Conforme noticiado pelo Olhar Digital, a Lua passou em frente a Júpiter na segunda-feira (2), em um fenômeno chamado ocultação lunar, observável somente em algumas regiões da Terra.
Em Kuala Lumpur, na Malásia, onde já era madrugada de terça (3), o astrofotógrafo Shahrin Ahmad registrou um efeito surpreendente durante o evento. Nas imagens, o planeta parece derreter ao desaparecer atrás da borda da Lua.
Onde a ocultação lunar de Júpiter pôde ser observada?
Uma ocultação lunar acontece quando a Lua passa à frente de outro corpo celeste, encobrindo-o temporariamente para quem observa da Terra. Como a posição aparente dos astros depende do local de observação, o fenômeno não pode ser acompanhado de todas as partes do planeta.
A faixa de visibilidade da ocultação lunar de Júpiter ocorrida esta semana incluiu nações insulares como Maldivas, Sri Lanka, Seychelles e Maurício, além da Ilha da Reunião, território francês no oceano Índico. Em partes do sul e sudeste da Ásia e da Oceania, a passagem ocorreu durante o dia, dificultando a observação devido à claridade do céu.
No Brasil, os astros não chegaram a se sobrepor, portanto, não houve ocultação. Mas a Lua e Júpiter apareceram bem próximos um do outro, em uma configuração chamada conjunção astronômica.
Veja novas imagens do fenômeno
Outros profissionais e entusiastas da fotografia astronômica pelo mundo também capturaram o momento.
Michael Teoh, de Ipoh, no estado de Perak, também na Malásia, conseguiu registrar mais do que a Lua e Júpiter. À plataforma EarthSky.org, ele relatou que, durante esta ocultação lunar do gigante gasoso, duas luas galileanas estavam visíveis. “Na fase de entrada (linha superior), Io segue a oeste de Júpiter, enquanto Europa transita pela superfície do planeta. Mas, neste momento, Europa não estava visível devido à limitação da resolução, às condições de visibilidade ruins e ao baixo contraste com o disco joviano. Na fase de saída (linha inferior), Io, que seguia Júpiter, ainda estava bloqueada pela Lua, enquanto Europa aparece saindo do limbo leste de Júpiter, graças às condições de visibilidade muito melhores e ao maior contraste com o limbo joviano mais escuro.”

O registro de Atharva Maurya, de Bhadohi, na Índia, mostra a Lua e Júpiter bem pertinho um do outro no céu, revelando com clareza as crateras na superfície lunar e as listras características do planeta ao fundo.

Jelieta Walinski, no Observatório Desert Bloom, no Arizona, EUA, fotografou a Lua, Júpiter e Marte. “Às vezes, a astrofotografia nos ensina que capturar o Universo nem sempre se resume à ampliação. Às vezes, precisamos ampliar nossa perspectiva para apreciar o panorama geral.”

Nishat Khan compartilhou no Instagram o registro abaixo, obtido em Vaughan, Ontário, Canadá.

Por que Júpiter parece derreter no vídeo?
O fenômeno registrado por Ahmad é uma manifestação do chamado efeito da gota negra (black drop effect), conhecido principalmente por aparecer durante trânsitos planetários, quando um planeta passa entre a Terra e o Sol.
De acordo com Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia (APA), membro da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (BRAMON) e colunista do Olhar Digital, nenhum equipamento óptico consegue produzir imagens com foco absolutamente perfeito. Diferenças no ponto focal de frequências como infravermelho e ultravioleta podem gerar imagens secundárias muito tênues, que normalmente passam despercebidas.
“Isso cria uma espécie de ‘fantasma’ que a gente praticamente não vê na imagem, que é muito fraca, muito tênue. Só que, como esse efeito ocorre nos dois corpos, no caso a Lua e Júpiter, quando os ‘fantasmas’ de cada um se aproximam e se sobrepõem, isso acaba criando uma bolha um pouco mais clara que alarga o objeto próximo um do outro”, explica.
O efeito ficou especialmente conhecido durante os trânsitos de Vênus no século XVIII. Como o planeta possui uma atmosfera densa, observadores da época chegaram a atribuir a deformação à presença dessa camada de gases. As observações, no entanto, também tinham um objetivo científico importante: calcular a distância entre a Terra e o Sol.
Zurita destaca que a proposta partiu do astrônomo Edmund Halley, que sugeriu utilizar a paralaxe para realizar essa medição. A iniciativa levou à organização de expedições em diferentes partes do mundo para acompanhar a passagem de Vênus. No entanto, a deformação provocada pelo efeito da gota negra dificultou a identificação dos momentos exatos em que o planeta entrava e saía do disco solar.

“Halley propôs a observação do trânsito de Vênus como uma forma de medir a distância entre a Terra e o Sol por paralaxe. E aí foram organizadas expedições em diferentes partes do mundo para observar esse fenômeno, e quando aconteceu, não foi possível determinar os momentos exatos da entrada e saída de Vênus do disco solar, por conta desse efeito que ficou conhecido como gota negra”, detalhou o especialista.
A hipótese de que a atmosfera de Vênus provocava a deformação perdeu força em 1999, quando a sonda TRACE (sigla em inglês para Experimento de Transição e Exploração Coronal), da NASA, observou o mesmo efeito durante um trânsito de Mercúrio pelo Sol. Como o planeta praticamente não tem atmosfera, ficou demonstrado que essa característica não era necessária para produzir o fenômeno.
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