Eldorado do Carajás, sudeste do Pará, década de 1990. Numa escola com apenas oito computadores, uma menina de 13 anos aprende a dar os primeiros comandos a um computador, ainda nos tempos do MS-DOS. O curso era caro demais para uma família que vivia do garimpo e da lavagem de roupas. Mas o pai fez questão. “Ele deu um jeitinho e eu fiz esse curso.”
Aquele “jeitinho” mudou uma trajetória que parecia escrita. Léia Sousa cresceu em uma cidade conhecida no País pelo massacre dos sem-terra, longe de laboratórios, eventos e cursos. “Na década de 90, uma criança pobre no interior do Pará, todas as estatísticas mostravam que eu iria seguir um caminho muito diferente do que eu queria para mim.”
Hoje, é doutora em Informática, professora da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e vice-coordenadora do Mestrado Profissional em Computação. E resume: “Costumo dizer que ‘hackeei’ o sistema da vida.”
Léia estudou sempre na idade certa. Terminou o ensino médio em 2003, no antigo magistério de quatro anos, e no mesmo ano passou no vestibular de Matemática. Aos 28 anos, já tinha também o diploma de Sistemas de Informação. Para isso, mudou de cidade e conciliou estudo e trabalho. “Os meus 20 anos foram de graduação e os meus 30, de mestrado e doutorado, todos na sequência.”
As primeiras referências vieram da sala de aula. Na Matemática, ela teve uma única professora mulher na área de exatas. Depois, encontrou na professora Zenaide, praticamente fundadora do curso em Marabá, um exemplo de resistência. “Eu já testemunhei ela passar por muitas situações difíceis em relação a machismos.” Hoje, as duas são colegas de trabalho. Mais tarde, no mestrado, Léia lembra com reconhecimento de ter sido aluna das professoras Alba e Maria Cecília. “Eu as admiro até hoje.”
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Dez anos como única mulher do grupo
Depois das duas graduações, Léia quis ir além. Prestou seleção de mestrado em Belém (PA) e em Brasília (DF). Foi aprovada na Universidade de Brasília (UnB), em um processo que considerou mais imparcial, “às cegas”. Em 2012, aos 29 anos, pediu afastamento do cargo de professora da Educação Básica e partiu. “Desapego total. Mudando de cidade para cidade e continuando, apesar das dificuldades.”
A capital federal ampliou seu horizonte. No Pará, ela tinha conhecido laboratórios precários e cursos de inglês a distância de oito horas, numa época em que poucos tinham internet. Na UnB, encontrou capacitações gratuitas, inglês presencial e programação em C++, Java e sistemas web. “Brasília transformou totalmente a minha forma de ver o mundo.”
A pesquisa a levou à fronteira do conhecimento. Ela estudou redes ópticas, uma tecnologia de ponta ainda sem uso comercial. O campo era tão novo que o grupo precisou desenvolver o próprio simulador para seguir com os estudos.
Durante os dez anos de mestrado e doutorado, Léia foi a única mulher do grupo. No laboratório inteiro, as pesquisadoras eram “contadas nos dedos”. “Você chega num ambiente cheio de homens, já está fragilizada pela dedicação que a disciplina exige, e aquele ambiente meio que dá uma truncada em você.”
A insegurança chegava às perguntas: “Eu tenho vergonha de tirar a minha dúvida.” A saída foi coletiva. As poucas colegas passaram a estudar juntas depois das aulas, em um “treinamento para ficarem cada vez mais desinibidas”.
A volta e a ascensão
Em Brasília, veio o dilema que muitas jovens do Norte conhecem: para a carreira decolar, seria preciso ir para o Sudeste? “Fiquei muito tentada. Vou para o Sudeste, que é onde vou atingir meus objetivos.” Pesou a vontade de ficar perto dos pais, já idosos, em sua terra. Em 2017, ela passou no concurso da Unifesspa e escolheu voltar.
Logo recebeu disciplinas consideradas difíceis, como Teoria da Computação, que costumam servir de teste para professores recém-chegados. “Peguei disciplinas difíceis, mas, como estava vindo do mestrado e iniciando o doutorado, eu estava muito bem formada.” Com o tempo, descobriu o lado menos visível da carreira acadêmica, feito de gestão, equipes e burocracia. Hoje, entre aulas, projetos, o laboratório de programação e o mestrado, sua jornada chega a cerca de 63 horas semanais.
Na gestão de equipes formadas por jovens, Léia aposta na comunicação e no exemplo. “Quando eu falo: ‘eu não sei fazer isso’, os alunos começam a observar e dizem ‘se a professora não sabe fazer, então eu também posso falar que não sei’. Ou seja, é o primeiro passo para buscar o conhecimento.”
Em sala, ensina que o erro também ensina. Em uma aula de Sistemas Operacionais, quando uma configuração não funcionava e a turma começou a desanimar, ela avisou: “Vocês têm de saber onde está a falha. Isso também é um resultado.” Com a inteligência artificial (IA), mantém a mesma postura: “Não devemos temer, e sim aprender um novo processo.”
A sua inquietude de contribuir deu origem ao Tecer Mulher, criado em 2024. O projeto ensina mulheres com mais de 60 anos, muitas em situação de vulnerabilidade na Amazônia, a usar smartphones, aplicativos e serviços digitais com segurança. Léia também coordena o desenvolvimento de aplicativos em Libras para instituições municipais e participa do Divas Digitais, voltado a meninas. E hoje é líder do grupo de pesquisa “Teia Amazônica – Tecnologias, Educação, Inclusão e Acessibilidade”.
O Tecer Mulher venceu o Prêmio LED 2026 – Luz na Educação, da Globo e da Fundação Roberto Marinho, na categoria Educadores. Também ficou em segundo lugar na etapa estadual do Prêmio Educador Transformador, do Sebrae, e foi finalista nacional do 30º Concurso Inovação no Setor Público, da Enap. Os prêmios valorizam a carreira de Léia, mas também põem a Amazônia no mapa da inovação educacional.
Referências precisam chegar mais longe
Os números ajudam a explicar a importância desse reconhecimento. Segundo dados da Serasa Experian, citados por Léia, apenas 10% dos profissionais de TI da região Norte são mulheres, e a maioria ocupa funções operacionais, longe das decisões. No Pará, o índice cai para cerca de 2%. “Quando você coloca uma lupa nos dados regionalizados, percebe que a realidade ainda é muito crítica.”
Por isso, ela leva para a sala de aula listas de mulheres de destaque na tecnologia e defende que as profissionais participem de comunidades femininas. “Você precisa de uma inspiração. E vale destacar que, se você trabalhar muito bem, o seu prêmio vai ser mais trabalho.”
O pai, seu grande incentivador, morreu no ano passado. “Ele foi um dos principais apoiadores da minha vida inteira.” A mãe nem sempre entende os detalhes do trabalho da filha, mas se orgulha de cada conquista. “É uma energia boa que ajuda a gente a se automotivar.”
A menina que aprendeu os primeiros comandos de computador em Eldorado do Carajás hoje escreve novos caminhos para outras mulheres. O que ela repete aos alunos vale também para quem a lê: “Sempre é possível fazer algo inédito, de uma forma ou de outra.”
Mayla Dornas integra a lista IT Forum Mulheres, do IT Forum Inteligência, que destaca 35 mulheres da tecnologia.
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