Em um dia frio e cinzento em Curitiba, uma menina encontrou no elevador uma mulher vestida de cinza, de salto alto, com casaco e guarda-chuva da mesma cor. Não sabia qual era sua profissão, mas aquela imagem despertou nela o desejo de seguir um caminho parecido. “Não sei o que ela é, mas quero ser igual a ela”, lembra Sylvia Bellio ao contar a história que, décadas depois, ainda guarda na memória.
Hoje CEO da itl.tech e fundadora do TI de Salto, iniciativa dedicada a conectar mulheres e dar visibilidade a suas trajetórias, Sylvia construiu uma carreira que passou pelo setor financeiro e chegou à infraestrutura de tecnologia da informação. Ao longo desse percurso, enfrentou desafios profissionais e pessoais que ajudaram a moldar sua visão sobre liderança, maternidade e a importância de encontrar apoio em outras mulheres.
Sua história começou em uma família simples. Nascida em Pato Branco, no Paraná, Sylvia se mudou ainda bebê para Curitiba, onde poderia receber o tratamento de saúde de que precisava. Na infância, gostava de estudar, tinha facilidade com matemática e demonstrava inclinação para a liderança. Quando os irmãos nasceram, porém, a rotina mudou: passou a ajudar nas tarefas domésticas e, durante um período difícil vivido pelos pais, acompanhava a mãe em trabalhos de faxina.
Na adolescência, tinha vergonha de contar aos amigos por que não podia sair com eles. “Eu dizia que tinha outros compromissos, que precisava estudar, mas, na verdade, tinha de ajudar minha mãe a limpar casas”, recorda. A experiência foi difícil, mas contribuiu para desenvolver sua autonomia. Aos 14 anos, diante da impossibilidade de pagar uma escola particular, decidiu buscar uma formação técnica e ingressou no curso de eletrônica.
A tecnologia ainda não era um objetivo profissional definido. Sylvia, entretanto, já tinha curiosidade por máquinas e sistemas. Na escola, montou um rádio que acabou explodindo no meio da sala. A escolha pela eletrônica também foi influenciada pela facilidade com matemática e pelo interesse em aprender algo que pudesse abrir portas no mercado de trabalho.
“Eu não sabia o que queria ser”, conta. A imagem da mulher no elevador permaneceu como uma referência intuitiva, enquanto a carreira começou a tomar forma por outro caminho: o setor financeiro.
Do banco à tecnologia
Sylvia começou a trabalhar aos 17 anos, no Unibanco. Curiosa e dedicada, procurava aprender as funções dos colegas antes mesmo de assumir determinadas responsabilidades. Em menos de um ano, passou do trabalho administrativo ao atendimento ao público e, aos 21 anos, tornou-se gerente.
A ascensão veio acompanhada de uma disposição constante para aprender. “Eu era muito curiosa. Lia os manuais e procurava entender como as coisas funcionavam”, diz. A executiva acompanhou a transformação tecnológica do setor bancário, da informatização dos processos às ferramentas que aproximavam os serviços dos clientes. A experiência também lhe permitiu observar como a tecnologia alterava o cotidiano das empresas.
Apesar do crescimento profissional, a rotina no mercado financeiro tinha seus limites. Sylvia descreve o ambiente de trabalho daquela época como muito diferente do atual, com relações hierárquicas mais duras e pouca atenção à dimensão humana da gestão. Depois de cerca de dez anos no setor, decidiu interromper a trajetória, estudar inglês na Inglaterra e recomeçar profissionalmente.
A mudança coincidiu com a maternidade e a ida para São Paulo. Depois de um período afastada do mercado, recebeu o convite do marido para trabalhar com ele como representante comercial. A parceria acabou abrindo caminho para um negócio próprio voltado à infraestrutura de TI, incluindo servidores, armazenamento de dados e soluções de proteção e recuperação de informações.
