Marcelo Mindlin vive um novo momento histórico em sua arrojada trajetória empresarial.
O fundador da Pampa Energía – o maior grupo integrado do setor de energia da Argentina – é conhecido por movimentos ousados em um país marcado pela instabilidade.
Agora, está liderando um grupo de investidores que assumiu o controle da InterCement, uma das maiores cimenteiras do Brasil e dona da Loma Negra, a líder do mercado argentino.
Em paralelo, a Pampa – que atua na geração e transmissão de eletricidade e na exploração, produção e transporte de petróleo e gás natural – acaba de anunciar um projeto de US$ 2,7 bilhões para entrar na produção de uréia, ampliando seus negócios para fertilizantes.
Em meio a essa nova fase de expansão, Mindlin conversou com o Brazil Journal sobre seus negócios, estratégias e as perspectivas para a economia de seu país. Ele não quis falar muito de política – o que inclusive dá pistas sobre uma de suas fórmulas de sucesso.
“Eu por sorte sou empresário e tenho que tomar decisões de investimento, e não analisar a política,” disse ele, que curiosamente chegou a pensar em estudar ciência política quando era mais jovem, para ser jornalista.
“Os empresários falam com o bolso. Não importa o que eu te digo, importa o que faço. A Pampa completou 20 anos, e nesses 20 anos passou por todos os governos que se possa imaginar. Investimos e crescemos em todos os governos.”
A trajetória, inclusive, começou com aquisições em meio a uma crise no setor elétrico durante a gestão do peronista Néstor Kirchner.
“Se tivéssemos determinado nossa expansão pelos momentos políticos, não teríamos crescido como crescemos. Essa é minha linha de investir. Quando vejo um bom negócio, sustentável, nós investimos e seguimos adiante,” disse Mindlin.
E a vontade de ser jornalista?
“Meu pai, que era um sábio, me disse: e você vai viver de quê? Por que não estuda economia também? E quando comecei, me dei conta de que gostava de economia.”
O conselho do pai rendeu. Só a Pampa Energía vale US$ 4,6 bilhões na Bolsa.
PRIMEIROS GRANDES M&As
A primeira grande tacada de Mindlin como empresário foi em 2005, quando ele deixou o grupo imobiliário IRSA para criar seu próprio negócio.
Aproveitando-se de um pânico no mercado após um congelamento de tarifas de energia, Mindlin comprou títulos de dívida da elétrica Edenor com enormes deságios e assumiu o controle do ativo, que antes pertencia à francesa EDF.
“Nessa época havia muitas empresas estrangeiras que estavam saindo (da Argentina), e nós as comprávamos. Porque sempre acreditamos que, para além das questões políticas, alguns ativos são estratégicos.”
O segundo grande movimento, já com Mauricio Macri no poder, foi a aquisição dos negócios da Petrobras na Argentina em 2016 – uma transação que triplicou o tamanho da Pampa e só foi possível devido a outro pilar da estratégia de Mindlin.
“Sempre mantemos um nível de dívida muito baixo e uma posição de caixa muito importante. E rolamos a dívida para não ter vencimentos significativos nos próximos quatro anos. Pudemos comprar a Petrobras Argentina naquele momento porque estávamos com caixa e dívida baixa.”
Na transação, a Pampa não só levou uma empresa muito maior que ela mesma, como assumiu operações que iam de refinaria a postos de combustíveis, passando por plantas petroquímicas, campos de petróleo e gás e ativos no setor elétrico.
“Fomos dos poucos a se animar a fazer uma oferta, porque era um negócio muito difícil de se analisar para uma empresa puramente petroleira. Mostramos de novo que, quando vemos uma oportunidade, somos muito agressivos.”
A transação foi um exemplo claro dos dois mantras que resumem o “estilo Mindlin” de fazer negócios.
“Somos muito agressivos para capturar uma oportunidade, quando a encontramos. Mas ao mesmo tempo muito conservadores com caixa, dívida. Essa é a combinação.”
A alavancagem do grupo era de 1,4x EBITDA no final do primeiro tri.
VACA MUERTA E A ARGENTINA
No pacote de ativos comprados da Petrobras, entre tantas coisas, estavam áreas de gás e petróleo em uma nova fronteira exploratória que na época ainda não estava nas manchetes.
Foi como comprar, sem saber, um bilhete premiado.
“Naquele momento se sabia muito pouco sobre Vaca Muerta. E ali se origina nossa atividade em petróleo e gás,” disse Mindlin.
Nos anos seguintes, a Pampa, a estatal YPF e grupos como a Vista Energy e a GeoPark impulsionariam a produção na região, que mais recentemente atraiu investimentos da Continental Resources, do pioneiro da indústria de shale americana Harold Hamm.
Os resultados dos investimentos levaram a Argentina – uma importadora de gás nos últimos 20 anos – à autossuficiência, e em breve a tornarão uma grande exportadora.
“Vejo a Argentina como um país que era como um avião que tinha só uma turbina, o agro. Era o setor que gerava dólares. Agora o avião tem duas turbinas. Vaca Muerta vai gerar, em 2030, tantos dólares quanto o agro,” disse Mindlin.
Ele também acredita que a mineração em breve se somará como uma terceira turbina.
“Não vai ser amanhã, nem depois de amanhã, mas é inevitável que todo esse boom de Vaca Muerta e da mineração nos dê uma ajuda muito grande para o crescimento do país.”
