Moedas de reais –
15/10/2010 (Foto:
REUTERS/Bruno Domingos)

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A segunda-feira (26) entrou para a história do Tesouro Direto e deixou uma lição prática para quem investe em títulos prefixados e atrelados à inflação. O preço desses papéis pode mudar muito de um dia para o outro, e o tamanho do estrago, ou do ganho, depende de quando o investidor decide sair.

No primeiro pregão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), os prefixados registraram a maior alta diária de taxas da série histórica do Tesouro Direto, acima do recorde de março de 2020. O programa foi criado em 2002, mas a série oficial de taxas do Tesouro começa em dezembro de 2004. O Tesouro Prefixado 2029 saiu de 12,76% ao ano no fechamento de sexta-feira (23) para 15,26% no fim da segunda.

Para mostrar em números o efeito da chamada marcação a mercado, o InfoMoney pediu duas simulações ao educador financeiro Matheus Oka, da Fire|ce. A primeira calcula quanto teria perdido quem comprou o Prefixado 2029 na sexta-feira e vendeu na segunda, logo após o salto. A segunda busca responder a uma dúvida comum neste momento, se dá para ganhar com a volatilidade ou quanto se pode perder enquanto as taxas se ajustam.

R$ 458 a menos em um dia

Quem aplicou R$ 10 mil no Tesouro Prefixado 2029 na sexta-feira anterior ao segundo turno, a 12,76% ao ano, e vendeu na segunda, a 15,26%, teria saído com cerca de R$ 9.542, segundo a simulação de Oka. A perda é de aproximadamente R$ 458, ou 4,6%, em um único dia útil, o equivalente a cerca de quatro meses e meio de rendimento do próprio título.

O cenário é improvável, já que poucos investidores compram e vendem um título de dois anos em um intervalo tão curto, mas ajuda a entender o mecanismo. Oka compara o prefixado a uma gangorra, com a taxa de juros de um lado e o preço do papel do outro. “Quando a taxa sobe, o preço desce”, resume.

Um título comprado a 12,76% ao ano perde valor quando o mercado passa a oferecer um papel igual pagando 15,26%. “Ninguém aceita pagar o mesmo preço por um papel que rende menos”, afirma o educador.

A perda, porém, só se concretiza para quem vende. Oka lembra que quem mantiver o título até o vencimento, em janeiro de 2029, recebe exatamente os 12,76% ao ano contratados na sexta-feira. A marcação a mercado mostra quanto o título vale hoje para quem precisa sair, mas não muda o que o investidor recebe no fim do prazo.

Quanto dá para ganhar ou perder a partir de agora

A segunda simulação parte de um aporte de R$ 10 mil feito na terça-feira (27), com resgate seis meses depois, em dois títulos. Um é o Tesouro Prefixado 2029, comprado a 14,79% ao ano, já abaixo do pico de segunda, e o outro é o Tesouro IPCA+ 2032, a IPCA + 7,64%. Oka considerou quatro cenários para as taxas no momento da venda, com quedas de 1 e de 1,5 ponto percentual e altas de 1 e de 1,5 ponto.

Os cálculos descontam o Imposto de Renda, de 20% nesse prazo, e a taxa de custódia da B3. Para o IPCA+ 2032, a premissa é de inflação de 4,5% ao ano.

Cenário para as taxasTesouro Prefixado 2029Tesouro IPCA+ 2032
Queda de 1,5 p.p.+R$ 734+R$ 1.111
Queda de 1 p.p.+R$ 670+R$ 888
Alta de 1 p.p.+R$ 421+R$ 57
Alta de 1,5 p.p.+R$ 361–R$ 170
Fonte: Matheus Oka (Fire|ce). Resultado líquido de IR e custódia para R$ 10 mil aplicados em 27/10/2026, com resgate em seis meses.

A grande diferença entre os dois títulos, segundo Oka, é o prazo. O Prefixado 2029 vence em pouco mais de dois anos e, por isso, seu preço oscila menos que o do IPCA+ 2032. Mesmo com alta de 1,5 ponto nos juros, o investidor ainda sairia no lucro, porque os juros pagos pelo título no período compensam a queda de preço. Pelas contas do educador, o papel só daria prejuízo em seis meses se a taxa passasse de 19% ao ano.

O IPCA+ 2032, que vence em quase seis anos, é bem mais sensível. É o que mais ganha se os juros caírem, até R$ 1.111 no cenário mais favorável, mas também o primeiro a ficar no vermelho, já que basta uma alta de cerca de 1,2 ponto para o investidor perder dinheiro na saída. “É como um carro esportivo: acelera mais, mas também derrapa mais”, compara Oka.

Para o educador, dá para ganhar com a volatilidade, mas isso é especulação, e o investidor precisa saber o tamanho do risco que está assumindo. E a oscilação continua, já que na quinta-feira (29) as taxas voltaram a subir, com o Prefixado 2029 negociado a 14,93% ao ano e o IPCA+ 2032 pagando 7,93% de juro real.

A recomendação do especialista depende de quando o dinheiro será usado. Para quem tem um objetivo com data próxima ao vencimento do título, as taxas atuais são historicamente altas e garantem um retorno muito bom a quem levar o papel até o final. Já o dinheiro que pode ser necessário antes deve ficar no Tesouro Selic ou em aplicações de liquidez diária, que praticamente não sofrem com a marcação a mercado.

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