Voltar ao mercado exigiu aprender novamente e construir conhecimento em uma área diferente daquela em que havia trabalhado por uma década. Sylvia passou a atuar em um segmento em transformação, acompanhando a expansão dos data centers e das tecnologias que sustentam as operações das empresas.
À frente da itl.tech, consolidou sua atuação no mercado corporativo e construiu uma relação de longa data com o ecossistema de parceiros da Dell EMC. A empresa foi reconhecida quatro vezes entre os principais canais de vendas da fabricante no Brasil, segundo informações publicadas pelo Diário do Comércio em fevereiro de 2024.
A transição do emprego formal para o empreendedorismo, contudo, mudou também sua relação com o trabalho. “Eu achava que empreender significava trabalhar muito, mas era praticamente 24 horas por dia, sete dias por semana”, relata. Jantares e conversas em família frequentemente giravam em torno dos negócios, enquanto as responsabilidades profissionais se acumulavam às demandas da maternidade.
A culpa que outras mulheres também sentiam
Durante anos, Sylvia tentou corresponder a diferentes expectativas ao mesmo tempo: ser uma boa mãe, filha, esposa e profissional, além de cuidar da casa e manter a independência financeira. A cobrança se tornou pesada até que conversas com outras mulheres começaram a mudar sua perspectiva.
“Minha mãe me ensinou que eu precisava ter independência financeira, mas não me disse que eu não precisava acertar tudo”, conta. Sylvia percebeu que havia incorporado a ideia de que precisava dar conta de todas as responsabilidades sem falhar — mesmo quando as exigências pareciam incompatíveis.
A culpa aparecia em situações cotidianas. Uma ligação da escola da filha, por exemplo, podia ser suficiente para despertar a sensação de que havia deixado alguma coisa passar. Com o tempo, ela começou a questionar a expectativa de perfeição e a reconhecer que compartilhar as dificuldades ajudava a relativizar a cobrança.
Um marco nessa mudança ocorreu em 2016, durante um evento global de empreendedorismo feminino promovido pela Dell. Até então, Sylvia estava acostumada a participar de reuniões de negócios em que era a única mulher. Ela integrava o conselho consultivo de parceiros da empresa e, segundo conta, conseguia se posicionar nesses ambientes. O encontro, porém, apresentou outra possibilidade: a de trocar experiências com mulheres que viviam desafios semelhantes.
O evento reuniu mais de 200 participantes de mais de 27 países. Ali, Sylvia encontrou empreendedoras de diferentes contextos que compartilhavam preocupações parecidas, inclusive a culpa associada à tentativa de conciliar trabalho e vida pessoal. “Todas tinham culpa. E eu pensei: ‘Opa, não sou só eu’”, lembra.
A descoberta mudou sua percepção sobre a importância das conexões femininas. Ela voltou do encontro com vontade de se aproximar de outras mulheres e percebeu que, apesar de ter muitas conexões profissionais no LinkedIn, ainda tinha poucas mulheres em sua rede.
A experiência também revelou a importância de ambientes em que as participantes pudessem conversar sem receio de julgamento. Sylvia recorda que, em eventos corporativos, muitas vezes preferia voltar ao quarto depois das atividades oficiais. No encontro de 2016, viveu uma experiência diferente: “Eu percebi que estava em um ambiente seguro”, conta. Era possível conversar, dançar e compartilhar frustrações sem que isso se transformasse em motivo para questionar sua competência ou sua conduta.
A ideia de criar uma rede de mulheres começou a ganhar forma naquele período, mas foi durante a pandemia que o projeto avançou.
Histórias que se transformaram em comunidade
Em março de 2020, Sylvia decidiu tirar do papel a ideia de registrar as experiências de outras mulheres. Convidou profissionais para compartilhar suas histórias e começou a organizar o primeiro livro do TI de Salto. O projeto foi estruturado em cerca de 30 dias, em um momento em que a pandemia havia interrompido a rotina presencial e ampliado a necessidade de conexão.
