O diagnóstico mais comum sobre inteligência artificial na saúde é que o setor resiste. Hospital é conservador, médico desconfia, dado é sensível. Num painel da Semana Caldeira, em Porto Alegre, Rafael Kellerman, sócio da Apus Capital, ofereceu uma explicação menos confortável.
“Sou um pouco contra o senso de que é difícil implementar, que há resistência nos hospitais, apesar de eu encontrar muita resistência”, disse. “Sabe o que falta, fundamentalmente? Muitas vezes o que falta são bons produtos”, dispara.
A provocação vem de um executivo cuja empresa tem boa parte de seu dinheiro no setor. A Apus Capital é a holding de investimentos de Maurício Barbosa, cofundador da Bionexo, criada em 2019 justamente para ampliar as apostas no cruzamento entre saúde e tecnologia. Além da Bionexo, o portfólio tem nomes como Pipo Saúde, Flow Clinic, Imunosafe e Folks, além da participação no 645 Ventures, especializado em healthtechs.
Para ele, qualidade não é só o que a ferramenta entrega no fim, mas toda a jornada. “Quantas soluções são propostas para hospital, para clínica, para médico, que são difíceis de implementar, difíceis de treinar o médico, que não são intuitivas, que são cheias de controle?”
Luiz Antonio Nasi, superintendente médico do Hospital Moinhos de Vento, não nega a resistência, e a atribui a outra coisa. “A grande maioria das pessoas que fazem a gestão dos hospitais tem medo”, afirmou. Em complemento ao médico, Rafael admite que a régua é mais alta do que em outros setores. “Tem setores da economia em que 95% de acerto não é suficiente. Saúde é um deles, assim como aviação ou finanças.”
Quebrando barreiras
Entretanto, para o investidor da Apus, existem maneiras de quebrar essa resistência. “A barreira é quebrada pela própria necessidade do produto”, afirmou.
O exemplo que ele dá é até constrangedor para o setor: hospitais hoje precisam brigar para que médicos não joguem prontuário no ChatGPT, porque a ferramenta é boa demais em analisar, sumarizar e dar insights. A reação de parte das instituições e dos fornecedores de software tem sido trazer os modelos da Anthropic e da OpenAI para dentro da própria solução.
Para ilustrar essa estratégia “de fora para dentro”, Kellerman citou o Slack, que cresceu conquistando times internos com produto gratuito até a corporação não ter escolha. “Quando se torna uma ferramenta essencial para aquela prática, já não tem como ignorar. A implantação deixa de ser um bloqueio.”
No Brasil, a Voa Health é um exemplo de quem seguiu exatamente essa cartilha. A healthtech investida da Prosus nasceu focada como um assistente para o médico individual, aquele que atende em consultório próprio e faz plantão, e hoje passa de 100 mil usuários cadastrados na plataforma. Foi essa base que abriu a porta das instituições: a empresa já soma cerca de 17 contratos com operadoras de saúde e cooperativas médicas, e espera que o segmento responda por 30% a 40% da receita em 2026.
Segundo Rafael, o ritmo também mudou: empresas de saúde digital historicamente levavam dez anos para chegar a US$ 100 milhões de receita, e as mais rápidas, cinco. Agora, healthtechs AI-native estão fazendo o mesmo percurso em 18 meses, superando em muito a velocidade dos operadores tradicionais do setor. A OpenEvidence, buscador médico com IA, saiu de menos de US$ 8 milhões em receita anualizada em 2024 para mais de US$ 150 milhões em 2025. A Abridge, de documentação clínica automatizada, cruzou os US$ 100 milhões de receita recorrente em pouco mais de um ano e hoje vale US$ 5,3 bilhões. “Em saúde, isso nunca aconteceu.”
Por fim, Rafael frisa que nada disso se constrói de longe. “A gente tem que cruzar a rua, ir lá no Mãe de Deus, passar uns dias no Moinhos de Vento, na Santa Casa de Porto Alegre”, disse. “A IA habilita criar produtos muito bons, muito fáceis de serem incorporados — desde que quem esteja construindo saiba onde dói.”
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