Santos, 1997. Uma jovem de 16 anos recebe um telegrama: foi aprovada na dinâmica da IBM, em São Paulo, e precisa seguir para a próxima etapa. A família, de origem italiana, tem medo de deixá-la ir sozinha à capital. A avó Leonor abre a lista telefônica, a “tecnologia” da época, e ajuda a neta a descobrir como chegar.

Fabiana Tellaroli foi sozinha, de ônibus, e chegou muito além da parada que previa. Até hoje guarda o telegrama como registro do próprio mérito. “Esse telegrama mudou a minha vida.”

A coragem tinha raízes antigas. Nos anos 1980, a tia Vilma, desenvolvedora de sistemas da Petrobras em Cubatão (SP), levava a sobrinha pequena a eventos da empresa. Foi assim que a menina conheceu um centro de processamento de dados (CPD). Aos 11 anos, quando a tia comprou um computador, Fabiana passou a frequentar a casa dela para jogar e fazer trabalhos de escola. “Eu lembro até hoje da configuração do computador 286.”

Filha de Edison e da professora Aglair, Fabiana cresceu numa família simples e entendeu cedo que trabalho e estudo eram pilares. Teve como referência tios e primos da área de exatas e, sobretudo, a irmã Paula, formada em Engenharia Química pela Poli-USP. “Minha irmã é uma grande inspiração, minha parceira de vida.”

Fabiana não passou na USP, mas aos 16 anos entrou no curso de Processamento de Dados da Faculdade de Tecnologia (Fatec). “Eu pensei: gente, eu tenho futuro. Abriram a minha porta!”

Quando problemas viram combustível

Um anúncio no mural da Fatec levou Fabiana à IBM. Para a entrevista, ela estudou a empresa e as ferramentas da época, como o Lotus 1-2-3, e surpreendeu o entrevistador. A preparação virou método. “Para qualquer reunião, eu me preparo sempre. E estava pronta.”

Na IBM, a estagiária entrou na primeira turma de trainees de SAP. Formada para desenvolver sistemas, acabou em infraestrutura, na área conhecida como SAP Basis, e se apaixonou. Em quase oito anos na empresa, passou por projetos no Rio de Janeiro, em São José dos Campos (SP), em Nova Jersey (EUA) e em Amsterdã (Holanda). Quando surgia uma tecnologia nova ou uma crise, chamavam Fabiana. “Eu queria sempre estar no projeto com uma tecnologia nova que ninguém queria.”

O gosto pelo difícil é quase uma filosofia. “Brinco que gosto mais de problema do que de solução, porque é justo nele que a gente vê oportunidade.” Ela não se considera competitiva. O que a move, diz, é o aprendizado. “Tenho grande dificuldade de fazer a mesma coisa por muito tempo, porque eu mesma vou me desafiar.”

Em 2002, casou-se com Carlos Eduardo, colega da área de TI. Em 2005, ingressou na Accenture.

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A gestora que não imaginava ser

Fabiana se considerava especialista. “Eu me via como líder técnica, uma referência técnica.” Um gestor, porém, enxergou nela potencial de liderança na forma como delegava e administrava o tempo. A carreira executiva parecia improvável, mas a ideia não saiu mais da cabeça dela.

Já como gerente, Fabiana buscou formação executiva: fez MBA na Fundação Instituto de Administração (FIA) e um MBA internacional em Grenoble, na França. Viveu no país sem falar francês, estudando de dia e trabalhando à tarde, na janela do fuso do Brasil. Mais tarde, uma diretora a levou para montar a infraestrutura dos centros de entrega da Accenture.

Seis meses depois, com cinco projetos sob sua responsabilidade, veio a notícia inesperada da primeira gravidez. Fabiana temeu perder a oportunidade, mas se surpreendeu com o apoio do gestor e da empresa. A gestação foi difícil. Durante o surto de H1N1 de 2009, ela foi contaminada e hospitalizada, e Mateus nasceu prematuro, com 32 semanas.

Coração de mãe

Na volta ao trabalho, a culpa se instalou, e Fabiana chegou a pensar em parar. Quem mudou sua perspectiva foi o pediatra: “Mãe feliz, criança feliz. Não é a quantidade, é a qualidade.”

