O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistou um quarto mandato presidencial, mas encontrará um Congresso com uma correlação de forças diferente daquela que marcou sua gestão iniciada em 2023. A direita ampliou sua representação nas eleições de outubro, enquanto o PL, partido de Flávio Bolsonaro, assumirá a maior bancada nas duas Casas.
A partir de fevereiro de 2027, o PL terá 121 deputados federais e 28 senadores. A legenda saiu das urnas com a maior bancada individual da Câmara desde a redemocratização e a segunda maior do Senado no mesmo período.
Do lado governista, a federação formada por PT, PCdoB e PV conquistou 88 cadeiras na Câmara, das quais 70 pertencem ao PT. No Senado, os petistas terão nove parlamentares.
O resultado impõe a Lula a necessidade de ampliar suas alianças para além dos partidos de esquerda. Com uma oposição numericamente fortalecida, o presidente precisará negociar com legendas de centro e centro-direita para conseguir aprovar projetos e sustentar sua agenda no Congresso.
O tamanho da direita no novo Congresso
A direita ocupará 303 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados, o equivalente a 59,1% do total. O centro terá 86 parlamentares, enquanto a esquerda reunirá 124.
A classificação considera o posicionamento dos partidos e não representa uma divisão automática entre governo e oposição. Algumas dessas siglas incluem parlamentares com relações políticas distintas com Lula e Flávio Bolsonaro.
O avanço do PL foi o principal destaque da eleição legislativa. A legenda passou de 97 deputados eleitos em 2022 para 121 em 2026, aumentando sua participação de aproximadamente 19% para 23,6% da Câmara.
O PT também cresceu, passando de 68 para 70 deputados. A federação com PCdoB e PV chegou a 88 parlamentares, seis a mais do que na eleição anterior.
Apesar do crescimento, a diferença entre as duas principais forças partidárias aumentou. O PL terá 51 deputados a mais do que o PT isoladamente e 33 a mais do que toda a federação liderada pelos petistas.
No Senado, a distância também é significativa. Os 28 integrantes do PL representarão mais de um terço da Casa, enquanto o PT contará com nove senadores.
Lula terá votos para aprovar seus projetos?
A reeleição garante a continuidade do governo, mas a aprovação de novas propostas dependerá da formação de maiorias parlamentares.
Projetos de lei ordinária exigem o voto favorável da maioria dos presentes, desde que haja pelo menos 257 deputados ou 41 senadores participando da deliberação em suas respectivas Casas.
Para aprovar leis complementares, Lula precisará reunir pelo menos 257 votos na Câmara e 41 no Senado, independentemente do número de parlamentares presentes.
As propostas de emenda à Constituição representam um desafio maior. Uma PEC depende de 308 votos na Câmara e 49 no Senado, em dois turnos de votação em cada Casa.
O tamanho da bancada petista torna indispensável o apoio de outros partidos. Na Câmara, mesmo considerando todos os 88 deputados da federação PT-PCdoB-PV, seriam necessários mais 220 votos para atingir o quórum de uma emenda constitucional.
Entre as legendas que poderão participar das negociações estão PSD, MDB, União Brasil, PP e Republicanos, que possuem bancadas relevantes e relações políticas variadas com o presidente.
O MDB, por exemplo, chegou dividido ao segundo turno presidencial. Parte de seus diretórios estaduais declarou apoio a Lula, enquanto outra parcela aderiu à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Essa fragmentação poderá se refletir nas votações do novo Congresso, especialmente em propostas que envolvam alterações tributárias, gastos públicos e mudanças nas relações de trabalho.
O Senado e a relação com o STF
Uma das maiores dificuldades do quarto mandato de Lula poderá estar no Senado. Além da tramitação de projetos e emendas constitucionais, a Casa tem competência para aprovar indicações de ministros do Supremo Tribunal Federal, processar e julgar integrantes da Corte por crimes de responsabilidade e analisar outras nomeações previstas na Constituição.
Para aprovar a indicação de um ministro do STF, o presidente precisa de pelo menos 41 votos favoráveis. O mesmo patamar de maioria absoluta é exigido para a aprovação de leis complementares.
A composição do Senado também aumenta o peso das articulações da oposição em eventuais processos contra ministros do Supremo.
A condenação por crime de responsabilidade exige o voto de 54 dos 81 senadores. Uma decisão do ministro Gilmar Mendes, de dezembro de 2025, também estabeleceu o quórum de dois terços para a abertura desse tipo de processo, em discussão sobre a constitucionalidade de dispositivos da Lei do Impeachment.
Embora o PL tenha conquistado 28 cadeiras, precisará do apoio de outras legendas para alcançar os votos necessários.
Para Lula, a formação de uma base no Senado será importante tanto para a aprovação de seus indicados quanto para a sustentação das prioridades do Executivo.
Uma diferença em relação aos mandatos anteriores
Lula governou seus dois primeiros mandatos, entre 2003 e 2010, com uma ampla coalizão de partidos. A participação de legendas de centro na administração federal foi decisiva para construir maiorias na Câmara e no Senado.
No terceiro mandato, iniciado em 2023, o petista também precisou negociar com partidos que não integravam sua coligação eleitoral. A relação com o Congresso foi marcada por disputas sobre a execução de emendas parlamentares, a agenda econômica e o controle de espaços no governo.
A nova legislatura acrescentará outro elemento a essa equação com o fortalecimento do PL como principal força parlamentar da direita.
O partido de Flávio Bolsonaro terá condições de influenciar a eleição dos presidentes das duas Casas, a composição de comissões e a tramitação de projetos considerados prioritários pelo Palácio do Planalto.
As articulações para a presidência da Câmara já envolvem Hugo Motta (Republicanos), que busca a reeleição com apoio de setores do Centrão e de partidos governistas. No Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil) enfrenta resistência de integrantes da direita que desejam maior controle sobre a pauta da Casa.
As eleições das Mesas Diretoras, em fevereiro de 2027, serão decisivas para definir a relação de Lula com o novo Congresso. O presidente começará seu quarto mandato diante de uma oposição mais numerosa e com uma base governista que ainda dependerá de acordos com partidos do centro político.
The post Lula é reeleito, mas enfrentará Congresso mais à direita; veja os números appeared first on InfoMoney.

