A cada nova eleição para presidente da República, o mercado coloca expectativas sobre as mudanças que serão implementadas no próximo governo, e como elas afetam o ambiente empreendedor e de inovação. Fatores como a política fiscal e monetária, além da capacidade de promover estabilidade política estão entre os pontos que podem fazer a diferença em uma retomada mais acelerada dos mercados de venture capital e startups no Brasil.
Para Mario Moraes, fundador da gestora UVP, porém, seja qual for o resultado das eleições deste ano, o Brasil continuará sendo o “país das oportunidades”. “Governos vão e vêm a cada quatro anos. Eu pego um pouquinho do histórico da minha família. A gente está aqui operando no país há mais de 100 anos. O Brasil é um país imenso, com 215 milhões de pessoas e cheio de problema para ser resolvido. Cada problema desse é uma oportunidade. Nós temos aqui talento e capacidade de gerar empresas excepcionais”, diz ele, em entrevista ao Startups.
O investidor é neto de Antonio Ermírio de Moraes, que comandou o Grupo Votorantim por décadas. A história da companhia remonta a 1918, quando Antonio Pereira Inácio adquiriu uma fábrica de tecidos em Votorantim, em Sorocaba (SP), e posteriormente seu genro, José Ermírio de Moraes, assumiu o controle e expandiu os negócios.
Com uma visão de longo prazo herdada da família, Mario afirma que sua preocupação é menos com os ciclos políticos e mais com a capacidade de gerar riqueza por meio dos investimentos.
“Para as melhores empresas nunca falta capital. Acho que essas companhias têm outras dificuldades. Ou melhor, outros desafios, como atrair os melhores talentos para o Brasil”, afirma.
A UVP nasceu após a cisão da Upload Ventures, onde Mario atuava como managing partner com Rodrigo Baer e Carlos Simonsen. Na separação, Rodrigo criou a 14B Venture Capital, com foco em early-stage, enquanto Carlos estruturou a Upstream, fundo de growth que combina instrumentos de equity e crédito.
Fundo ancorado pela TIM
Mario trouxe da Upload para a UVP o fundo de growth ancorado pela TIM, hoje com US$ 70 milhões sob gestão. O veículo ainda está captando e investiu em seis empresas até agora, com uma saída, a IORQ, de credit as a service.
Cerca de 85% do capital do fundo é institucional, enquanto aproximadamente 60% dos investidores estão fora do Brasil. Aliás, Mario destaca a presença internacional da gestora, que mantém advisors nos Estados Unidos, Oriente Médio e Europa para apoiar a expansão das companhias, que possuem operações ao redor do mundo.
“Capital institucional é uma coisa muito mais perene. Eles têm estratégias de investir de longo prazo. E temos cerca de 15% dos LPs que são ultra high net worth espalhados pelo mundo inteiro. Mas o Brasil tem family offices muito sofisticados, que não são voláteis pelo mercado”, aponta Mario.
A carteira tem cinco empresas ativas: Tractian (IoT), Enter (legaltech), Mottu (mobilidade), Simetrik (infraestrutura de controle financeiro com IA) e Topsort (IA para retail media).
O período de investimento vai até o fim de 2028, mas Mario afirma que a ideia é manter um portfólio reduzido, para permitir um acompanhamento mais de perto de cada empresa.
IA exige “humildade”
O principal risco que o fundo assume, segundo Mario, não é de produto, e sim de negócio: uma empresa ser atropelada por uma nova tecnologia. A inteligência artificial é o exemplo mais evidente. A gestora acompanha o uso de machine learning na Tractian desde 2019, quando o termo ainda nem era moda, mas o investidor diz que o ritmo atual não tem precedente.
“Tento ler o máximo possível, mas sou humilde o suficiente para dizer que não sei quase nada”, afirma. Para ele, o momento é comparável ao dos anos 2000, com o início da popularização da internet, e é “algo muito único”. Não por acaso, todas as empresas do portfólio têm IA no core do negócio de alguma forma.
O desafio, na visão do investidor, está menos na tecnologia e mais em atrair gente. Ele conta que todas as companhias tentam trazer profissionais de fora do país, o que ganha uma dificuldade a mais em alguns casos, como da Enter, que faz questão de ter equipe presencial em São Paulo. “Ele precisa vender um sonho muito especial para alguém abrir mão da vida lá fora para morar aqui”, diz Mario.
No entanto, ele se diz otimista com o movimento que tem visto no mercado de tecnologia e inovação no Brasil. Para Mario, os empreendedores locais ficaram mais diligentes com os gastos depois do período de euforia durante a pandemia, quando empresas chegavam a levantar cinco rodadas em um único ano.
Além disso, ele tem percebido uma disposição maior dos empreendedores para criar empresas globais. É o caso da Tractian, que já possui escritório em Atlanta, nos EUA.
“O mercado sempre será volátil. Mas é na volatilidade que o mercado gera oportunidades”, observa.
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