Uma rede com mais de 400 aplicativos e sites que oferecem ferramentas para criar imagens falsas de pessoas nuas foi identificada nas lojas oficiais da Apple e do Google. Segundo uma investigação publicada pela revista Wired, nesta terça-feira, 3, os programas se apresentam como serviços aparentemente inofensivos, mas podem liberar geradores de deepfake explícito após a instalação. A descoberta amplia as preocupações sobre a circulação de aplicativos que utilizam inteligência artificial (IA) para produzir imagens íntimas sem o consentimento das pessoas retratadas.
Os aplicativos, encontrados na App Store e na Google Play Store, simulam ferramentas como editores de fotografias de animais de estimação, plataformas de ensino de idiomas e programas de treinamento físico. Inicialmente, apresentam interfaces convencionais, sem indicar que oferecem recursos para produzir conteúdo pornográfico. A mudança ocorre nos bastidores: os programas enviam informações a um servidor externo, que determina se o usuário terá acesso à interface com as funcionalidades de deepfake.
De acordo com os pesquisadores responsáveis pela descoberta, não existe um critério definitivo para identificar quais usuários recebem a versão aparentemente segura e quais têm acesso aos recursos explícitos.
Um dos mecanismos identificados envolve o download do aplicativo imediatamente após o usuário clicar em um anúncio da Meta que contém imagens deepfake pornográficas. A rede também utilizava anúncios na plataforma para divulgar os programas.
Desenvolvedores e responsabilidade das plataformas
A investigação identificou ligações entre os aplicativos e desenvolvedores chineses, além da empresa KeLing Technology Limited, sediada em Hong Kong. Após ser procurada pelos investigadores, a companhia teria apagado referências que a relacionavam aos programas. O levantamento também aponta que o problema não é isolado: no início de 2026, cerca de 38 aplicativos desse tipo já haviam sido encontrados nas lojas da Apple e do Google, somando 483 milhões de downloads e US$ 122 milhões em receita.
Procurada pela Wired, a Apple afirmou que os aplicativos estavam de acordo com suas regras no momento da aprovação. Segundo a companhia, os desenvolvedores alteraram posteriormente os sites dos quais os programas extraíam conteúdo, substituindo o material autorizado por conteúdo pornográfico. A empresa também atribuiu a divulgação dos aplicativos a anúncios explícitos veiculados em plataformas de terceiros.
Tanto a Apple quanto o Google já retiraram um número considerável de aplicativos identificados na investigação. O Google, procurado para comentar o caso, ainda não havia apresentado um posicionamento até a publicação do relato.
A permanência e o reaparecimento desses programas, porém, expõem as limitações dos mecanismos de fiscalização das lojas digitais, que precisam acompanhar não apenas o conteúdo disponível no momento da aprovação, mas também as mudanças realizadas pelos desenvolvedores depois que os aplicativos chegam aos usuários.

