James Talarico, o seminarista que atraiu Republicanos e deixou o Texas azul
BOSTON – Por mais de 30 anos, lançar um candidato democrata para uma eleição estadual no Texas era sinônimo de derrota. Nomes como Beto O’Rourke até cresciam nas pesquisas, mas o resultado final era sempre o mesmo: vitória republicana.
James Talarico, eleito esta noite o mais novo senador pelo Texas, quebrou essa norma.
O democrata de voz calma e fala firme venceu Ken Paxton por uma margem acachapante – 20 pontos – e entregou aos democratas a primeira vitória do partido em uma eleição estadual no Texas desde 1988, quando Lloyd Bentsen foi eleito senador para um quarto mandato.
Os democratas também tomaram o Governo estado, com Gina Hinojosa derrotando o incumbente Greg Abbott por 15 pontos percentuais. (Abbott estava tentando um terceiro mandato consecutivo. O Texas não tem limites para reeleição.)
Talarico – hoje em seu quarto mandato de deputado estadual – fincou sua campanha em duas bases.
A primeira foi discutir aspectos do dia a dia do americano médio, como o preço dos alimentos e a inflação, distanciando-se dos temas da guerra cultural que dominam as discussões em Washington.
A segunda base foi a fé. Talarico é neto de um pastor batista e estudante seminarista presbiteriano, e seus discursos espelham sua formação.
Em um estado profundamente religioso como o Texas, ele repetia em todos seus eventos de campanha a pergunta: “O que Jesus faria se visitasse o Senado americano?”, uma provocação que visava destacar o ponto principal de sua campanha, a luta entre everyday people e os bilionários.
Porém – diferente de colegas de partido como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez – Talarico não diz que bilionários “não deveriam existir”, e não adota um tom inflamatório ao abordar a questão, e sim uma abordagem centrada na vida da população.
“Eu só quero que os bilionários paguem a parte justa deles. Acho profundamente imoral que haja crianças indo dormir com fome neste estado, neste país, que haja pessoas vivendo nas ruas, inclusive veteranos do exército, enquanto bilionários desfilam em seus jatos particulares. Para mim, isso é grotesco,” Talarico disse numa entrevista.
Para a sorte dele, sua mensagem acabou sendo amplificada por decisões de seus próprios adversários, que ajudaram o democrata a provar seu ponto.
A escolha do candidato republicano não ocorreu sem disputas. O nome natural seria John Cornyn, um senador que buscava seu quinto mandato, mas por não rezar na mesma cartilha de Trump, acabou sendo derrotado nas primárias por Ken Paxton – o candidato escolhido pelo Presidente.
Paxton é um velho conhecido da política no Texas – nem sempre por boas razões.
Sua fama fez com que até mesmo republicanos históricos do Texas declarassem voto em Talarico, enquanto uma das filhas do ex-presidente George W. Bush, Barbara Pierce Bush, anunciou que doaria para a campanha do democrata.
Paxton é procurador-geral do Texas há 11 anos, e em 2015, recém-eleito, foi indiciado por fraude de valores mobiliários, acusado de enganar investidores ao recrutá-los sem revelar que recebia comissão pelos negócios.
O caso se arrastou por quase nove anos e terminou em 2024 com um acordo em que a promotoria retirou as acusações em troca de 100 horas de serviço comunitário, entre outras condições.
Em 2020, oito de seus principais auxiliares na Procuradoria-Geral foram ao FBI e o acusaram de ter orientado o órgão a tomar medidas incomuns e potencialmente ilegais para ajudar um doador de campanha e amigo, o que levou a uma investigação federal por corrupção. No ano passado, o Departamento de Justiça decidiu não processá-lo.
As denúncias também levaram a Câmara do Texas a aprovar o impeachment de Paxton, que acabou absolvido de todos os crimes pelo Senado estadual em 2023. (As duas casas eram controladas pelos republicanos.)
O julgamento girou em torno de acusações de que ele abusou do cargo para favorecer o doador em troca de reformas em sua casa, além de uma alegação de caso extraconjugal.
Em 2025, sua esposa, a senadora estadual Angela Paxton, pediu o divórcio por “motivos bíblicos”.
Diante dos problemas de Paxton, Talarico encontrou no adversário a imagem e semelhança de quem tanto criticou na campanha: uma classe política inescrupulosa que defende mais interesses próprios do que os do público.
Paxton fez com que o “político hipotético” que Talarico sempre citou nos discursos ganhasse materialidade, transformando a disputa não só em uma guerra de ideias, mas num exercício de rejeição ao que Paxton representa.
“Temos uma crise de custo de vida porque temos uma crise de corrupção. Mas podemos mudar isso nesta eleição, neste estado, nesta disputa… Estamos concorrendo contra a personificação desse sistema corrupto. Estamos concorrendo contra o político mais corrupto do Texas,” Talarico disse num evento de campanha.
Some-se a isso uma blitz midiática bancada por Elon Musk e você tem uma coalizão contra Talarico que resume tudo aquilo que ele diz ser contra.
O fundador da Tesla e da SpaceX entrou de cabeça nas midterms e doou US$ 445 milhões para campanhas republicanas pelo país, tornando-o o maior doador individual de um ciclo eleitoral da história dos EUA.
Desse total, Texas foi o estado que mais recebeu recursos, US$ 34,7 milhões, fazendo com que a campanha local se nacionalizasse. Em regiões sem disputas competitivas, era mais fácil ver uma propaganda eleitoral sobre o Texas do que sobre as disputas estaduais.
Republicanos inundaram as emissoras de TV com propagandas contra Talarico. Uma das críticas era a uma fala do democrata em 2021 sobre direitos das pessoas transgênero, quando afirmou que “Deus é não binário”.
Houve até questionamentos à sua masculinidade. Paxton chegou a dizer que o senador eleito tem “muita pouca testosterona” para representar o Texas, enquanto seu novo companheiro de bancada, o senador Ted Cruz, disse que não descreveria Talarico como sendo alguém “masculino”.
No tom sereno e decisivo que marcou sua campanha, Talarico respondeu aos adversários contando a história de seu pai adotivo, Mark Talarico, que durante sua infância cortava a grama de sua casa e a grama da vizinha, já mais velha – sem que ninguém lhe houvesse pedido.
“Muito se fala nessa campanha sobre o que significa ser um homem de verdade,” Talarico disse em resposta aos ataques. “Me chame de antiquado, mas um homem assume responsabilidades. Ele mantém seu compromisso com a família e seus vizinhos e faz o certo sem que ninguém esteja olhando. Sabem o que homens de verdade não fazem? Eles não mentem e enganam para viver. Eles não enriquecem roubando dos outros e não vendem sua alma para quem oferecer mais. Homens de verdade servem a outros. Homens fracos servem a si mesmo.”