Em 1995, ao terminar o antigo primeiro grau, Telma Soares queria fazer um curso técnico, como era comum na época. Na cidade onde morava, as opções eram química, secretariado e processamento de dados. O colégio adventista escolhido pelo pai, que tinha acabado de comprar um computador para a família, só oferecia o último. “Confesso que não sabia nem o que era processamento de dados”, conta. Foi assim, quase por acaso, que ela entrou na computação.

Três décadas depois, Telma Soares é diretora-executiva do CEIA, o Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (UFG), que dirige ao lado dos professores Anderson Soares e Arlindo Galvão. Foi ela quem liderou os projetos com empresas que deram origem ao centro, criado em 2019, e ao bacharelado em inteligência artificial da UFG, o primeiro do país. Unidade da Embrapii, o CEIA reúne 1.150 colaboradores, segundo a universidade, e vai receber R$ 78 milhões do governo goiano até 2031. Telma também dá aulas e orienta pesquisadores no Instituto de Informática da UFG.

A faísca

Os primeiros contatos com o computador vieram aos 13, 14 anos, em plena década da informatização. A virada aconteceu já no primeiro ano do técnico, num curso extra de Visual Basic oferecido pelo colégio e pago por uma tia. Em vez de exercícios puramente matemáticos, a turma construiu pequenos sistemas. “Foi onde fiz os primeiros programas de verdade”, lembra. Ali, Telma encontrou o que gostava de fazer, programar, e decidiu que seguiria na área.

A afinidade com as exatas vinha de antes. No ensino fundamental, um professor de matemática dava pontos extras para quem entregasse exercícios além da lista obrigatória. Telma fazia as atividades regulares, resolvia listas tiradas dos livros de uma tia professora de matemática e levava os calhamaços para a escola, numa disputa com dois colegas para ver quem fazia mais exercícios no bimestre. “Já era uma gamificação”, diz.

A escolha pela academia

Para a graduação, a exigência era uma universidade pública, e os cursos de computação estavam entre os mais concorridos da área de exatas, com 15 a 20 candidatos por vaga. Telma entrou em Ciência da Computação na Unesp, numa turma de 30 alunos com evasão quase nula. “Éramos cinco meninas, e as cinco se formaram no prazo mínimo”, conta.

Na faculdade, ela se aproximou da ciência pela iniciação científica, mas fez estágio também. Ao fim do curso, veio a escolha entre a carreira acadêmica e o mercado. A apresentação de uma das empresas mais disputadas pelos estagiários foi decisiva. O atrativo era o notebook corporativo, mas a rotina era de prontidão permanente. “Ficou muito claro para mim que havia cartão corporativo e notebook da empresa, mas praticamente se trabalhava 24 horas por dia, sete dias por semana”, lembra.

A conta, para ela, passava também pelos planos fora do trabalho. “Nós, mulheres, em grande maioria ainda temos o desejo de constituir família”, diz. “É possível ganhar muito dinheiro, mas é quase vender a vida e a alma nesse processo.”

A academia oferecia outra coisa. “Sempre tive a vontade de gerar coisas novas, a curiosidade de produzir algo diferente, que é o que a carreira acadêmica traz”, afirma. Pesando os outros sonhos de vida, ela concluiu que esse caminho permitiria conciliar as duas coisas. Seguiu direto para o mestrado (2006) e o doutorado (2009) em Ciências da Computação e Matemática Computacional na USP, com pesquisas em meta-heurísticas para problemas modelados por grafos e em bioinformática. Depois, foi aprovada em concurso na UFG.

O mercado, porém, nunca saiu do radar. Desde a graduação e durante o mestrado, Telma trabalhou em projetos com empresas. “A ciência tem a visão de longo prazo, mas nunca perdi a preocupação de devolver algo à sociedade no curto prazo”, diz. “É aí que entram as parcerias com as empresas.”

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O CEIA como missão

Foi essa ponte com o setor privado que deu origem ao CEIA. Telma e Anderson Soares já desenvolviam projetos com empresas desde 2014 quando o governo de Goiás, por meio da Fapeg, os procurou para estruturar o centro. Lançado em dezembro de 2019, o CEIA recebeu R$ 12 milhões no primeiro aporte, R$ 7 milhões deles destinados a bolsas.

