O primeiro dia de Milena Leal no Google Cloud foi também o último no escritório por um bom tempo. Depois de quase 12 anos na Oracle, onde havia chegado à posição de diretora sênior e liderava grandes times, ela atravessou a porta do escritório do Google em São Paulo com o frio na barriga de quem troca o conhecido pelo incerto. Ao fim do onboarding, veio o aviso: a partir do dia seguinte, todos trabalhariam de casa. Era o início da pandemia.
“A vida inteira eu fui a primeira a chegar e a última a ir embora. Como eu ia trabalhar de casa?”, lembra. Do outro lado da linha, Eduardo López, presidente do Google Cloud para a América Latina, que a havia convidado para a empresa, respondeu com a orientação global: ir para a casa e se organizar. “Não deve demorar muito.” Todos se lembram. Demorou dois anos. Foi nesse período, sem conhecer ninguém pessoalmente, que ela construiu vínculos, montou time e conquistou confiança em uma empresa nova.
Seis anos depois, Milena comanda a operação. Em janeiro de 2026, foi promovida a country manager do Google Cloud no Brasil, reportando a López. A trajetória até ali, porém, começou bem longe dos escritórios envidraçados das big techs.
A entrada na tecnologia não foi uma escolha, conta ela. Foi obra do destino, da conversa em um ponto de ônibus. Sua mãe comentou com uma desconhecida que a filha, então recepcionista de uma academia, precisava de um emprego que pagasse melhor. A mulher procurava justamente alguém para a recepção de sua empresa, uma revenda de computadores e equipamentos de fabricantes como a HP, que ficava ao lado da casa da família.
Seis meses depois, Milena pediu mais desafios aos donos e ganhou uma vaga de vendedora no call center. De cliente em cliente, chegou ao ecossistema da SAP, passou por parceiros da fabricante alemã e, depois, pela própria SAP. Foi já ali que decidiu cursar Direito, movida por um senso de justiça que a acompanha desde cedo. Quando se formou, porém, a conta não fechava: recomeçar na advocacia significaria renunciar a salário, benefícios da empresa e uma carreira já em ascensão.
“Gosto muito do Direito, mas percebi que podia fazer o que eu queria, impactar o mundo, usando a tecnologia”, diz. O diploma não ficou na gaveta. Segundo ela, o Direito é essencial nas negociações com clientes até hoje. “Acredito que todo mundo deveria ter Direito na escola, nem que fosse o constitucional básico.”
O teto e a coragem
Na Oracle, que ela descreve como uma escola de vendas, Milena deu o maior salto da carreira: de vendedora a gestora, diretora e diretora sênior. Até bater no teto. “Ou por eu não fazer parte do grupo que já tinha o caminho certo, ou porque realmente já não dava”, avalia. Oportunidades de crescimento surgiram fora, os líderes pediram que ficasse, e outros foram promovidos enquanto ela permanecia no mesmo lugar. “Em um dado momento, você decide não esperar mais. A balança já não estava equilibrada”, conta com honestidade.
O convite de López, que também havia passado pela Oracle, veio com uma provocação. No Google Cloud, ela seria contribuidora individual, sem ninguém reportando a ela. “Você tem coragem?”, perguntou ele. Milena teve. No primeiro ano, montou a proposta de valor por indústria e contratou seis industry advisors, um por segmento estratégico. No segundo, foi chamada para estruturar o time de vendas. A história, diz, virou exemplo que repete para quem a procura em momentos de transição de carreira: às vezes é preciso trocar a zona de conforto pela chance de construir algo do zero.
Ao longo de décadas em vendas, Milena aprendeu na prática que o jogo não é o mesmo para homens e mulheres. “Pode parecer arrogante, mas é genuíno: a mulher tem de entregar mais, tem de ser melhor ou mais eficaz para ter chance”, afirma. O motivo, explica, está na lógica da “roda”. Os grupos que saem para beber e viajam juntos tendem a se apoiar, e na hora da promoção escolhem o amigo. “Entre o amigo e uma mulher que não faz parte daquela roda, é preciso um motivo muito forte para não trazer o amigo”, sentencia.
Ainda hoje, mesmo à frente da operação brasileira, ela costuma ser a única mulher em posição de liderança em reuniões com presidentes de clientes. E percebe que, sem domínio profundo do assunto, o respeito se perde rápido. Daí o conselho que dá às mulheres com quem trabalha: estudar mais, preparar-se mais e se posicionar no momento certo, porque o viés inconsciente vai tender a enxergá-las como menos do que o homem sentado ao lado, no mesmo cargo.