Ela também contou com o marido, que virou pai no susto da antecipação e dividiu com ela o projeto mais importante da vida dos dois. “Um levava Mateus para o berçário, o outro buscava, um cuidava do sono dele, o outro da comida, e assim foi.” A família do marido e um berçário de confiança completaram a rede de apoio.

Arthur veio logo depois. A segunda gravidez era planejada, mas aconteceu antes do esperado, justamente quando Fabiana recebeu o convite para liderar um hub de cerca de 30 pessoas da Accenture. “Mais uma vez, fui promovida grávida e tudo deu certo.” Ela resume a lição: “Plantando o bem, ele volta, sem esperar nada em troca.”

A ascensão também trouxe aprendizados. Como líder de gerentes, Fabiana descobriu que a carreira tem altos e baixos e que decisões difíceis exigem calibrar a comunicação. “O peso do que a gente fala muda cenários.” Aprendeu a ouvir críticas mesmo quando discordava delas. “Somos muito responsáveis pela mensagem que a gente transmite.”

Com os filhos pequenos e numa função comercial distante do seu perfil, sentiu que não estava “nem feliz, nem realizada”. Nesses casos, diz, o melhor é mudar a trajetória. Em 2019, foi para a Tivit, onde, recebida por uma gestora, passou a liderar projetos de transformação digital e nuvem.

O universo conspira

A pandemia antecipou mais uma escolha. Trancada com o marido e os filhos num apartamento em São Paulo, Fabiana refletiu sobre qualidade de vida e decidiu se mudar para o interior. A porta de entrada para essa nova fase foi o LinkedIn, onde sinalizou que estava aberta a oportunidades. Logo um recrutador da John Deere fez contato. “Eu estava tão enferrujada. Nunca tinha feito uma entrevista assim estruturada.” A insegurança não se confirmou: ela foi contratada em maio de 2021 e encontrou um desafio do seu tamanho. “Quando eu entrei não existia nada. Era uma página em branco.”

Chegou com uma pergunta ao chefe: “O que você viu em mim que você precisa? Eu te entregarei.” Montou do zero a equipe de infraestrutura das fábricas na América Latina, responsável pela conectividade de tudo, até da parafusadeira no Brasil, no México e na Argentina. Por iniciativa própria, passou a apoiar outras áreas, até ser nomeada líder de todos os domínios de tecnologia na região. Desde 2021, a área saltou de quase 200 para 760 pessoas e se tornou um hub global.

O projeto que rendeu à equipe um prêmio global interno da companhia foi a primeira rede privada 5G da empresa no Brasil, na fábrica de colheitadeiras de Horizontina (RS), com ganhos de produtividade, segurança e qualidade. “Este foi um projeto muito exigente.” Inquieta, Fabiana levou o modelo à América do Norte e assumiu a área nas Américas. Desde outubro de 2025, Fabiana é Group Engineering Manager, Global Database, e Global IT Leader para a América Latina: lidera a TI da companhia na região e uma equipe global de bancos de dados, base da inteligência artificial interna. “Não tem como não me manter motivada todo o tempo. É uma empresa quase bicentenária, que prima pela inovação.”

Ao contrário de muitas mulheres da área, Fabiana encontrou apoio dos dois lados. “Tive líderes incríveis e humanos, homens e mulheres. E sou extremamente grata a todos.” Agora, quer retribuir, com palestras e programas em universidades. “Quantas já fizeram por mim, e agora esperam de mim representatividade.”

O trabalho ganhou um sentido ainda maior. Fabiana o associa à missão de ajudar a alimentar os quase 10 bilhões de pessoas previstos para 2050. “Estou fazendo a diferença no mundo, vou deixá-lo melhor para os meus filhos.”

Os meninos, aliás, hoje vão de bicicleta para a escola em Indaiatuba (SP), onde a família construiu sua casa. Mais que um endereço, a casa virou um centro de processamento de sentimentos, que mantém a família conectada a valores e hábitos mais humanos.

Fabiana Tellaroli integra a lista IT Forum Mulheres, do IT Forum Inteligência, que destaca 35 mulheres da tecnologia.

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