Cidade de Pequim, na China | Foto: Canva

*Por Vinícius Cordoni, fundador e co-CEO da VCRP

Acabo de voltar da China em uma imersão transformadora. Antes do embarque, fomos em um grupo de 60 executivos e executivas, o debate era se fazia sentido comparar as “escolas tecnológicas” do Vale do Silício e da China. Brasileiro tem mania de querer comparar tudo, né?

Após visitar incubadoras, parques tecnológicos, startups, laboratórios de IA e empresas em três cidades chinesas, saí com uma impressão que desafia a narrativa mais comum sobre inovação no país e que mostrava que essa comparação não era tão correta a se fazer.

O avanço chinês em inteligência artificial não parece ser resultado de uma única empresa, de um modelo revolucionário ou de um fundador genial. O que existe é um ecossistema desenhado para transformar pesquisa em negócio numa velocidade difícil de encontrar em qualquer outro lugar do mundo.

No Ocidente, a inteligência artificial costuma ser analisada sob a ótica das empresas. Na China, ela é tratada como estratégia nacional.

Essa diferença ficou evidente em Zhongguancun, o principal polo de inovação tecnológica de Pequim. A região concentra algumas das melhores universidades do país e abriga parques tecnológicos como a TusPark, ligada à Universidade de Tsinghua. Mais do que imóveis corporativos, esses espaços funcionam como pontes entre pesquisa, capital e mercado. E eu tive a oportunidade de conferir de perto. 

A TusStar, braço de incubação do grupo, afirma ter apoiado mais de 20 mil projetos e desenvolvido uma rede internacional presente em diversos países. O modelo é simples na teoria e poderoso na prática: ajudar pesquisadores a se tornarem empreendedores e reduzir os obstáculos que normalmente separam uma boa ideia de uma empresa escalável. Mas o aspecto mais interessante está na forma como o capital é mobilizado.

A China desenvolveu ao longo dos anos uma estrutura de fundos de orientação governamental, uma espécie de venture capital apoiado pelo Estado. O objetivo não é substituir investidores privados, mas sinalizar prioridades e acelerar mercados considerados críticos para o futuro. O resultado aparece na prática.

Na SenseTime, uma das principais empresas chinesas de IA, a discussão já não gira em torno de chatbots ou geração de texto. O foco está em aplicações industriais, cidades inteligentes, saúde e visão computacional. Em uma demonstração que assisti, sistemas de IA reduziram uma inspeção ferroviária que levaria anos para poucos dias. O próximo passo parece ser ainda mais ambicioso: a transição da IA digital para o mundo físico.

Empresas de robótica estão coletando dados de movimentos humanos em fábricas, restaurantes, hospitais e fazendas para treinar humanoides. A ambição é criar, para os robôs, algo semelhante ao que as lojas de aplicativos fizeram pelos smartphones. Talvez essa seja a principal diferença entre China e Ocidente neste momento.

Enquanto boa parte do mundo ainda debate o potencial da inteligência artificial, a China está construindo os mecanismos necessários para escalar a tecnologia: universidades, fundos, startups, infraestrutura computacional e aplicações reais.

A impressão ao final da viagem é que o país não está apenas desenvolvendo modelos de IA. Está desenvolvendo uma máquina de produzir inovação.

O post Na China, a discussão já é sobre  usabilidade da IA no mundo físico apareceu primeiro em Startups.