Rita de Cássia Piciura gostava de montar e desmontar coisas antes de saber que faria disso uma carreira. Quando criança, ganhou um ferrorama e queria entender como as peças se encaixavam. A curiosidade ficou. Anos depois, começou a trabalhar para ajudar a pagar os próprios estudos e conseguiu uma vaga como assistente da secretária de um gerente de tecnologia.
Era um tempo anterior às estruturas de service desk e help desk como as conhecemos hoje. Quando o telefone tocava, Rita não se limitava a anotar o recado. Perguntava: “Posso ajudar?”. O gerente percebeu o interesse e quis saber se ela não preferia trabalhar com aquilo. “Comecei com infraestrutura, hardware mesmo, trabalhando com instalação de equipamentos, de telecomunicações, enfim. Isso me deu base para as áreas pelas quais eu passei depois.”
Apesar de ter certeza de onde queria chegar, o percurso foi diferente do esperado. Rita desejava cursar mecatrônica e se aproximar da robótica, mas o curso da USP era integral e deixar o trabalho não era uma opção. Optou por processamento de dados. Hoje, chama considera a mudança “a decisão mais acertada e menos premeditada” de sua vida.
Vieram os data centers, a era dos ERPs e projetos globais que a levaram a viver em Londres e Paris. Trabalhando com implantações em países e culturas diferentes, descobriu que a parte mais difícil de uma transformação nem sempre estava no sistema. “A tecnologia por si só não transforma”, diz. “A diferença está nas pessoas.” Entender o contexto, as resistências e até o estado de espírito de quem estava do outro lado podia ser tão importante quanto dominar uma ferramenta.
Ser mulher acrescentou outras camadas. Em ambientes industriais e de automação, quase sempre masculinos, ouviu “essa chave de fenda é para quem?” quando era ela quem lideraria o trabalho. Mais tarde, as barreiras ganharam sutileza: ouviu que uma mulher dificilmente chegaria à diretoria porque, em algum momento, escolheria ter filhos e abriria mão da carreira.
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Rita diz que essas experiências tornaram seu olhar mais atento. “Quando você vive na pele algumas situações, isso te torna mais empática.” Para ela, não basta reunir pessoas diferentes em uma equipe. O ambiente precisa estar preparado para que a diversidade seja inclusiva, “e não somente estatística”.
Hoje, como CIO da All4Labels para a América Latina, ela leva para a cadeira executiva uma convicção amadurecida ao longo da carreira: “Tecnologia hoje é negócio.” Na companhia, que cresceu por aquisições, um de seus desafios foi ajudar a construir uma área capaz de integrar mais de dez organizações, cada uma com sua cultura e seu nível de maturidade tecnológica. Por isso, prefere não chamar o processo apenas de transformação digital. “Ele é organizacional.
A mesma cautela aparece quando fala de inteligência artificial. Rita reconhece a ruptura, mas evita tratá-la como solução universal. A IA “não é uma bala de prata”. Em um mundo no qual tudo parece exigir respostas imediatas, ela acredita que o profissional de tecnologia precisa ser, acima de tudo, adaptável e curioso, capaz de aprender rápido e de escutar antes de escolher a ferramenta.
Se pudesse voltar à jovem que começava a abrir máquinas e atender telefonemas, Rita daria dois conselhos. O primeiro ela já conhecia: “Não precisa ser fácil, basta ser possível.” O segundo demorou mais para aprender: “Não é necessário estar sempre pronta para assumir um desafio.” Parte da preparação, afinal, acontece durante o caminho.
Rita Piciura integra a lista IT Forum Mulheres, do IT Forum Inteligência, que destaca 35 mulheres da tecnologia.
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