Inicialmente, a proposta era reunir aproximadamente 20 relatos. A resposta, porém, foi além do esperado. Outras mulheres quiseram participar, e a iniciativa começou a assumir o formato de uma comunidade. “Eu queria contar a minha história, mas não achava que ela era importante”, diz Sylvia, ao recordar as dúvidas que também enfrentou antes de dar início ao projeto.
O TI de Salto cresceu a partir desse movimento. O que começou com a publicação de histórias passou a incluir encontros, grupos de troca e iniciativas para ampliar a presença feminina na tecnologia. Segundo Sylvia, a comunidade reúne cerca de 2,6 mil mulheres no LinkedIn, já publicou cinco livros e conta com mais de 120 histórias. Um novo volume estava previsto para março, conforme a entrevista.
A procura também se reflete nos encontros presenciais. Uma confraternização planejada inicialmente para 125 participantes chegou a 180 inscritas, com lista de espera. Para Sylvia, a dimensão desses encontros evidencia a necessidade de espaços em que as mulheres possam conversar sobre os desafios do trabalho e da vida pessoal sem precisar sustentar permanentemente uma imagem de controle.
“É um lugar para respirar, para falar e para poder chorar, se precisar”, afirma. A proposta é permitir que as participantes compartilhem dificuldades, peçam conselhos e encontrem profissionais que já passaram por situações semelhantes. Essa troca, explica, pode oferecer caminhos práticos para lidar com problemas cotidianos e evitar que cada mulher precise descobrir sozinha como enfrentá-los.
O apoio também se traduz em iniciativas de formação. Além dos livros e encontros, o Instituto TI de Salto, organização filantrópica lançada em São Paulo em 8 de março de 2024, busca capacitar jovens mulheres para carreiras em tecnologia. A atuação amplia o alcance do projeto para além das profissionais que já estão no mercado, com a intenção de aproximar novas gerações de oportunidades no setor.
Para Sylvia, dar visibilidade às trajetórias femininas é parte desse processo. As histórias mostram que os caminhos não são lineares e que as dificuldades podem ser enfrentadas de diferentes maneiras. “Quanto mais pessoas falarem sobre o tema, quanto mais livros, histórias e exemplos existirem, melhor”, defende.
Ela também vê valor em saber que outras mulheres já enfrentaram obstáculos semelhantes. Ao conhecer essas experiências, uma profissional pode encontrar alternativas para uma situação difícil, reconhecer que não está sozinha ou simplesmente perceber que não precisa passar pelas mesmas dificuldades sem apoio.
Uma rede para abrir caminhos
A mulher de cinza que Sylvia encontrou no elevador continua sendo uma lembrança marcante porque representou uma possibilidade antes mesmo de ela saber qual era aquela profissão. Na época, faltavam informações sobre o caminho que poderia seguir; havia apenas o desejo de se imaginar em outro lugar.
Hoje, ao reunir histórias de mulheres que construíram suas carreiras na tecnologia, Sylvia ajuda a ampliar o repertório de referências para quem está começando ou busca avançar profissionalmente. O TI de Salto combina reconhecimento, conexão e capacitação para transformar experiências individuais em conhecimento compartilhado.
A executiva também reconhece que a liderança e o empreendedorismo podem ser solitários. Quem toma decisões precisa lidar com responsabilidades que nem sempre podem ser divididas, mesmo quando há conselhos, consultores e pessoas de confiança por perto. Ter uma rede, nesse contexto, não elimina os desafios, mas permite encontrar escuta e orientação para enfrentá-los.
A menina que viu uma mulher de cinza no elevador não sabia quem ela era, mas conseguiu imaginar-se seguindo um caminho parecido. Décadas depois, Sylvia Bellio constrói uma comunidade para que outras mulheres encontrem referências, compartilhem suas experiências e descubram que não precisam trilhar sozinhas suas trajetórias na tecnologia.
Sylvia Bellio integra a lista IT Forum Mulheres, do IT Forum Inteligência, que destaca 35 mulheres da tecnologia.
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