Há também uma lição aprendida a duras penas. No início da carreira, acreditava que precisava se masculinizar para pertencer àquele mundo. Para tal, muitas vezes adotava uma postura dura. Ninguém lhe deu feedback. “Ao contrário do que eu imaginava, aquilo me colocava em uma posição de inferioridade, de uma mulher grosseira”, reconhece. Hoje, defende que é possível ter posicionamento executivo sem renunciar à sensibilidade e à capacidade de suporte emocional. E cobra de quem já chegou a qualquer nível de liderança, de gestoras de primeiro nível a presidentes, a responsabilidade de olhar para a próxima e dar o retorno que ela não recebeu.
Voz, não favor
Antes mesmo de assumir o comando no Brasil, Milena já liderava a frente de mulheres do Google Cloud na América Latina. O que mudou com o novo cargo, diz, foi o alcance da voz. Ela leva os programas internos como referência para os clientes, cria iniciativas conjuntas de desenvolvimento e busca incentivos de educação para organizações que apoiam mulheres em situação de vulnerabilidade.
O cuidado, ressalta, está em não confundir inclusão com favor. Recentemente, um cliente lhe perguntou se ela estava sugerindo que ele abrisse espaço e colocasse “qualquer mulher” em uma vaga.
A resposta virou um argumento que ela repete: diante de uma posição de liderança, o processo deveria começar com um pipeline justo, com metade de homens e metade de mulheres. “Se tem oito homens e duas mulheres, a probabilidade de colocar um homem é maior. Eu não quero que você faça um favor. Eu quero que se permita olhar os talentos que existem”, lembra.
A nuvem número um
No negócio, as metas que Milena declarou ao assumir o cargo seguem no radar: tornar o Google Cloud a primeira nuvem do Brasil “e depois do mundo”, diz, e transformar a empresa em conselheira estratégica dos clientes. A companhia não divulga números locais, mas a executiva afirma que o País ganhou relevância global. Como sinais, cita a presença dos presidentes globais no Google Cloud Summit Brasil, um dos maiores eventos da empresa no mundo, e o anúncio de que a capacidade de infraestrutura no País será dobrada para acompanhar a demanda.
A aposta para ganhar terreno está em pacotes verticais de inteligência artificial (IA). Ela cita o Gemini Enterprise for Financial Services, conjunto de agentes já preparados para processos do setor financeiro, apresentado aos bancos brasileiros recentemente. A lógica, explica, é entregar quase um pré-pacote que acelere a adoção. “Queremos que nossos clientes permaneçam conosco porque reconhecem nossa capacidade de contribuir para a transformação de suas organizações, e não por imposições contratuais ou pela possibilidade de aplicação de multas”, afirma.
O planejamento de 2027, em discussão agora, chega com desafios. A meta não é crescer uma ou duas vezes, mas de forma exponencial. Ainda assim, ela considera o desafio factível e resume a tese que leva ao time: empresas que vão bem adotam IA para acelerar e sair na frente; as que vão mal precisam dela para ganhar eficiência e cortar custos. “Há uma oportunidade de ampliar as vendas para todos os públicos”, afirma. A executivo ressalta, ainda, o papel das pessoas no desenvolvimento dos agentes de IA. “São os humanos que constroem esses agentes.”
Conselho para a Milena do passado
É justamente esse lado humano que aparece quando ela imagina um encontro com a Milena do passado. Em um mundo em que a IA permite criar aplicações sem saber programar, os soft skills nunca foram tão importantes, defende: flexibilidade, empatia, resiliência e capacidade de adaptação.
O conselho que daria a si mesma é usar o que tem de feminino a seu favor, como a empatia, o cuidado e a atenção ao desenvolvimento do outro, em vez de adotar atitudes para ser aceita. E, sobretudo, não esperar a prontidão total. “Ninguém estará totalmente preparado. Se já tiver 80% do preparo necessário, siga em frente. O aprendizado se consolida no exercício da função”, acredita ela.
Ao final da conversa, Milena faz questão de dividir o crédito. Diz que chegou aonde está por ter aprendido a juntar e respeitar um grupo brilhante e que procura contratar pessoas melhores do que ela, inclusive ex-presidentes de outras empresas, sem medo de perder o lugar. “Preciso aprender com elas e delegar para ter tempo de aprender outras coisas.” A energia de “furacão” com que chega ao escritório, reconhece, não vai longe se o time não entregar o melhor.
Para ela, o cargo representa uma condição transitória, não uma identidade. “Ocupamos uma posição, mas ela não define quem somos. Nada é imutável.” Por isso, define-se como uma líder servidora, dedicada ao time e aos clientes, postura que considera essencial para a longevidade na função. Com a serenidade de quem já trocou a segurança pela incerteza mais de uma vez, acrescenta: “Se não der certo, tudo bem. O importante é estar feliz com as minhas escolhas”, encerra.
Milena Leal ntegra a lista IT Forum Mulheres, do IT Forum Inteligência, que destaca 35 mulheres da tecnologia.
Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!