Hoje, o centro reúne pesquisa aplicada em inteligência artificial, formação de talentos e parcerias com empresas de setores como alimentos, energia, manufatura e logística, com projetos que vão de gêmeos digitais para plantas industriais ao uso de IA generativa em processos produtivos. Em outubro, lançou o Ceia Lumi, um modelo de linguagem desenvolvido para o português.

Para Telma, porém, o maior orgulho não está nas soluções entregues ao mercado. “As soluções que estão no mercado são muito relevantes, mas, para mim, a maior realização é a formação: as pessoas que estamos entregando e a diferença que fizemos na vida de cada uma delas”, afirma.

Os números ajudam a explicar a escolha. Cerca de 85% dos alunos do bacharelado em IA da UFG recebem bolsa paga por empresas parceiras do CEIA, como iFood, Itaú, Globo e Natura, desde os primeiros semestres. O centro afirma também ter trazido de volta mais de 15 pesquisadores brasileiros que trabalhavam no exterior.

Em sala de aula, Telma vê o papel do professor mudar. “Hoje, o conteúdo está disponível em qualquer lugar”, diz. O desafio, para ela, é facilitar o acesso e traduzir o que está acontecendo. E lidar com a curiosidade dos alunos, que costuma levar a perguntas fora do roteiro. “São situações que nem sempre estavam previstas para aquele momento da disciplina, e é preciso construir a ponte.”

Mulheres na computação: um protagonismo a retomar

Uma questão intriga Telma. Pela experiência dela, nas competições de exatas dos ensinos fundamental e médio, a participação de meninas e meninos é quase meio a meio. “Mas, na hora de escolher a carreira universitária, a maioria não segue. Não sei por quê. É uma curiosidade que tenho”, diz.

Uma pista ela já identificou. “As mulheres olham para a carreira de TI e a veem como uma carreira que cerceia muitos outros anseios e desejos da vida”, afirma. A própria trajetória contradiz essa ideia. “Posso dizer que consegui me realizar em todos os campos. Tenho uma família muito bem constituída, tenho minhas filhas e consigo dedicar tempo a elas, mesmo com a rotina corrida.” Ser referência, diz, é uma responsabilidade que virou objetivo: “Hoje, é uma meta para mim ser inspiração para trazer mais meninas para a computação.”

Ela não esconde que o caminho tem obstáculos. “Em alguns momentos, é mais difícil ser ouvida. Às vezes, é preciso mostrar resultado primeiro”, afirma. “Mas esse caminho está sendo trilhado por outras mulheres.”

Na avaliação dela, as mulheres têm um olhar mais sistêmico para os problemas, e isso pesa na construção de software. Telma dá um exemplo: ao desenvolver um módulo de cadastro de pessoas, é preciso enxergar que ele também terá de conversar com a gestão de projetos. Ver como as peças se interligam, além do que está na especificação, é para ela uma vantagem. “Muitas mulheres acabam achando que a lógica não é para elas. Não é verdade. Às vezes, a solução vem de um olhar mais completo.”

A ideia de que a computação não é lugar de mulher contradiz a própria história da área. Em 1843, Ada Lovelace publicou notas sobre a máquina analítica de Charles Babbage que incluíam o que se considera o primeiro algoritmo escrito para uma máquina. Nos anos 1940, o ENIAC, um dos primeiros computadores eletrônicos, foi programado por seis mulheres. Grace Hopper desenvolveu um dos primeiros compiladores e abriu caminho para a linguagem COBOL. “Precisamos retomar nosso lugar de protagonismo”, diz Telma.

O futuro

Os próximos passos do CEIA já têm base: o convênio de R$ 78 milhões com o governo de Goiás até 2031, a sede própria no Câmpus Samambaia, cuja pedra fundamental foi lançada em fevereiro, e a chegada à Faculdade de Medicina da UFG. Telma quer ver o centro crescer, com mais gente e mais impacto, e chegar a “mais regiões do Brasil, mais pessoas que precisam de oportunidades”. Na liderança desse processo, diz, espera “fazer as escolhas certas para proporcionar esse crescimento”.

E quer que a própria história sirva de incentivo para cada vez mais mulheres, “e homens também”, se dedicarem à tecnologia, uma área que, para ela, ainda tem muito a se desenvolver. “Vai ter um papel cada vez mais relevante no desenvolvimento do país e do mundo.”

Telma Soares integra a lista IT Forum Mulheres, do IT Forum Inteligência, que destaca 35 mulheres da tecnologia.

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