O Kria e a SMU Investimentos, duas plataformas pioneiras no mercado de crowdfunding do Brasil, fecharam uma parceria inédita e estão unindo suas bases de investidores para ampliar o alcance de suas ofertas.
Entretanto, segundo as duas empresas, não se trata de uma aquisição. Não há desembolso de caixa nem mudança societária — o que muda é a divisão de trabalho. Com a parceria, o Kria fica como a plataforma registrada na CVM, com as operações correndo em seu ambiente, e a SMU passa a ser a parceira principal de promoção de suas ofertas.
“O Kria tinha seus 60 mil cadastros, a SMU seus 40 mil, e a gente passa a trabalhar operações em uma base de 100 mil”, diz Camila Nasser, fundadora do Kria, em conversa com o Startups. Além disso, segundo destaca a executiva, 15% dos investidores migrados da SMU já investiam pelo Kria. “Ainda temos uma base de 85% para expandir com as nossas ofertas”, avalia.
Do lado da SMU, o time passa a compor a mesa de originação de novas ofertas do Kria. Segundo o sócio Rodrigo Carneiro, a decisão da SMU de parar de subir ofertas próprias tem duas explicações. A primeira é de escala. “Não faz sentido subir uma oferta e atingir 40 mil clientes, sendo que, ao subir no Kria, estamos falando de 100 mil investidores”, afirma. A SMU poderá levar ao ar no máximo uma ou duas ofertas próprias, de menor expressão, mas não é mais o foco.
A segunda é tecnológica. Nos últimos anos, a SMU concentrou seu desenvolvimento na Estar Finance, empresa de mercado de balcão criada dentro do sandbox da CVM e vendida à Laqus no começo deste ano, com boa parte do pagamento em ações da compradora. “Podemos dizer que SMU gastou o seu ‘repertório tecnológico’ na Estar. A plataforma de crowdfunding funciona, tem várias features, mas envelheceu um pouco. O Kria é uma plataforma mais moderna”, diz.
Com isso, o papel de Rodrigo muda de lado do balcão. Ele passa a cuidar da carteira da casa, que soma mais de 40 investimentos em que a SMU entrou como investidora ou líder, além da participação na Laqus. “A SMU está virando quase que uma holding de investimentos, onde eu vou ser o gestor dessa holding. E o seu ativo, a sua marca, os seus investidores, estão sendo compartilhados com o Kria”, pontua.
A expectativa do Kria para a base combinada é distribuir R$ 80 milhões nos próximos 12 meses, com cerca de R$ 20 milhões já em esteira para os dois últimos meses deste ano, e chegar a R$ 200 milhões por ano a partir de 2028.
Reformas e expectativas
A parceria chega apostando em uma mudança de regra. A reforma da Resolução CVM 88, em consulta pública, prevê elevar o limite por oferta de R$ 15 milhões para até R$ 50 milhões, acabar com o teto de faturamento das emissoras, incluir securitizadoras e flexibilizar o mercado secundário. De acordo com Camila, a aprovação dessa reforma é esperada até o fim do ano.
É no equity que ela projeta o maior efeito, e por um motivo: o segmento perdeu força nos últimos anos. Até 2023, ações respondiam por cerca de 95% do que se emitia nessas plataformas. Neste ano, segundo levantamento do Kria, são cerca de 3%, e o resto é renda fixa digital.
O que ela aguarda da nova regra é a possibilidade de captar para veículos que funcionem como fundos. “A CVM vai ser bem caxias nesse sentido, não vai poder ser fundo captando, mas sociedades que emulem fundos podendo captar para investir em diversos negócios diferentes”, explica. “Deve trazer um gás novo completamente para o segmento de equity do crowdfunding.”
Rodrigo concorda com o diagnóstico, mas sem romantismo. “A inovação está mais nas empresas voltadas para equity crowdfunding, mas de fato hoje o mercado pede renda fixa”, diz. Para ele, o instrumento se revelou melhor do que se imaginava para dívida. “As plataformas se demonstraram uma ferramenta muito boa para emissões de forma ágil e barata, emissões de dívida até mais do que de equity”, completa.
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