Podcast Inteligência de Dados | Arte: Startups

À medida que a inteligência artificial passa a ocupar mais espaço na busca por informação, produção de conteúdo e análise de dados, cresce também a discussão sobre o papel que essas ferramentas terão nas eleições. Para o cientista político e jornalista de dados Fábio Vasconcellos, professor da UERJ e da PUC-Rio, o desafio é definir até onde a tecnologia pode ser usada sem interferir indevidamente nas escolhas dos eleitores.

“O Brasil, aliás, o mundo, vai ter que pensar qual o lugar dessa ferramenta e que tipo de usos a gente pode fazer dela sem que ela interfira na cidadania. Mas que ela possa ser também um atalho de informação, por que não?”, afirmou ele no podcast Inteligência de Dados, produzido pelo Startups em parceria com o Canal21.

A discussão ganha peso diante da proximidade das Eleições 2026, marcadas para 4 de outubro. No pleito, os brasileiros escolherão presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais. Um eventual segundo turno para presidente e governadores será realizado em 25 de outubro.

Para o cientista político, a IA pode funcionar como um “atalho cognitivo” para um eleitor que não acompanha o cotidiano da política. A ferramenta consegue reduzir o esforço necessário para encontrar e processar informações, mas justamente por apresentar respostas rápidas e assertivas pode também influenciar a maneira como o usuário interpreta candidatos e propostas.

“Hoje, as IAs não podem recomendar voto. Mas dependendo de como você cria o prompt, seria possível obter respostas que, de alguma forma, te aproximariam da sua decisão eleitoral”, observa.

Match Eleitoral

As dúvidas sobre em qual candidato votar costumam ser maiores quando se trata de escolher quem vai ocupar os cargos do Legislativo, ou seja, deputados e senadores. Para ajudar os indecisos, o professor está desenvolvendo um aplicativo de Match Eleitoral, que reúne votações realizadas entre 2023 e 2026 e permite que o usuário responda às mesmas questões enfrentadas pelos parlamentares.

A ferramenta foi criada no âmbito do pós-doutorado de Fábio no INCT ReDem, o laboratório de Representação e Legitimidade Democrática da Universidade Federal do Paraná. Na versão mais recente, o app passou a incluir votações do Senado, além da Câmara dos Deputados. Entre os temas estão apostas esportivas, escala 6×1 e isenção do Imposto de Renda.

O funcionamento é simples: o usuário responde como votaria em determinadas questões e o algoritmo compara suas respostas com os votos dos parlamentares. Ao final, apresenta o grau de afinidade com os deputados e senadores.

“A ferramenta não recomenda voto. Ela simplesmente mostra como cada candidato votou e você consegue ver se é igual a você. Você poderia fazer isso manualmente”, pondera.

O papel do senso crítico

Para Fábio, a popularização da IA não elimina a necessidade de conhecimento humano. Ao contrário, aumenta a importância do senso crítico para avaliar as respostas produzidas pelas ferramentas. “Pensar criticamente é pensar em perspectiva, pensar em contexto”, observa.

Na avaliação do professor, o desafio para escolas e universidades não é simplesmente proibir o uso de IA, mas ensinar estudantes a compreender como as ferramentas funcionam e quais são suas limitações. A mesma lógica, segundo ele, vale para o uso da tecnologia em empresas, campanhas políticas e no consumo de informação.

O tema também chega ao jornalismo. Fábio observa que os sistemas de IA passaram a entregar respostas diretamente aos usuários, reduzindo a necessidade de clicar nos links das reportagens. Ao mesmo tempo, argumenta que modelos precisam de fontes confiáveis para reduzir erros e alucinações.

“A IA perde se tiver muita alucinação. Como é que ela não vai ter alucinação? Se a fonte de treinamento for boa. Quem é que tem a fonte que passou por validação humana? Jornalismo, meio científico. Então você precisa financiar isso para o seu modelo também melhorar. Tem um ganha-ganha aqui que pode ser discutido”, diz.

O Inteligência de Dados é gravado no Zoox Studio, no Leblon, no Rio de Janeiro, com apoio de Startups, Canal 21, Zoox Smart Data e Instituto 12. A conversa foi conduzida por William Passos, fundador do Canal 21, e Stephanie Tondo, editora do Startups.

O episódio completo está disponível nos canais do Startups no YouTube e Spotify.

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