Depois de oito anos, inovabra deixará sua sede na Avenida Angélica, em São Paulo, para outro endereço — e para outro modelo de atuação | Foto: divulgação

Para o inovabra, hub de inovação do Bradesco, a mudança para outra sede física é apenas uma das partes de sua reformulação. Para as lideranças do hub, ela representa uma alternativa ao tradicional modelo de cobrança por espaço, dando lugar a uma operação baseada em serviços, com o inovabra atuando como orquestrador de negócios entre corporações, startups e parceiros.

“Somos um hub de inovação, então resolvemos inovar, fazer algo diferente”, pontua Paulo Emediato, head de Growth e Comunicação do inovabra, em conversa com o Startups durante a Semana Caldeira, em Porto Alegre.

Para o executivo, a ideia é mobilizar o ecossistema por meio de um modelo mais alinhado aos desafios atuais das empresas e das startups, cobrando por créditos e por trilhas de serviços, e não mais por cadeiras. “Eu não estou precificando o espaço, eu estou precificando os serviços. Isso muda o jogo”.

Entretanto, a mudança não representa uma contestação ao formato tradicional dos hubs, que, segundo os executivos, são essenciais para a qualificação dos ecossistemas. “Não quer dizer que eu estou negando a lógica anterior, e não quer dizer que eu acho que isso é melhor ou pior. É um caminho que a gente entende que traz uma nova proposta de valor para o mercado, com mais conexão com as necessidades das áreas hoje”, pontua Paulo.

Aliás, quem quiser uma posição de trabalho na nova sede do inovabra ainda poderá usar o espaço, mas deixará de ser obrigado a pagar por ele. O novo modelo terá tiers, com diferentes valores, mas a lógica é a de uma carteira de créditos. Cada empresa decide onde gastar: eventos, programas de eficiência, desafios e provas de conceito com startups.

Um exemplo do que vem por aí já está rodando. O PRIA, Programa de Residência em Inteligência Artificial, montado com o CEIA e com parcerias de Google e Nvidia, capacita startups no uso aplicado de IA. A ideia é que o calendário anual reúna programas para corporações e para startups, além de arenas de negócio com foco em eficiência e outras voltadas a tendências.

Do matchmaking ao resultado

A diferença, segundo os executivos, está no acompanhamento. Em vez de só colocar corporação e startup na mesma sala, o inovabra quer estar ao lado das empresas e startups ao longo de seus projetos. “Na prática, o inovabra se propõe a coordenar as jornadas de serviços de inovação de ponta a ponta, sempre priorizando potencializar a entrega de valor para os membros”, explica Chen Wei Chi, head de Negócios e Soluções do inovabra.

A mudança também responde a uma dor que aparece dentro das próprias corporações. Conforme explica Chen, a nova lógica ajuda a explicar o valor de um hub para além do espaço físico. “Quando eles vão defender o orçamento de inovação, são questionados por que não utilizam o espaço alugado, sendo que o valor está nos outros serviços”, disse.

Para o inovabra, a nova proposta também ajudará a medir o retorno que vai além do espaço físico, e que é a pergunta que mais pesou sobre as áreas de inovação nos últimos anos. “A gente pode ser parceiro de mensuração, porque vou ter um delta de transformação mais claro, com uma visão de início, meio e fim das iniciativas”, completa Paulo.

Na visão de Renata Petrovic, head do inovabra, o movimento é o de ir “da conexão para a orquestração, da experimentação para o resultado”. “Orquestrar a inovação articulando todo o ecossistema em torno de desafios torna-se essencial para ampliarmos o alcance e o impacto de entrega”, afirma.

Com este modelo, o plano é também mirar empresas que ainda carecem de área de inovação, ou viu essa área virar nos últimos tempos um time de desenvolvimento de IA. Nesses casos, o hub pode atender direto as áreas de negócio das empresas e as próprias unidades do Bradesco, que só em 2025 recebeu mais de 70 provas de conceito do inovabra, entre elas os projetos BIA Review e Identidade Digital.

Nova casa em 2027

Em sua atuação no prédio da Avenida Angélica, em São Paulo, o inovabra reuniu 270 startups residentes ativas e cerca de 40 corporações. Desde 2018, mais de 600 startups passaram pelo espaço físico, outras 3,1 mil foram conectadas via parceiros e mais de mil negócios foram gerados entre membros da comunidade. Só no primeiro semestre de 2026, entraram 44 startups e seis corporações, e os eventos promovidos pelo hub reuniram cerca de 20 mil pessoas no ano passado.

De acordo com os executivos, os números mostram que a comunidade não está encolhendo. O que mudou foi a forma como ela usa o espaço: cerca de 70% das startups residentes já operam de forma total ou majoritariamente remota. “Muitas empresas não estão lá, mas elas sempre estão lá quando tem chamado, quando tem programa, quando tem uma iniciativa específica. Ou seja, eu não preciso estar preso nesse modelo”, diz Paulo.

O endereço da nova sede deverá ser divulgado nas próximas semanas, junto com o lançamento da plataforma digital que vai sustentar a operação. É nela que as empresas vão alocar seus créditos, acompanhar o calendário de programas e ter visibilidade do que está acontecendo.

A operação começa em soft opening no primeiro trimestre de 2027, e a migração começa pelos membros ativos, que terão condições especiais para experimentar o novo formato. Paulo conta que fez encontros com startups, enquanto o time de Chen conduz as conversas com as corporações, com participação de Renata.

Parcerias regionais

No formato híbrido entre físico e digital, outra parte do plano do inovabra é diminuir a distância com ecossistemas fora da capital paulista. A leitura de Paulo é que startups de cidades regionais ainda têm dificuldade de acessar oportunidades em São Paulo, e o hub quer ser um agente de aproximação desses mercados. “Fazer parceria institucional é bom, mas fechar parceria de negócio é melhor”, dispara.

As primeiras apostas são o Instituto Caldeira, em Porto Alegre, a ACATE, em Santa Catarina, e o Porto Digital, no Recife, comunidades maduras e também focadas em geração de negócio. Entre as ideias em estudo estão mais conversas de startups dessas regiões com investidores paulistas, desafios conjuntos e arenas de negócio integrando os portfólios.

O primeiro resultado concreto veio nesta semana. Durante a Semana Caldeira, o inovabra e o Instituto Caldeira anunciaram uma parceria que inclui a Missão China 2027, de 22 a 29 de maio, que levará C-levels a Hong Kong e Shenzhen, com agenda que prevê BYD, Huawei, Tencent, DJI e a bolsa de Hong Kong.

“Ao conectar nossos desafios estratégicos a um ecossistema da densidade do Caldeira e a centros globais como Shenzhen e Hong Kong, encurtamos a distância entre tendência, oportunidade e decisão”, finaliza Paulo.

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