A Mombak, uma startup especializada em créditos de carbono a partir da restauração de áreas degradadas na Amazônia, disse que fez o primeiro closing de seu segundo fundo, que busca captar US$ 150 milhões.
A empresa não divulgou o nome do investidor nem o montante captado.
O novo fundo acaba de contrair também uma linha de crédito de R$ 200 milhões (ou cerca de US$ 40 milhões) junto ai BNDES, com juros de 2,3% ao ano.
O segundo veículo nasce cinco anos depois da criação da Mombak — fundada por Peter Fernandez, o ex-CEO da 99, e Gabriel Haddad Silva, o ex-CFO do Nubank — e incorpora os aprendizados acumulados na primeira operação.
O primeiro fundo levantou US$ 120 milhões, financiou a restauração de 27 mil hectares no Pará e fez o plantio de quase 15 milhões de árvores de mais de 100 espécies.
Agora a companhia pretende ampliar a escala e, principalmente, aumentar a produtividade por hectare e a previsibilidade da geração de créditos.
“Ao longo de cinco anos, a gente estruturou a operação, captou o primeiro fundo, comprou ou fechou parcerias com 15 fazendas, assinou offtakes com os maiores compradores. E, agora, começamos a entregar. Recentemente anunciamos a entrega dos créditos e a venda desses créditos no mercado spot,” Gabriel Haddad Silva, fundador e CEO da Mombak, disse ao Brazil Journal.
Em julho, a Mombak fez sua primeira emissão de créditos de remoção de carbono de projetos de reflorestamento sob o protocolo da Isometric, uma certificadora britânica, e entregou créditos a compradores como Google, McKinsey, Bain, McLaren Racing e Union Square Ventures.
As entregas ocorreram mais de dois anos antes do prazo previsto em alguns contratos. A Mombak espera emitir cerca de 80 mil toneladas de créditos ainda em 2026, levando o total do ano para mais de 100 mil toneladas.
A construção desse histórico também mudou a relação da startup com os investidores. Se, no primeiro fundo, a empresa precisava convencer o mercado sobre uma tese ainda pouco testada, agora tem dados de execução para apresentar.
A própria estratégia de captação mudou: encontrar compradores para os créditos passou a ser parte da estruturação dos novos projetos.
A Salesforce acaba de assinar com a Mombak um contrato de compra antecipada de créditos de remoção de carbono, com uma primeira parcela de 2 mil créditos já entregues. O acordo amplia a lista de gigantes de tecnologia que compram créditos da startup, que já tem Google e Microsoft entre seus clientes.
“O mercado de carbono está evoluindo. Se de um lado há mais compradores e mais projetos, por outro, os investidores estão adotando uma postura mais cautelosa,” disse Gabriel. “Por isso, o mercado de carbono está indo na mesma direção do de energia renovável. Antes de construir, antes de financiar, tem que ter um comprador e um contrato de venda.”
Até o momento, a Mombak já captou mais de US$ 250 milhões de instituições como Banco Mundial, BNDES, DFC, Fundação Rockefeller, CPP Investments, Bain Capital e AXA (hoje BNP Paribas).
A experiência do primeiro fundo também levou a mudanças no modelo de restauração. Uma das principais conclusões foi que a regeneração natural, embora seja um fenômeno comum na Amazônia, não oferece a previsibilidade necessária para o modelo de negócio da empresa.
A Mombak passou a priorizar o plantio de espécies nativas em uma metodologia mais próxima à das florestas comerciais da indústria da celulose, mas adaptada ao uso de espécies nativas. Parte da equipe da startup é egressa da Suzano.
A companhia também passou a investir mais em seleção de espécies, melhoramento genético, origem de sementes e mudas, práticas de manejo e escolha das propriedades.
“Mais do que o impacto em número de hectares, o que a gente está vendo na empresa é a evolução na captura de carbono por hectare,” disse Gabriel. “Cada hectare hoje é muito mais produtivo do que o hectare que a gente começou a adquirir lá no primeiro fundo.”
Outro aprendizado está relacionado ao combate do mato, vegetação que compete com as árvores, que se tornou a maior linha de custo da empresa — um item que havia sido subestimado no início da operação.
Assim como no primeiro fundo, os recursos captados com investidores serão usados principalmente para a aquisição das terras ou para parcerias rurais, enquanto a linha do BNDES será destinada à execução dos projetos de restauração. O banco já havia financiado a restauração florestal da Mombak no fundo anterior.
A operação aprovada pelo BNDES soma R$ 200 milhões dentro de um projeto que demanda investimentos de R$ 457 milhões — os R$ 257 milhões restantes são recursos próprios da Mombak.
O projeto prevê a restauração de cerca de 20 mil hectares de pastagens degradadas, além de investimentos em tecnologia, viveiros e outras estruturas necessárias à operação.
“O BNDES faz um empréstimo muito barato, traz mais capacidade de investimento para o fundo, só que sem precisar atrair outros investidores e diluir o nosso retorno,” explica o CEO.
Para o BNDES, a operação faz parte de uma estratégia mais ampla de transformar a restauração de florestas nativas em um setor econômico.
Desde 2023, o banco vem estruturando uma carteira específica para o segmento de florestas e já tem quase 20 contratos de crédito com 17 grupos empresariais, em projetos na Amazônia, no Cerrado e na Mata Atlântica. Foram R$ 2,9 bilhões de aprovação em operações de crédito, todas com recursos do Fundo Clima.
Para o banco, o desafio é adaptar o financiamento ao ciclo de negócios da floresta, que é muito mais longo que o de setores tradicionais.
“Quando você trabalha com florestas nativas, há um prazo de maturação bastante elevado, com ciclos de 15, 20, 30 anos. O investimento em florestas nativas é muito parecido com o de infraestruturas de longo prazo,” disse Nabil Kadri, superintendente de Meio Ambiente do BNDES.
No fim, o desafio é conciliar dois relógios: o do capital, que cobra retorno e escala, e o da floresta, que precisa de tempo para crescer.
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