

“Can’t Get Over You” é outra faixa megadançante, mas com uma proposta totalmente diferente: cantada por Portraits of Tracy, é a que mais se assemelha a uma canção pop atual e, ainda assim, surpreende com suas escolhas de samples de coros gospel e orquestrações que enchem os ouvidos. “I’ve Give Everything I Have to U” também é um espetáculo, entrando e saindo de um sample de soul dos anos 60 e combinando com uma batida house eletrizante. E sim, é o Haley Joel Osment (o menino de O Sexto Sentido, no videoclipe abaixo).

Passeando pelas faixas de No Bad Memories, dá para perceber que talvez seja limitado categorizar o The Avalanches como um duo eletrônico. Mais do que apertadores de botão, eles são artistas pop, capazes de transitar por inúmeras influências em curtos espaços de tempo. É basicamente música para quem gosta de todo tipo de música, do house ao funk ao rock ao soul ao samba ao hip-hop e muito mais.

O maior atestado disso está no fechamento do disco. “The Pavements Light” convida o lendário compositor japonês Haruomi Hosono para uma homenagem reflexiva ao igualmente lendário Ryuichi Sakamoto, colega de Hosono na Yellow Magic Orchestra, grupo japonês que foi um dos pioneiros da música eletrônica, lá nos anos 70. No fim, a mensagem é clara: não tem como celebrar o futuro sem entender e honrar o passado.

O valor do obsoleto

Como o próprio nome do disco sugere, No Bad Memories cumpre um papel quase subversivo nos tempos de hoje. Enquanto estamos por aqui cada vez mais afoitos pela tecnologia mais avançada ou pela IA mais inteligente que torne nossa vida “melhor”, o álbum nos provoca a pensar em como toda tecnologia que experimentamos teve não apenas uma função prática, mas também foi conduíte da nossa formação de vida. E melhor: que tudo isso é bom.

No mundo do The Avalanches, a tecnologia que você viveu no passado continua incrível, porque ela te fez feliz. Quando você se lembra dela, ela ainda te faz feliz. Até fui pegar meu iPod Classic na gaveta, e uma porrada de lembranças boas veio com ele. Não posso dizer o mesmo sobre minha conta do Spotify.

Ao mesmo tempo que é nostálgico, o disco nos convida a presenciar o momento, a sentir. Chega a ser um paradoxo: o The Avalanches usa computadores e a música eletrônica para gerar os efeitos mais humanos possíveis.

No fim das contas, ficar analisando demais só atrapalha quando o que você precisa é viver a experiência por si mesmo. Dito isso, No Bad Memories é simplesmente um álbum incrível, um dos melhores de 2026 e uma audição para deixar qualquer um com um sorriso de orelha a orelha. Em tempos como os de hoje, talvez o que a gente mais precise seja um bom feel good record. Ainda bem que o The Avalanches chegou na hora certa.

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