A Dynamo publicou esta semana sua Carta 130,
O Tácito do Tempo. O texto não é sobre relógios – é sobre negócios que se sustentam em confiança, hábito e conhecimento tácito.
A gestora admite que demorou a entender a natureza relacional da rede de varejistas da Technos, sua antiga investida, e promete contar o caso na próxima carta.
Trabalho no mercado de investimentos há mais de 15 anos, e só mais recentemente passei a colecionar relógios. Para mim, a carta é a melhor descrição que já vi do mercado de alta relojoaria.
A Dynamo lembra que a inteligência artificial generativa chegou a 100 milhões de usuários em dois meses – contra 7 anos da internet e 16 do celular – e que os investidores fogem de tudo o que ela pode alcançar.
Faz então um alerta precioso para quem aloca capital. Negócios relacionais aparentam pouca sofisticação e baixa tecnologia embutida. Sua virtude está numa rede construída ao longo de décadas, difícil de replicar e fácil de destruir por quem chega com
playbook e
dashboard. O conhecimento ali não está codificado. Está nas mãos de quem faz e na palavra de quem vende.
O mundo da alta relojoaria é isso em estado puro.
Do lado da oferta, uma manufatura produz poucas peças por ano, com acabamento manual que não escala.
Do lado da distribuição, a alocação de uma referência disputada depende da relação com a marca ou com o
dealer. No secundário, a compra se apoia na confiança no vendedor, na originalidade do relógio, na respectiva documentação, na caixa e na história que o acompanham. É, nas palavras da gestora, o aperto de mão, o olho no olho, o calor humano.
Um mês atrás, a Goldman Sachs havia publicado
Beyond the Sparkle, um guia de compra e colecionismo de joias e relógios de luxo assinado pela área de estratégia de arte e colecionáveis do seu
family office, liderada por Monica Heslington.
O banco coloca relógios e joias na mesma prateleira de arte, vinho, bolsas e carros clássicos, os chamados
passion assets. Recomenda que entrem no planejamento patrimonial das famílias.
Os preços de relógios de luxo subiram 5% em 2025, puxados principalmente por Rolex e Patek Philippe, segundo o Knight Frank Luxury Investment Index. Já os preços no mercado secundário subiram 11% desde julho de 2025.
Quem viveu o ciclo sabe ler esses números. O secundário teve um pico especulativo em 2022 e passou dois anos corrigindo. Os 11% citados pela Goldman são um mercado que digeriu o excesso e voltou a crescer sobre uma base mais saudável, concentrada em peças com fundamento.
É a dinâmica clássica de uma classe de ativos amadurecendo: depois da euforia, a dispersão. Em seguida, o prêmio para quem entende e sabe escolher.
A Goldman é direta nesse ponto. Marca não basta.
Heslington conta que clientes se surpreendem ao descobrir que uma peça caríssima de uma grife de prestígio não é considerada um colecionável de grau de investimento.
O guia diz que valor se avalia peça a peça, e lembra que um item também pode se desvalorizar.
Para determinar se uma joia ou relógio vão preservar valor no longo prazo, são cinco critérios:
raridade;
significado histórico e proveniência;
artesanato;
estado de conservação, com os componentes originais;
autenticidade, com documentação confiável e exame de um especialista independente.
Para quem coleciona, a lista é óbvia. Para o investidor, é um filtro severo. A maior parte do que se vende como luxo não passa por ele.
A segunda metade do guia é pura gestão de patrimônio. Inventário organizado e atualizado. Guarda de toda a documentação de origem, da caixa, da nota de compra ou do recibo do secundário, inclusive para comprovar custo de aquisição para fins fiscais. Avaliações periódicas, que o banco chama de primeiro passo de qualquer plano sucessório. Seguro específico, porque a apólice residencial padrão em geral não cobre o valor integral da peça, sobretudo em viagem.
Soma-se a isso um cuidado que se aplica a qualquer relógio, mas que pesa muito mais nos modelos antigos e é bem conhecido de todo colecionador de
vintage. Na revisão, peças originais não podem ser trocadas sem consentimento do dono, sob pena de destruir parte relevante do valor. É o critério de estado de conservação com componentes originais aplicado na prática. Por fim, sucessão. Perguntar aos herdeiros quem quer o quê, e deixar instruções sobre quais especialistas procurar na hora de vender.
O mercado de crédito já abraçou a nova classe de ativos. A The Treasury, de Miami, fundada por colecionadores com passagem pelo setor financeiro, faz empréstimos de curto prazo com garantia em relógios de luxo. Proposta em horas, liberação em um ou dois dias úteis, custódia segurada, licença de
pawnbroker na Flórida e clientes fora do país. O colecionador acessa liquidez, em dólar, sem desfazer a posição. Quando um objeto vira colateral, ele deixou de ser hobby. Ganhou
haircut, LTV, prazo.
No Brasil, a direção é a mesma, em escala menor. O secundário se profissionalizou, com
dealers que fazem curadoria, autenticam e emitem recibo. Surgiram marcas nacionais de relógios mecânicos, como a Statera, do Paraná, que vende para diversos países e trabalha com esmaltação artesanal. A própria Technos relançou o Skydiver em edição limitada. Nada disso existia nessa escala 15 anos atrás.
Minha leitura é de que a convergência entre a carta da Dynamo e o guia da Goldman não é coincidência de calendário. Num mundo em que a inteligência artificial derruba o custo marginal de tudo o que é digital e replicável, o que não escala ganha outro peso no portfólio.
Um relógio que leva meses para ser montado por uma pessoa é a antítese da abundância. A relojoaria já sobreviveu a um choque como esse. O quartzo quase a matou nos anos 1970, e ela voltou mais valiosa porque deixou de competir em precisão e passou a competir em artesania e significado.
A Dynamo escreve que o choque tecnológico também pode funcionar como disrupção ao contrário. Acredito que é isso que veremos. Não por nostalgia. Por escassez.
Fabrício Almeida é sócio da XP Inc.