Paula Rebelo queria ser jornalista. Gostava de ler, era comunicativa e desinibida, e acreditava que esse era o caminho a seguir. Tudo mudou quando o pai lhe falou de uma área nova, que começava a ganhar espaço nos anos 1980: a informática. O fator decisivo ficou por conta do destino. Em Maringá, onde vivia, não havia curso de jornalismo. De processamento de dados, sim. Ela resolveu experimentar. “Eu me encantei pela tecnologia desde o primeiro contato.”

Nascida em Angola, Paula veio para o Brasil aos cinco anos, com a família, fugindo da guerra civil. Os avós haviam deixado Portugal em busca de oportunidades na África, e os pais se conheceram e se casaram lá. No Paraná, a família recomeçou.

Na universidade, Paula descobriu a programação em uma época de mainframes e centros de processamento de dados. Gostava de criar sistemas. Depois de formada e de uma passagem por uma software house, chegou à Cocamar como analista e programadora. Ficou. Hoje, é executiva de TI e Gestão da cooperativa. A liderança, segundo ela, não foi um plano traçado: surgiu à medida que assumia projetos, responsabilidades e equipes.

Uma das primeiras viradas aconteceu nos anos 1990. A tecnologia deixava os mainframes e se espalhava por pequenos servidores nas unidades da cooperativa. Eram cerca de 30 ambientes descentralizados, conectados por modem. Paula liderou a centralização das bases em um data center, mudança que, na época, parecia futurista. “Acredito que aquele foi o momento decisivo para mostrar que eu tinha capacidade de liderança.”

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Depois vieram o bug do milênio, a internet, a mobilidade e a nuvem. Agora, a inteligência artificial. Paula costuma comparar uma grande organização a um transatlântico: não se muda a rota de uma hora para outra. Por isso, a inovação também exige encontrar maneiras de ganhar velocidade dentro de estruturas complexas.

No agronegócio, traduzir a tecnologia para o dia a dia tem particularidades. O produtor pode usar equipamentos sofisticados na lavoura e, ainda assim, preferir ir à unidade de atendimento mais próxima, conversar com o agrônomo e tomar um café. Paula aprendeu que, para conquistar a confiança do produtor, toda novidade precisa provar seu valor. Foi assim com as estações meteorológicas, com os aplicativos e, mais recentemente, com o Tiagro, um agrônomo digital baseado em inteligência artificial. “O homem do campo costuma ser desconfiado. É preciso mostrar que a solução realmente funciona para ele.”

O mesmo pragmatismo orienta a agenda de inteligência artificial (IA) na Cocamar. Paula estruturou iniciativas de capacitação, como o programa IA para Todos, e projetos voltados a ganhos concretos de produtividade. Antes disso, porém, a cooperativa investiu na organização dos dados. “Os processos precisam estar bem estruturados, assim como os dados. Fizemos um trabalho consistente para construir essa base para a IA.”

Construir essa trajetória nos setores de tecnologia, indústria e agronegócio também significou aprender a circular por ambientes majoritariamente masculinos. Paula conta que avançou, muitas vezes, “fingindo que não existia machismo” e escolhendo quais batalhas valiam o desgaste. Hoje, nas mentorias que oferece a outras mulheres, encontra histórias ainda mais duras e procura construir o tipo de parceria que considera decisivo para que elas permaneçam na área.

Depois de tantas fases, Paula ainda fala de tecnologia com o entusiasmo de quem está começando. Diz estar “apaixonada” pela inteligência artificial e já tem um plano para quando deixar a gestão: voltar a programar e criar aplicativos.

 Paula Rebelo integra a lista IT Forum Mulheres, do IT Forum Inteligência, que destaca 35 mulheres da tecnologia.

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