Só no projeto de shale Rincón de Aranda e sua infraestrutura associada a Pampa prevê investir US$ 4,6 bilhões até 2041.
MACROECONOMIA
Embora evitando a política, Mindlin elogia o ajuste macroeconômico em curso na gestão Javier Milei, afirmando que a maior estabilidade e a redução da inflação são importantes para que as empresas do país acessem financiamento.
“Emitimos há alguns meses uma dívida de 12 anos a 7,8% ao ano em dólares. Essa dívida tão barata, digamos assim, e de longo prazo, é produto de duas coisas: o track record da Pampa e a ordem macroeconômica que estamos vivendo.”
Outro elemento do ajuste de Milei bem visto pelo empresário, e que inclusive pode servir de lição para o Brasil, foi o dramático corte dos gastos com subsídios no setor de energia.
“É um tema complexo, não é fácil, mas se gastar muito com subsídios, alguém paga por isso. As pessoas pagam com a inflação. E quem sofre mais com a inflação? As pessoas mais pobres. A Argentina gastava 4 pontos do PIB em subsídios, e hoje está em 1 ponto.”
Por aqui, a conta de subsídios no setor elétrico já passa de R$ 50 bilhões por ano, que custeiam políticas que vão de incentivos a fontes renováveis, ao carvão (!), e até o programa Luz Para Todos e energia grátis para famílias de baixa renda.
“No Brasil não há inflação, mas há juros muito altos. Não existe almoço grátis. Se há um subsídio, alguém está pagando. É preciso ver quem paga, e se é justo,” disse Mindlin.
A ENTRADA NO CIMENTO
A aquisição da InterCement veio após dois anos em que Mindlin já estudava a empresa argentina do grupo, a Loma Negra.
Ele aproveitou quando os bancos decidiram vender sua dívida com a InterCement, que estava em recuperação judicial, fechando acordos com Itaú, Banco do Brasil e Bradesco, já com a intenção de transformar os créditos em ações.
“Loma Negra em particular tem 45% de market share, é uma empresa de 100 anos. Do ponto de vista empresarial, é um ativo único. Poucas vezes na vida você vai poder comprar uma companhia com esse share em um setor tão central como o cimento. E a InterCement tem 13% de participação em um mercado tão grande como o brasileiro: também é uma oportunidade única.”
Segundo ele, as fábricas da InterCement já estão com 100% de ocupação, enquanto na Argentina a Loma Negra opera com 60% da capacidade.
A expectativa agora é que projetos de investimento em infraestrutura e a recuperação dos mercados imobiliário e de crédito na Argentina impulsionem as atividades.
“Precisamos esperar que todo esse boom de investimentos se traduza em mais demanda de cimento. Porque são investimentos que não vão ser feitos em um único ano, mas conforme vierem, vão demandar.”
FERTILIZANTES E O FUTURO DA PAMPA
A decisão da Pampa Energía de entrar em fertilizantes é vista como uma grande oportunidade não só para a companhia, mas para a América Latina.
“O Brasil é um grande importador de uréia, e também a Argentina, a Bolívia, o Paraguai. A região tem 11 milhões de toneladas de déficit, e importa isso de lugares muito distantes, com conflitos. Nos pareceu muito sustentável e lógico produzir na Argentina para abastecer a região. A uréia é gás, e temos aqui (em Vaca Muerta) gás para 200 anos,” disse Mindlin.
Além dos volumes, ele também citou a competitividade do gás argentino, com custo na faixa dos US$ 3 por milhão de BTU, na comparação com US$ 8 a US$ 9 por milhão de BTU no Brasil, onde a Petrobras teve dificuldade de manter a viabilidade econômica de suas operações de fertilizantes no passado recente.
O empresário acredita que, por essa lógica, o País também tem potencial para se tornar um comprador do gás argentino – porém por meio de carregamentos de Gás Natural Liquefeito (GNL).
Um gasoduto entre os países, especulado por alguns, seria uma obra muito cara e que precisaria ser ancorada em contratos de longo prazo de venda do gás, o que tornaria complexa sua viabilização.
“O Brasil já tem em sua costa uma rede de regaseificação (de GNL) e hoje importa esse gás de outros países. Quando a Argentina tiver seus navios de liquefação, será lógico que esse gás que o Brasil importa possa vir da Argentina.”
As exportações de GNL de Vaca Muerta devem começar a partir de 2027, com o projeto do consórcio Southern Energy SA, no qual a Pampa tem 20%, com parceiras como PanAmerican Energy, YPF e Harbour Energy.
Os projetos de Rincón de Aranda, de uréia e de GNL evidenciam como a nova província de petróleo e gás da Argentina se tornou um pilar não só para a economia do país, mas também para a Pampa.
“Hoje estamos mais focados em Vaca Muerta e na uréia,” disse Mindlin sobre o futuro da companhia.
“Quando a fábrica de uréia estiver operando, daqui três anos, três anos e meio, ela vai gerar tanto EBITDA para a empresa quanto todo o setor de geração de energia elétrica e todo o setor de E&P. Voltando à imagem do avião: é agregar mais uma turbina no avião que é a Pampa.”
The post Marcelo Mindlin, o ‘rei do shale’ (e agora do cimento) appeared first on Brazil Journal.

