Aos três da manhã, com uma garrafa de café que a mãe havia preparado, Telma Luchetta esperava o ônibus circular até a Unicamp. Em pelo menos duas ocasiões, o cansaço venceu antes do coletivo chegar.

Hoje, ela é sócia da EY e a primeira mulher a ocupar esse posto na área de Financial Services da consultoria, à frente de uma estrutura com quase 500 profissionais. Uma das executivas reconhecidas pelo IT Forum Mulheres 2026, Telma carrega uma trajetória que começa numa família do interior de São Paulo onde o esforço de uma geração sempre abriu caminho para a seguinte.

Caçula de três irmãos, ela cresceu em uma região periférica do interior paulista. O pai, projetista de vagões de trem e de ônibus, era “aquele profissional que não faltava nunca”. A mãe, dona de casa, estudou apenas até a quarta série e dedicou a vida a cuidar da família. Aos 50 anos, após a separação, decidiu recomeçar. “Ela fez o supletivo em dois anos, depois o ensino médio, e prestou faculdade. Com 60 anos, se formou em direito como uma das melhores alunas e abriu seu escritório, tudo isso em dez anos.”

Observar, absorver, executar

A disciplina que Telma carrega veio do pai. “Ele trabalhava demais, todos os dias”, conta. “Hoje isso vive comigo: em qualquer lugar em que eu trabalhe, vou acabar trabalhando além da conta.” Com os colegas de trabalho foi igual: observava, absorvia, entendia como as coisas funcionavam antes de agir.

A futura executiva começou a trabalhar aos 13 anos, em locadora de vídeo, loja de roupas e comércio em geral. Depois de um estágio em uma indústria têxtil, escolheu estatística na Unicamp, onde conseguiu bolsa para trabalhar durante o curso em período integral. Nas férias, dobrava as horas para ganhar um pouco mais, enquanto os colegas voltavam de viagem.

A mãe fazia parte da rotina. “Ela preparava uma garrafa de café para mim, e eu ficava estudando às três da manhã. Depois pegava o circular até a faculdade.” Em pelo menos duas ocasiões, adormeceu no ponto e viu o ônibus passar. “Foi muita luta.”

Depois de uma passagem pela Danone, foi para o mercado financeiro e não saiu mais. Passou a liderar estruturas de analytics, quando a área ainda se chamava CRM, e, após cerca de dez anos como cliente, virou consultora. Há 15 anos na EY, foi gerente, gerente sênior, diretora e sócia.

Um caminho que ninguém desenhou

A trajetória, porém, não seguiu um roteiro pronto. Ao virar diretora, Telma montou um plano estratégico para a carreira, com os clientes que pretendia acessar e os temas que levaria a eles, e o apresentou a sócios e ao seu líder da época, todos homens. “Eles começaram a rir entre eles: ‘Telma, segue sua intuição’. Ou seja: você virou gente grande, agora se vira.”

Ela seguiu a intuição. Quando o presidente da EY pediu que cada sócio e diretor exercesse o intraempreendedorismo, juntou os dois recados e foi à luta. Imprimiu artigos que havia escrito, mandou encadernar em espiral e encheu o porta-malas para bater na porta de clientes. “Mas não como vendedor de bíblia”, brinca. O primeiro projeto alocou uma pessoa em uma empresa de meios de pagamento. Depois foram duas, cinco, 20, 50. Hoje, são quase 500 profissionais na estrutura que lidera, que reúne dados, inteligência artificial (IA) e tecnologia. “Foi sempre uma comemoração após a outra.”

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Foi o que ela construiu que a levou à lista. O caso inscrito no IT Forum Mulheres nasceu no Banco do Brasil, em parceria com a IBM: uma metodologia criada por ela e sua equipe, inexistente no mercado, que hoje sustenta 2,3 mil casos de uso. Telma divide o crédito. “Quando falo ‘eu’, falo de mim e da minha equipe.” Ainda assim, duvidou de si. No ano anterior, ao ver no telão a foto das mulheres selecionadas, entre elas clientes suas, concluiu que nunca estaria ali. “Falei em voz alta: ‘será que eu tenho que mudar de profissão?’” Ao receber a notícia, o primeiro impulso foi se sabotar. “Depois de refletir, pensei: acho que minha história é merecedora disso.”

Três gerações que comemoram juntas

Em casa, a conquista nunca foi só dela. Quando virou sócia, em 2020, no primeiro ano da pandemia, não houve festa: a promoção foi comemorada na sala, pela televisão, com a mãe e a filha ao lado. Na última Febraban Tech, ao saber que daria uma entrevista ao vivo, avisou a família no grupo de mensagens. “Minha mãe, minha filha, todo mundo comemorando”, conta.

A proximidade tem um preço, que Telma não esconde. “Olho para trás e vejo que a pessoa que mais sofreu o impacto da minha carreira foi a minha filha. Ela sempre teve que abrir mão das vontades dela, como criança, para respeitar a vida que eu escolhi.” A filha, hoje com 20 anos, já participa de cirurgias. Telma a descreve como “super aplicada, dedicada” e diz que a cobrança em casa foi a mesma que aplica no trabalho. “Fui uma mãe dura do ponto de vista de exigência, mas sou muito mãe no sentido de proteção.”

“Hoje sou uma referência para a minha família”, diz.

Preparar quem vem depois

A mesma mistura guia a forma como Telma lidera, principalmente as mulheres da equipe. Ela lembra o que enfrentou. “A nossa época era muito mais difícil. Tínhamos clientes que faziam até assédio sexual, e a gente tinha que se fazer de tonta para não ser prejudicada.” Hoje, diz, há mais transparência, embora o problema persista. Recentemente, ouviu de um sócio que conseguia boas agendas por ser simpática. “Respondi: ‘Sou simpática, muito obrigada, mas isso aqui é competência.’”

Por isso, tenta poupar quem vem depois do que ela viveu, sem facilitar o que não dá para facilitar. “Procuro pensar como fazer o caminho delas mais fácil do que foi o meu. Mas mostro que não tem caminho fácil. Não torno a vida deles mais fácil, porque preciso prepará-los para tudo o que vão passar.”

A preocupação com a próxima geração aparece também quando fala de tecnologia. Para Telma, a IA é um marco comparável à internet, com ganhos “gigantescos” para a medicina, área da filha. O receio é com o que se perde pelo caminho. “Antes, pensávamos em cada palavra de um e-mail. Hoje escrevo e peço para a IA ajustar o tom. A minha preocupação é: quais capacidades essa nova geração vai desenvolver?” Ela admite que pode estar enganada. “Pode ser que eu esteja sendo míope.”

O que faz o caminho valer

Entre a mãe que recomeçou aos 50 e a filha que está começando agora, Telma ocupa o meio da linha e sabe o que isso significa. Para ela, o tamanho da conquista depende de onde se parte. “Para algumas pessoas pode não ser nada, mas, para mim e para quem importa para mim, eu cheguei longe demais.”

Telma Luchetta integra a lista IT Forum Mulheres, do IT Forum Inteligência, que destaca 35 mulheres da tecnologia.

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